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Nem todos os escravos fugiram. Em situações adversas, os cativos souberam usar os recursos que tinham para ampliar a noção de liberdade. Muitos escravizados conseguiram viver com as mesmas condições materiais conquistadas pelos alforriados. O direito de ir e vir, sem ter que dar satisfação de sua vida a ninguém, de ser dono de si, ter um lugar para viver. Ao longo do século XIX, a expressão “viver sobre si”, utilizada na fala dos escravos, remetia aos escravos que conseguiram relativa independência, tanto financeira quanto na relação com o seu senhor.

Assim, em inquérito instaurado na Delegacia de Polícia da Capital sobre uma desavença entre operários em uma obra da capital, encontramos a história do

93 Secretaria de Polícia do Maranhão. Auto de perguntas instaurado na Delegacia da Capital referente

a esclarecimento feito por Faustina, que se dizia liberta. SãoLuís, 1877. Setor de avulsos, APEM.

94 Secretaria de Polícia do Maranhão. Auto de Perguntas instaurado na Delegacia da Capital

referente a esclarecimento prestado pelo escravo Luís Francisco que fugira de Itapecuru-Mirim para esta cidade com intenção de provar ser livre, em virtude de ser filho de preta livre. São Luís, 1872. Setor de Avulsos. APEM.

escravo Pedro Paiva. Pedro era servente de pedreiro em uma obra em São Luís, escravo de Joaquim Ayroso. Entretanto, quase não tinha laços de dependência com seu senhor. Por ser escravo de ganho, a sua relação com este limitava-se a pagar o valor acertado entre as partes. Pedro Paiva trabalhava com outros escravos e homens livres na obra de Manoel Silva Rodrigues, na Rua Grande. A mão-de-obra escrava representava sempre uma concorrência com o trabalhador livre. Além deste, ainda tinha o trabalhador forro que engrossava dia-a-dia os cortiços. Desta forma, escravos, livres e forros disputavam os mesmos empregos. Pedro Paiva brigou com Manoel Alexandre. Desta luta resultaram alguns ferimentos. Pedro Paiva deu queixa contra Alexandre na Chefatura de Polícia, como consta no auto de perguntas:

Perguntado qual o motivo da rixa com Manoel Alexandre?

Respondeo que mora junto com Manoel Alexandre e este que não é bom homem e é conhecido por Manoel Ceará e mantinha, com este respondente, rixa antiga que lhe correspondeu do mesmo modo e assim vivem ambos em desarmonia.95

A rixa de Manoel com Pedro era antiga. Rixa de vizinhança. Os dois trabalhavam e moravam no mesmo lugar. Nas últimas décadas da escravidão, escravos, livres e forros não disputavam, apenas, os mesmos espaços no mercado de trabalho, porque eram empurrados pela pobreza para os mesmos lugares, ou seja, cortiços e casebres.

Outra questão a se sublinhar é a relação entre escravidão e liberdade. Para muitos cativos, liberdade significava, também, estar longe do domínio do senhor; pois, para os escravos, o que definia a sua condição como cativos, mais do que a condição jurídica, era a sua condição de vida. Deste modo, a história de Ignácio pode-nos ajudar a entender que muitas vezes a luta pela alforria tornava-se algo inviável e que, diante disto, novos mecanismos de resistência e sobrevivência precisaram ser forjados. Ignácio era escravo do capitão Pedro José Augusto de Lemos Bacellar. O escravo Ignácio, de cinquenta e três anos, lavrador, num ato de desespero, tentou matar dois companheiros de cela. Ele estava preso na cadeia pública a pedido de seu senhor. Em 1881, ele foi julgado nesta capital pelo crime de tentativa de homicídio. Ignácio estava preso em virtude de ação de liberdade que movia contra seu senhor. O crime aconteceu na cadeia onde Ignácio se achava

95 Secretaria de Polícia do Maranhão. Inquérito policial instaurado na Capital de desavença entre

arbitrado porque o seu senhor iria exportá-lo para outra província. Num momento de desespero, perpetrou oito facadas no preso Isidoro e atingiu outro companheiro de quarto, Ângelo Bispo Custódio, com duas facadas. No auto de perguntas feito ao escravo Ignácio, foi-lhe perguntado quais foram as motivações que o levou a praticar tal crime; este:

Respondeu que movendo uma ação de liberdade em seu favor contra o seu senhor capitão José Pedro Augusto de Lemos Bacellar há cerca de cinco annos, aconteceu que hoje ao meio dia o administrador desta cadeia o intimasse para sair a fim de ser entregue ao seu senhor que o ia exportar para ser vendido fora da província; que com semelhante nova ficou fora de si, lançando mão de uma faca que há dias trazia occulta partiu contra o prezo desavisado de nome Izidoro, dando-lhes facadas e bem afim no outro de nome Ângelo Bispo, não podendo precisar o número das facadas, pois que seu fim era feril-os, até que recebesse elle respondente a morte, mais preferível do que a escravidão.96

