Figuras 23 a 27- Oficina de desmontagem durante Estágio e Docência: Desmontando o papel do corpo
Nas práticas cênicas desempenhadas nesta experiência patafísica com a montagem de
Umbuzada, passamos a mirar uma ação corporal entrecortada de diferentes contextos de
pensamentos que aparecem como gesto de ação-reflexiva dos processos artísticos e pedagógicos, percorrido pelo corpus do investigador (professor-performer) em experimentação e formação. Entramos em contato com diversos outros textos do Jarry e das estratégias de um universo patafísico e passamos a desenvolver ações cênicas elaboradas como estratégias e soluções, presentes como elemento essencial da criatividade de nossa escritura cênica.
Recorrendo à patafísica (uma ciência das soluções imaginárias), Jarry (1873-1907) expõe os princípios e os fins desta abordagem no romance Gestes et opinions du docteur
Faustroll, definindo-a como “ciência do particular, ciência da exceção”. Promoveu durante
todo o século XX, sua proposta, aparentemente absurda ou tão absurda como a realidade o exige, e acabou inspirando outros autores dos séculos seguintes. Por essa abordagem nos enviesamos para propor um caminho performativo no processo inspirado na dramaturgia de
Ubu Rei (1896) do francês Alfred Jarry (1873-1907), o apóstrofo da pataphysique.
Existe um Collège de Pataphysique, fundado em 1948, que publica a revista os
Carnets du Collège. Nesta publicação, apareceram os primeiros textos de Ionesco (o criador
do “teatro do absurdo”; muitos textos inéditos de Boris Vian (1920-1959), Jarry ou Julien Torma (1902-1933) e os primeiros trabalhos do grupo OuLiPo. Ambientados na experimentação Patafísica, de início evidenciamos a estreita relação fronteiriça entre o teatro e a performance com o desejo de remontar, no processo criativo supracitado, um corpus genético através de registros pessoais e coletivos e escritura diante da memória dos autores da montagem em questão.
A dramaturgia de Ubu Rei passou por diferentes montagens por todo mundo. Encontramos na adaptação da montagem do diretor Cacá Rosset que tomou como eixo Ubu na Colina, peça em dois atos para marionetes, que a exemplo de Jarry (RAULINO, 2006, p. 87):
[...] montou, desmontou, cortou e colou trechos das peças Ubu Rei ou Os Poloneses, Ubu Cornudo, Ubu na Colina, Almanaques do Pai Ubu, além de enxertar fragmentos de outros textos de Jarry no roteiro inicial. O texto efetivamente encenado foi sendo definido no decorrer dos ensaios e passou por diversas transformações durante a temporada do espetáculo em cartaz. O personagem Ubu foi inspirado em um professor de física. Sua figura foi deformada por um dos seus alunos para quem aquele professor representava “todo o grotesco que houvesse no mundo”, conforme declarou Jarry para a platéia, antes do início do espetáculo de estréia de Ubu Roi, em dezembro de 1896 (Levesque, 1954, p. 37). A intenção dos realizadores de trazer
para a cena aquele universo fica patente na afirmação de Lina Bo Bardi no programa do espetáculo: “O que quisemos fazer, todos nós, quando montamos o Ubu, era continuar aquela poética que é uma poética da infância e da primeira adolescência. Jarry é o iniciador da única vanguarda positiva que não morre: a vanguarda do cinismo e da destruição.(IDEM p. 87).
O processo de experimentação Umbuzada, com os alunos da graduação em teatro do departamento de Arte da UFRN/RN, percorreu um caminho parecido e passou por diferentes momentos em sua construção. Devido à experimentação de temas sugeridos pelos próprios discentes, insatisfeitos com os cenários políticos do país, coube trazer à luz das experimentações e questionamentos também presentes na dramaturgia de Ubu Rei de Jarry, temas que tratam de decidir os caminhos e as questões sociais de um povo como a corrupção, o jogo pelo poder e a soberania de políticos.
