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Micaela Pafume Coelho A noção de sistema está presente nos estudos da linguagem desde os primeiros trabalhos de que se tem registro: já nas gramáticas gregas, esse preceito mostrou-se importante na elaboração do sistema das partes do discurso7. Séculos mais tarde, a noção de sistema na

linguagem foi relevante, principalmente nos estudos da sinonímia efetuados pelos gramáticos do século XVIII; em seguida, essa noção modificou-se, sendo também utilizada pelos estudiosos da Gramática Comparada do século XIX, de forma a indicar uma estrutura de organização das línguas estudadas.

Entre o final do século XIX e o início do século XX, a noção de sistema foi utilizada por Ferdinand de Saussure em seus estudos acerca da língua. Essa noção ocupa um lugar central na teorização do linguista, visto que compõe a própria definição de língua por ele proposta: um sistema de signos. Assim, uma vez que os estudos de Saussure se mostraram relevantes por delinearem o objeto de estudo próprio da Linguística, outorgando a ela um lugar entre as ciências modernas, e, tendo em vista que a noção de sistema é constituinte desse projeto epistemológico, consideramos pertinente analisar como essa noção era considerada nos estudos da linguagem anteriores ao início do século XX. 7 cf. Weedwood, 2012.

Micaela Pafume

Coelho

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de Uberlândia. ORIENTADORA

Profa. Dra. Eliane Mara Silveira

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Para tanto, efetuaremos um percurso que se inicia nos estudos gregos, desde a criação do sistema de escrita fonético-representativo até a elaboração dos sistemas das partes do discurso, que aparecem nas primeiras gramáticas desenvolvidas na Grécia Antiga. Depois, buscaremos mostrar de que modo as noções de sistema, valor, relação e significação a ela subjacentes compõem os estudos dos gramáticos no século XVIII. Por fim, analisaremos a concepção de sistema adotada pelos estudiosos da linguagem do século XIX, os quais se dedicavam, sobretudo, às investigações concernentes à Gramática Comparada. Por serem contemporâneos de Saussure, conhecer o modo como esses autores utilizam a noção de sistema em suas elaborações pode evidenciar como essa mesma noção saussuriana de sistema estabelece uma relação de continuidade e ruptura com os estudos da linguagem desenvolvidos naquela época.

Essa análise justifica-se pelo fato de que a noção de sistema já compunha as teorizações acerca da linguagem anteriores às elaborações saussurianas. No entanto, apesar disso, o corte epistemológico efetuado por Saussure trouxe a noção de sistema8 de um modo que permitiu a

delimitação do objeto de estudo ao qual a Linguística deveria se dedicar.

Os estudos gregos

Assim como se deu com o sistema numérico, o sistema de escrita foi essencial para o desenvolvimento da sociedade na passagem da Pré-história para a Idade Antiga. De acordo com Cagliari (2004, p. 1), os primeiros registros escritos foram feitos por meio da escrita ideográfica, com os pictogramas, que consistiam na representação gráfica da impressão visual das coisas. Esse tipo de escrita, mais tarde, deu lugar ao uso dos silabários, os quais, segundo Cagliari (2004, p. 1), representavam os sons das sílabas, o que possibilitou o surgimento do sistema de escrita silábico.

Com isso, diferentes povos valeram-se tanto dos sistemas de escrita mais antigos, tais como a escrita cuneiforme da Mesopotâmia, como também de criações próprias para formularem seus alfabetos. Desse modo, já no século XI a. C., há registros de que o sistema de escrita fenícia, por exemplo, havia se estabilizado, após diversas modificações, com um alfabeto composto por 22 letras. Cagliari (2004, p. 3) afirma que esse sistema era puramente fonético, sendo ele a origem do alfabeto grego, o qual fundamentou o desenvolvimento do alfabeto

8 Não foi apenas a noção de sistema que passou por esse deslocamento teórico, permitindo que Saussure estabelecesse seus princípios linguísticos do modo como o fez. As noções de valor, arbitrário e signo, entre outras, também foram de fundamental importância para o estatuto da Linguística enquanto ciência moderna.