O crime foi resultado da insatisfação de Ignácio com a condição de escravo que ainda vivia. A querela entre Ignácio e seu senhor começou quando aquele deu a este a quantia de sua liberdade, que lhe foi entregue depois de contrato no qual ele deveria trabalhar como feitor para seu senhor por cinco anos mais depois da data da sua liberdade. Depois dos cinco anos de trabalho acertado com o seu senhor, um conhecido de Ignácio, de nome Sabiá, a mando seu senhor, rouba-lhe a carta de alforria. Revoltado, Ignácio entrou com uma ação de liberdade contra seu senhor. A arma que Ignácio usava era a mesma usada no trabalho. Ignácio não aceitava a ideia de ser vendido, porque não aceitava mais o cativeiro a que o seu senhor o submetia. No auto de perguntas feitas a Sebastiano Francisco de Sousa, testemunha, mas preso, também, na mesma cadeia e quarto de Ignacio, respondeu que ele “[...] lhe dissera que no dia em que fosse tirado para ser vendido, havia de matar um, afim de não servir mais a pessoa alguma [...]”.

O interessante neste processo é que Ignácio em nenhum momento dos interrogatórios fez questão de se defender. Nem disse, nem respondeu nada além das perguntas básicas, nome, endereço, etc. Todas as testemunhas afirmam que Ignácio não tinha rixa com ninguém, e o que motivou o crime foi a notícia de que seria vendido para outra cidade. Entende-se que a vontade de Ignácio de ser condenado fez que neste processo a absolvição fosse algo inviável. Ignácio preferia ficar preso a voltar para a casa de seu senhor. Desta forma, ele iria continuar

96 Autos cíveis de apelação. Ignácio José Correia. (Apelante). São Luís, 1885. Arquivo do Tribunal de

vivendo na cadeia e trabalhando. Lá ele já gozava de relativa independência e trabalhava no serviço de fazer vassouras. Algo semelhante ocorreu no ano de 1860. O escravizado Emanoel assumiu um crime que não foi de sua autoria para ficar preso.

[...] Porque a confissão do réu em nada pôde prejudica-lo, e por ser suggerida por insinuação alheia, pois que sendo recolhido do mesmo modo o réo na enxofia da cadêa publica desta cidade, constando com os outros presos, que alli encontrou, achou-se nutridor trabalhando cada dia para si,e alem disso recebendo a diária de Moveis da Nação, pois isso assentou o mesmo ao confessor o mesmo reo confessar um delito a ele estranho por ser persuadido que seria sentenciado com galés perpetuas e que com isso ficaria isento do captiveiro em que se achava.97

Como destacado, Emanoel relacionava a cadeia como um lugar onde podia trabalhar para ter condições de se sustentar e livrar-se do domínio do senhor. Entretanto, a sorte de Manoel não mudou. Em vez de ser condenado a galés, como esperava, ele foi condenado a levar 1.300 chibatadas e a “voltar para o domínio do seu senhor”. Nem todos os escravos obtiveram êxito em seus projetos individuais.

Em auto de perguntas feito a Antônio, escravo de Bernardo Nunes, ele informou que era natural de Benguela. Veio da África para o Maranhão no período da Independência e desde este período era escravo de Bernardo Nunes. A história de Antônio é a história de um escravo que buscava melhores condições de vida. A fuga de Antônio foi motivada pela impossibilidade de negociação com o senhor. Como consta no auto de perguntas feito ao mesmo Antonio,

Perguntado o que veio fazer à esta capital, desde quando aqui está , e si teve licença de seu senhor para isso, e em caso contrario, como andava por esta cidade? Respondêo que fazem já duas semanas que se acha nesta capital, para onde veio sem licença de seu senhor, de cujo poder sahio à procura de outro senhor, visto não poder mais servir aquelle, que lhe não dá tempo ou folga para ganhar algum dinheiro.98

Percebe-se que, no caso de Antônio, a insatisfação com o senhor decorria da exigência deste pelo trabalho intermitente. Sem negociação, não houve como os dois continuarem com a mesma relação. Antônio não via a liberdade como a compra da alforria. Provavelmente este seria um projeto posterior. No momento, a exigência não é requerer sua liberdade, mas ter um senhor que lhe possibilite folga e meios para ter uma renda própria. Supõe-se, portanto, que era este o propósito de Antônio

97 Autos cíveis de apelação. A justiça. (Apelante). São Luís, 1860. Arquivo do Tribunal de Justiça do

Estado do Maranhão.

98 Secretaria de Polícia do Maranhão. Auto de perguntas instaurado na Delegacia da Capital,

ao fugir para a capital. Naquela circunstância, a capital representava o lugar propício para alcançar o seu objetivo. A mobilidade proporcionada pelas cidades e a possibilidade de emprego eram um atrativo para escravos e libertos. É importante ressaltar que neste momento está posta a discussão sobre a abolição, e um número crescente de alforrias surge neste período, seja pelo fundo de emancipação ou pela ação direta dos escravos; a compra da alforria intensificou ainda mais este interesse.

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