Uma outra visão da relação médico-paciente aparece no cenário nacional e é defendida por um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Rio de Janeiro. O grupo criado em 2000 e formado, na sua maioria, por professores do Instituto de Medicina Social dessa universidade, trabalha sob a coordenação da Professora Roseni Pinheiro, com outros pesquisadores de universidades brasileiras, Ministério da Saúde e Associação Nacional do Ministério Público em Defesa da Saúde. Definido como LAPPIS, Laboratório de Pesquisas de Integralidade em Saúde, é formado por uma equipe multidisciplinar que vem trabalhando a proposta da integralidade a partir da idéia de uma assistência integral construída nas práticas
e relações, nas quais as pessoas, as instituições e os serviços possam ser reconhecidos como partícipes do cuidado.
De modo introdutório, debate-se a tradição histórica voltada à dedicação social no cuidado integral do homem e, como aparentemente esta, no rumo da história, perdeu o seu caminho e tornou-se uma medicina técnica/científica carregada de objetividade que desconsidera o discurso subjetivo do seu semelhante. Neste sentido, assistimos a uma assimetria entre o avanço tecnológico pulsante da medicina moderna e o seu compromisso social, reconhecedor dos valores subjetivos do ser. Assim, a virada da medicina moderna impõe novos valores e olhares, fragmentando, sobretudo a atenção/assistência/cuidado e exercendo a sua influência diretamente na relação inter-pessoal de médicos e pacientes.
Porém, no advento do século XXI, a medicina volta às suas origens e ao repensar o seu objeto, vê nele um ser humano esquecido, fragmentado, considerado somente como partes a serem trabalhadas e não como um todo. Neste sentido, aparecem no cenário nacional duas vertentes de integralidade trazidas por Mattos (2001).
Em uma reflexão do autor, a integralidade é vista primeiramente como a assistência integral à saúde em oposição a uma prática segmentada das escolas de medicina com base curricular nos postulados de Flexner. A prática integral opõe-se ao curriculum escolar centrado no hospital e no laboratório, opõe-se a super- especialização que verticaliza o saber médico em órgãos/sistemas em detrimento do corpo, opõe-se a visão reducionista biomédica que inferioriza o valor dos determinantes psicológicos e sociais do processo saúde/doença/cura.
Neste sentido, Mattos (2001) procura uma medicina nos alicerces da Saúde Coletiva condizente com uma prática integral da medicina com profundas mudanças curriculares.
A incorporação da prática integral, nesta reflexão do autor, assenta-se no conhecimento epidemiológico da história natural da doença, base da medicina preventiva clássica. Entretanto, a integralidade não está dada somente no reconhecimento dos determinantes e, sim na prática da relação no sentido da atenção/assistência/cuidado. Assim, Mattos (2001) supera este paradigma da medicina preventiva sobre a promoção/prevenção/recuperação/reabilitação quando reconhece a necessidade de uma prática integral no seio da relação médico- paciente. Seria inaceitável, afirma o autor, que os médicos aguardem a procura de pacientes para aliviar o seu sofrimento/doença, quando dispõe-se de técnicas para o diagnóstico precoce e, até a cura de doenças, mesmo antes do seu devenir clínico.
A integralidade estaria na atitude destes profissionais que procuram dialogar com os seus pacientes a respeito de outras condições/determinantes da saúde/doença na ocasião da visita médica. Pensar na doença existente, mas procurar também outros fatores de risco de doença presentes nestes pacientes caracterizaria, segundo Mattos (2001), uma relação médico-paciente integral enquanto sua prática.
A atitude de um médico que diante de um paciente busca prudentemente reconhecer, para além das demandas explícitas relacionadas a uma experiência de sofrimento, as necessidades de ações de saúde, como as relacionadas ao diagnóstico precoce ou à redução de fatores de risco ilustra um sentido de integralidade profundamente ligado aos ideais da medicina integral (...) a abertura de médicos para outras necessidades que não as ligadas à doença presente ou por vir a se apresentar – como a simples conversa – também ilustra a integralidade (Mattos, 2001:50).
Na reflexão do autor, a integralidade é apresentada como uma dimensão de práticas no encontro de profissionais e pacientes, onde está sempre presente o olhar
além da queixa e o reconhecimento das necessidades/expectativas/ demandas dos sujeitos.
A outra vertente de integralidade, apresentada por Mattos (2001), destaca-a como um modo de organizar as práticas de saúde. Segundo o autor, o Sistema de Saúde apresenta-se dicotomizado, uma vez que a assistência médica e a saúde pública são pensadas separadamente. Mesmo todas as tentativas de enfretamento a esta prática, no cenário atual, nos parecem inadmissível que os problemas de saúde sejam resolvidos de forma fracionada. O fato de um paciente com tuberculose, diabético e com hérnia inguinal tenha que dar entrada no Sistema por três portas diferentes representa o fracasso de uma assistência integral à saúde.
Para dar resposta a esta problemática, Mattos (2001) apresenta o princípio da organização contínua do processo de trabalho nos serviços de saúde que procura dar conta das necessidades de uma população alvo e que pretende um diálogo entre os diferentes sujeitos e seus diferentes modos de perceber as necessidades dos serviços de saúde.
Para o autor, a experiência brasileira do Programa Nacional de Aids aparece como uma aproximação ao princípio da integralidade por ele defendido, visto que combina ações tanto na perspectiva preventiva como assistencial.
A resposta governamental brasileira à Aids sempre se pautou pelo respeito aos direitos dos que vivem com essa doença. Concebendo a Aids como um mosaico de epidemias, envolvendo diversos modos de transmissão, a resposta brasileira abraçou um elenco abrangente de estratégias e intervenções. Há aqui outra nuance no sentido de integralidade aplicado ao desenho das políticas: a capacidade de abarcar os diversos grupos atingidos pelo problema, respeitando suas especificidades. Mas, para fazê-lo inteiramente, pode ser necessário transgredir os espaços das políticas setoriais (Mattos, 2001:61).
À guisa da integralidade, trazida pelo autor, apresenta-se como o reconhecimento ao outro na relação médico-paciente, mas voltada para a necessidade de entender o acesso à saúde universal e ao atendimento integral estabelecido na relação sujeito-
sujeito nos serviços de saúde, porém coexiste com outras definições de integralidade presentes na arena epistemológica atual no campo da saúde coletiva.
5.6 Relação médico-paciente: perspectiva da integralidade centrada no