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romano. Os gregos, por sua vez, são considerados precursores no desenvolvimento de um alfabeto cujas letras representam consoantes e vogais, que, dispostas umas ao lado das outras, compõem as sílabas (Cagliari, 1997, p. 4).

Assim, após uma adaptação do alfabeto fenício para as necessidades fonéticas da língua grega, no século IV a. C., o alfabeto grego estabilizou-se em 24 letras, com a ortografia que deu origem ao sistema de escrita do grego clássico. Dessa forma, com base na história do sistema de escrita grego, é possível perceber que, mesmo que a escrita seja tomada apenas como uma representação da língua,9 no período da História Antiga, a noção de sistema já estava relacionada

aos estudos da linguagem, ainda que de maneira indireta.

Uma vez estabelecidos o alfabeto e o sistema de escrita, os gregos puderam registrar seus estudos acerca da linguagem propriamente dita. Os primeiros estudos da linguagem conhecidos são datados, aproximadamente, do século V a. C. De acordo com Weedwood (2002, p. 21), “a história registrada da linguística ocidental começa em Atenas: Platão foi o primeiro pensador europeu a refletir sobre os problemas fundamentais da linguagem”. Nesses estudos iniciais dos gregos, de acordo com Neves (1987, p. 21), havia uma quantidade pequena de noções teóricas, as quais contrastavam com um “condicionamento linguístico significativo”, constituindo, assim, “um fundo para a organização dessas noções”.

Apesar de as reflexões serem pautadas em poucos preceitos teóricos, é notável que a noção de sistema consistia em um elemento componente desse pequeno grupo. Weedwood (2002, p. 33) afirma que foram os gregos que elaboraram o “sistema das partes do discurso” e desenvolveram alguns dos conceitos a ele relacionados, os quais até hoje apresentam um caráter essencial nos estudos linguísticos. No entanto, o que as gramáticas propunham como novo, na verdade, não era a quantidade de fatos que buscavam apresentar, mas o modo como a análise dos elementos, muitos dos quais já tratados na Filosofia, deveria ser efetuada. Nesse sentido, Neves (1987, p. 122) afirma que

a faixa que maior semelhança apresenta no tratamento dos filósofos e dos gramáticos é o exame dos elementos, embora a motivação desse exame seja totalmente diferente [...] e a gramática exiba um quadro explícito e organizado como não poderia haver na filosofia. (grifo nosso).

Assim, vemos que, embora a palavra sistema não seja mencionada no trecho acima, a noção de sistema encontra-se presente na abordagem gramatical dos conceitos. Isso pode ser

9 Partimos do posicionamento de Saussure (2006, p. 34) de que “língua e escrita são dois sistemas distintos de signos; a única razão de ser do segundo é representar o primeiro”.

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evidenciado pelas noções de organização e explicação, que se apresentam de forma relacionada aos elementos-alvo da análise das gramáticas gregas.

A primeira gramática do Ocidente foi elaborada por Dionísio, o Trácio, e, segundo Neves (1987, p. 115), consistiu em “um tratado breve e metódico de doutrina gramatical”. Nele, Dionísio apresenta oito partes do discurso, as quais formavam um esquema bastante semelhante àquele apresentado nas gramáticas atuais: o nome, o verbo, o particípio (que é apresentado de forma separada do verbo, aspecto que não se mantém nas gramáticas contemporâneas), o artigo, o pronome, a preposição, o advérbio e a conjunção.

De forma semelhante, a gramática de Apolônio Díscolo – que foi considerada a de maior projeção durante o período dos imperadores romanos – apresentava também essas mesmas oito partes do discurso. Todavia, além da tarefa de classificação, Apolônio se dispôs a tratar também da sintaxe das partes do discurso, colocando-as em uma “ordem que imita a posição completa” (Neves, 1987, p. 157). Há, dessa forma, uma noção de hierarquia envolvendo a sintaxe das partes do discurso, visto que, para Apolônio, os elementos mais importantes do sistema são o nome e o verbo, sendo os outros elementos menos essenciais ou até mesmo acessórios:

Essa classificação distingue, pois, palavras essenciais e palavras acessórias, as primeiras indispensáveis à existência de uma proposição, as últimas correspondentes a ideias e relações secundárias (Neves, 1978, p. 158).