Bombardeados pela crise política brasileira, nos direcionamos em agenciar nossa montagem Umbuzada como crítica social através da performance colaborativa em teatro performativo. O tema central se desenvolveu em torno da usurpação do poder, dando vida ao coro de palotins, criticando sua postura de marionete diante dos decretos do grotesco Pai Ubu e sua primeira dama Mãe Ubu que passaram a governar a ‘Polônia’ imaginada por Jarry. Silvia Fernandes entende que a peça de Jarry, se reduzida a sua estrutura básica, reproduz o esquema mais frequente das tragédias: “o assalto ao poder legítimo por um pretendente à coroa, a exposição de suas maquinações e seu triunfo por meio da astúcia e da força”. (2007, p.15).
Figura. 28 Code QR – Vestígios de criação Mãe Ubu (Performer Guga Medeiros) Fonte: Material pessoal do coletivo. Registro: Vicente Martos
Partimos da construção de um corpo que se entende enquanto parte significativa em relação ao papel que desenvolve durante a criação de um processo artístico, reconhecendo, ser semelhante aos papeis de um corpo em qualquer outro processo. Neste sentido, nos pautamos em três aspectos considerando-os como caminho para pensar a construção prática desta investigação que se desvela concomitantemente à construção teórica desta investigação. Aspectos como: 1- os autores participam da construção do espetáculo; 2- o texto é construído em diálogo com a cena; 3 - campo autoral plural e híbrido (TROTTA, 2006, p.161), são oriundos do diálogo mestiço junto ao grupo de pesquisadores-colaboradores em uma de suas
ações (laboratórios). Nesse caminho colaborativo dos processos o foco de autoria sugere outras configurações dos meios de realização de maneira que passamos a priorizar por atitudes de pesquisa mais ligadas aos processos e procedimentos colaborativos e por sua vez performativos.
Neste ponto, optamos pelo caminho colaborativo, pois sua forma estabeleceu uma dinâmica viva dos procedimentos, considerando que os pressupostos de caráter simultâneo e ao mesmo tempo artísticos e pedagógicos quando integrados em um gesto de ação compartilhada criam uma espécie de autoria emergente da necessidade do coletivo. Pesquisadores como Antônio Araújo (2008), Josette Féral (2009), Rosyane Trotta (2006), aqui estudados, abordam as questões colaborativas acerca de montagens cênicas e apontam um aspecto interessante à permanência das funções artísticas específicas e de suas hibridizações.
O colaborativo à luz da citação de Rosyane Trotta (2006, p 160), tem como foco a autoria das experiências que estabelecem relações coletivas e colaborativas. O colaborativo expressa sua principal utopia “no papel preponderante conferido ao diálogo entre os sujeitos, na tentativa de exercitar o consenso na ausência de condições propícias para gerar uma identidade coletiva”. (IDEM, p.160). Propõe uma dissolução das formas hierárquicas de organização da cena e estabelece um organismo mestiço, que por sua vez é compartilhado pelos integrantes que partilham de um projeto em comum. Cada artista envolvido contribui com o todo do processo e passa a assumir papéis junto ao coletivo.
Figura. 29. Code QR – Vestígios da montagem UMBUZADA | Um experimento Patafísico Fonte: Cia de Menines Performace Potyguar. Registro: Rita Cavassana
Nesta prática artística contamos com um trabalho prático-laboratorial seguindo uma metodologia de criação cênica colaborativa, na elaboração e experimentação de oficinas work
in progress (Figuras 30-41) utilizadas como estratégia para a construção de cenas. Desta
forma, acompanhar de perto as aulas teórico/práticas ao lado da professora-performer Naira Ciotti, possibilitou que também pudéssemos criar em conjunto com os discentes. Enquanto coorientava suas experimentações, também, encontrava um caminho metodológico de atuação que se perfez em oficinas colaborativas.