Dessa forma, é possível notar que a noção de sistema que fundamenta o estudo dos gregos acerca das partes do discurso, por se vincular ao trabalho de categorização gramatical e possuir um caráter hierárquico, parece estar relacionada a uma ideia de organização linguística. Em outras palavras, naquela época, a noção de sistema nos estudos da linguagem era utilizada como forma de designar uma classificação dos elementos linguísticos: “A gramática, procurando examinar fatos de língua, faz a história virada: trata as partes do discurso como classes de palavras” (Neves, 1987, p. 122, grifo da autora).

Nesse sentido, essa concepção de sistema assemelha-se àquela tomada no âmbito da Sistemática (ou Taxonomia) da Biologia, porque a noção de classificação apresenta-se como um elemento adjacente central nas concepções de sistema adotadas nesses dois campos. O principal aspecto de distinção entre elas é o objeto de estudo ao qual estão relacionadas: na Taxonomia, visa-se à classificação e à descrição dos seres vivos, enquanto, na gramática grega, visava-se à classificação das partes do discurso, ou seja, o objeto de estudo era a linguagem humana.

Assim, uma vez mostrado o modo como a noção de sistema apresentara-se nas primeiras manifestações dos estudos da linguagem registradas, cabe conhecer como essa noção concebeu-

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se em outro momento importante da teorização acerca da língua: os estudos da gramática no século XVIII. Apesar de a tradição desses estudos manter-se na abordagem gramatical, ela passou por alterações, que permitiram, mais tarde, uma mudança de perspectiva nos estudos das diversas línguas.

Os estudos da gramática do século XVIII

Durante os séculos XVII e XVIII, os estudos das línguas passaram a ser realizados, sobretudo, por gramáticos e visavam a, principalmente, explicar o funcionamento dos elementos das línguas estudadas. Contudo, para além disso, segundo Arnauld e Lancelot (2001, p. 5) – um dos autores da Gramática de Port-Royal –, trabalhar com diversas línguas levou a “buscar as razões de várias coisas que são ou comuns a todas as línguas ou particulares a cada uma delas”. Essa busca pelos aspectos gerais e particulares das línguas deu lugar à elaboração da gramática em questão, a qual, segundo Culler (1979, p. 46), “toma a linguagem como um quadro ou uma imagem do pensamento e, por isso, procura descobrir, através do estudo da linguagem, uma lógica universal, as leis da razão”.

De fato, para Arnauld e Lancelot (2001, p. 32), um dos principais aspectos que colocam o homem em posição de vantagem em relação aos outros animais

é o uso que dela [a palavra] fazemos para expressar nossos pensamentos, e essa invenção maravilhosa de compor, com vinte e cinco ou trinta sons, essa variedade infinita de palavras que, nada tendo em si mesmas de semelhante ao que se passa em nosso espírito, não deixam de revelar aos outros todo seu segredo e de fazer com que aqueles que nele não podem penetrar compreendam tudo quanto concebemos e todos os diversos momentos de nossa alma. (grifos nossos).

Ou seja, a busca dos gramáticos pelas generalidades e particularidades das línguas era fundamentada por uma concepção que tomava a língua como instrumento do pensamento. Por isso, a língua era passível de uma classificação em partes, tal como foi feito pelos primeiros gramáticos da Grécia Antiga. A Gramática de Port-Royal apresenta uma classificação da língua que se assemelha àquela proposta pelos gregos nos “sistemas das partes dos discursos”; para Arnauld e Lancelot (2001), a língua é composta por nomes, artigos, pronomes, preposições, advérbios, verbos, conjunções e interjeições.

Como se pode ver, assim como a classificação desenvolvida nas primeiras gramáticas, a proposta dessa gramática do século XVII baseia-se em oito partes do discurso. Não obstante, ela apresenta subclassificações e características em cada uma dessas partes e, além disso, apresenta a

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interjeição como elemento constituinte do sistema proposto. Assim, os nomes, por exemplo, são subclassificados como substantivos, adjetivos, nomes próprios, apelativos, além de apresentarem variações de gênero e número. Da mesma forma, nessa classificação, os verbos apresentam diversidade de número, pessoa, tempo e modo, e também podem tomar as formas ativa, passiva e neutra. Ademais, o particípio, que, para as gramáticas gregas, consistia em um dos oito componentes fundamentais das partes do discurso, passa a compor as características possíveis dos verbos, junto com o gerundivo e o supino.

Vemos, então, que há, em torno dos estudos gramaticais do século XVII, uma noção de sistema que se assemelha àquela que sustentavam os estudos dos gregos ao elaborarem os “sistemas das partes do discurso”. No entanto, a produção dos séculos XVII e XVIII não se restringiu às classificações gramaticais que visavam a explicar o funcionamento da manifestação do “espírito” por meio da linguagem.

O abade G. Girard, para além disso, destacou-se por tratar dos sinônimos da língua francesa, publicando, em 1718, a obra La justesse de la langue française, ou les différentes significations des mots qui passent pour synonymes. Quase um século depois, em 1810, suas definições dos sinônimos do francês foram publicadas no Dictionnaire universel des synonymes de la langue française, em conjunto com as definições de outros estudiosos da linguagem do século XVIII, como Diderot e Dalembert. No Avertissement sur cette edition do dicionário, é possível identificar que algumas noções, como as de valor, ideia e significação, mostravam-se importantes para o estudo dos sinônimos de uma determinada língua. Mais do que isso, naquela época, essas noções pareciam justificar a relevância do estudo da sinonímia:

Assim, uma língua é verdadeiramente tão rica quanto haja valores e ideias encerrados em todas as suas palavras. Essa verdade comum, mas sensível, pode nos fazer perceber como é importante o estudo dos SINÔNIMOS para a língua francesa. Pouco rica pelo número de palavras, ela assim se torna pela realidade de suas significações. Pode-se, portanto, chegar a suprir sua indigência determinando, por meio de distinções sutis, porém sempre verdadeiras, a diferença que oferecem as palavras na Sinonímia. (DICTIONNAIRE..., 1810, p. i, grifo em caixa alta original, grifos em itálico nossos).10

Assim, vemos que, no início do século XIX, os estudiosos da linguagem consideravam ricas as línguas cujas palavras apresentavam valores e ideias encerrados em si mesmos. Então, já

10 Tradução nossa de: “Ainsi une Langue n’est véritablement riche qu’autant qu’il y aura de valeurs et d’idées renfermées dans le nombre de ses mots. Cette vérité commune, mais sensible, peut nous faire sentir combien est important l’étude des SYNONIMES pour la Langue française. Peu riche par le nombre de ses mots, elle le devient par la vérité de leurs significations. On peut donc parvenir à suppléer à son indigence, en déterminant par des distinctions fines, mais toujours vraies, la différence qu’offrent ses mots dans leur Synonymie”.

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nesse momento, havia uma noção de valor vinculada à significação das palavras, cuja importância mostrava-se clara para os estudos da sinonímia.

Além disso, é possível notar que a noção de diferença apresenta-se como um aspecto que deve ser considerado na relação entre as palavras sinônimas, mesmo que suas significações já estejam estabelecidas. Ou seja, segundo o raciocínio apresentado no trecho acima, ainda que dois termos diferentes sejam tratados como sinônimos, há, entre eles, distinções, de modo que não apresentam exatamente o mesmo significado; eles apenas compartilham a faculdade de designarem ideias semelhantes. Dito de outro modo, para essa concepção de sinonímia do século XIX, não há palavras que possuem a mesma significação, isto é, não existem sinônimos exatos.

Ademais, esse caráter distintivo dos sinônimos apresenta-se em conjunto com a noção de língua enquanto sistema. Ao que parece, esses dois aspectos – distinção e sistema – estabelecem uma relação, de forma a requisitarem-se reciprocamente nos estudos da linguagem:

Eles [os sinônimos] parecem tornar fecunda a observação de um gênio secreto que soubesse generalizar observações particulares e espalhar por todo o sistema da Língua uma luz, cujos raios teriam acabado de anunciar a aurora. O abade Girard então apareceu e estabeleceu uma maneira de ver e de desvendar as nuances distintivas dos SINÔNIMOS (DICTIONNAIRE..., 1810, p. iv, grifo em caixa alta original, grifos em itálico nossos).11

Embora não seja estabelecido que tipo de sistema é a língua para esses estudiosos do final do século XVIII, pensá-la como tal tornava possível o estudo dos sinônimos não como palavras de ideias equivalentes, mas, sim, como palavras cujas significações são particulares, mesmo que pareçam designar a mesma ideia. A noção de sistema no trabalho desses autores acerca da linguagem guarda, portanto, uma semelhança com o que viríamos a conhecer como Linguística Moderna no século XX. Trata-se da inter-relação entre as noções de sistema, diferença e significação, numa reflexão que, a priori, pautava-se principalmente na sinonímia e que, mais tarde, foi levada para o estudo da língua em geral, principalmente nas elaborações de Ferdinand de Saussure.

Assim, consideramos pertinente conhecer também de que modo essa mesma noção era utilizada nos estudos da Gramática Comparada no século XIX. Esses estudos foram desenvolvidos contemporaneamente ao processo de elaboração da teorização saussuriana, a qual, como já afirmamos, apresenta uma noção de sistema que permitiu que a Linguística se estabelecesse como uma ciência independente. No entanto, apesar de fazer parte do meio de

11 Tradução nossa de: “Ils semblaient attendre pour devenir féconds le coup-d’œil d’un génie pénétrant qui sût généraliser des remarques particulières, et répandre dans le système entier da la Langue une lumière dont quelques rayons avoient à peine annoncé l’aurore. L’abbé Girard parut; et, se faisant à lui-même une manière de voir et de démêler les nuances distinctives des SYNONYMES”.

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pesquisa em Gramática Comparada, as reflexões do linguista não se ativeram às análises comparativas desenvolvidas naquela época. Tendo isso em vista, consideramos importante expor como a noção de sistema era vista pelos contemporâneos de Saussure, cuja abordagem era de caráter unicamente comparativo.

Os frutos da Gramática Comparada

Ao longo do século XIX, os estudos da Gramática Comparada visavam a encontrar as semelhanças existentes entre as diversas línguas, com a hipótese de que, com base nas similaridades encontradas, seria possível reconstituir a “língua-mãe”.

Esses sistemas, para Schlegel, por exemplo – a quem a introdução do termo Gramática Comparada12 é atribuída –, estavam relacionados à estrutura interna da língua, a qual consistia

no fator-chave para se esclarecerem as semelhanças encontradas entre as línguas comparativamente analisadas13. De forma similar, Humboldt defendia que a língua possui, além

de uma forma externa – ligada à matéria bruta (os sons) –, também uma forma interna, que seriam o “padrão, ou estrutura, de gramática e [o] significado que é imposto sobre essa matéria bruta” (Weedwood, 2002, p. 108, grifo nosso). Além disso, de acordo com Faraco (2011, p. 42),

O senso de sistema (a língua como uma organização) [...], estava também presente em Humboldt quando este afirmava que nenhum elemento poderia ser estudado fora da forma da língua (no sentido que ele dava à palavra forma – isto é, “o elemento constante e uniforme no trabalho mental de elevar o som articulado a uma expressão do pensamento, quando percebido em sua mais completa compreensão e sistematicamente apresentado” (grifo original).

Assim, vemos que, tanto para Schlegel como para Humboldt, a noção de sistema relaciona-se à organização interna da língua, ou seja, à sua estrutura, a qual consiste em um aspecto de caráter essencial no desenvolvimento dos estudos comparatistas. Esse caráter pode ser mais diretamente observado na ressalva feita por Humboldt, em que a noção de estrutura não consiste simplesmente numa característica da forma interna da língua; mais do que isso, ela é também um aspecto fundamental para que o estudo das línguas possa ser efetuado, visto que este só ocorre por meio do desmembramento de suas estruturas:

12 Cf. Paveau, Sarfati, 2006, p. 12.

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