A seguir serão detalhadas as fases de construção do artefato realizadas após a determinação dos requisitos de projeto. Com o objetivo de organizar este trabalho, as etapas foram escritas separadamente, entretanto, muitas vezes elas ocorreram parale- lamente ou simultaneamente.
Separação do Poema (Storyboard):
A partir do estudo do poema, produziu-se o storyboard do livro, considerando que cada página seria composta por uma estrofe do poema, para que não se perdesse a coerência do poema ou sua estrutura. Entretanto, identificou-se que a penúltima estrofe, é a única que propõe quatro alternativas de cenários, enquanto todas as outras apresentavam no máximo duas. Diante disso, optou-se por separar a penúltima estrofe em duas páginas, como é possível visualizar no esquema a seguir:
PÁGINA 1 - Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
PÁGINA 2 - Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
PÁGINA 3 - Quem sobe nos ares não fica no chão,
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PÁGINA 4 - É uma grande pena que não se possa,
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
PÁGINA 5 - Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro.
PÁGINA 6 - Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!
PÁGINA 7 - Não sei se brinco, não sei se estudo, PÁGINA 8 - se saio correndo ou fico tranquilo. PÁGINA 9 - Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Estruturada a separação do poema, decorreu-se ao estudo dos mecanismos de interação e das ilustrações para compor o livro, etapas estas, que serão descritas no tópico a seguir.
Procedimentos de criação
Ao abordar a valorização dos conhecimentos intrínsecos da crianças, Neves (2001) defende que apesar de possuírem uma desvantagem em relação ao domínio da linguagem constituída, as crianças quando comparadas a adultos, são capazes de transmitir imagens com belezas singulares da realidade que vivem, ajudan- do-nos a enxergar e compreender sua perspectiva.
Diante disso, para a construção das ilustrações do livro proposto optou-se por acrescentar à metodologia a abordagem participativa com crianças, justificado pela importância de compreender como elas interpretam o texto/poema e a vida.
A fim de realizar uma abordagem participativa no desenvolvi- mento das ilustrações do livro, então, definiram-se alguns critérios
em relação a duração, local, participantes e atuação. A duração da dinâmica foi de quatro dias, sendo 2 horas por dia. Nos dois primeiros dias realizou-se o protocolo de pesquisa e nos outros dois dias foram realizadas as composições que serviram de inspi- ração para as ilustrações do produto final deste TCC. O local esco- lhido foi o Projeto AMAR, localizado na Vila de Ponta Negra. Parti- ciparam do processo criativo nove crianças, entre 6 e 8 anos das quais se apresentarão neste trabalho com nomes fictícios: Maria, Ana e Joana de 6 anos; Pedro, Lia e Mel de 7 anos; Rosa, Lara e Sol de 8 anos. A estratégia definida para realizar a dinâmica seguiu os procedimentos de leitura do poema, seguida de discussão coletiva para auxiliar na compreensão da narrativa, para então, cada parti- cipante receber uma folha de papel em branco e representar o poema utilizando carimbos e desenhos.
Conforme, anteriormente descrito, a pesquisa iniciou-se com um protocolo que durou dois dias, com as nove crianças, em que
se propôs o desenvolvimento das ilustrações a partir de isogra-
vuras13. No protocolo foi recitado o poema e após escutarem as
crianças foram orientadas a realizar as isogravuras baseando-se no que ouviram, o processo foi realizado utilizando um lápis para desenhar as figuras no isopor, a pressão do lápis deixava as linhas em baixo relevo, em seguida, a pesquisadora espalhou a tinta com um pincel no isopor. Em seguida, pressionou o isopor sob um papel em branco, transferindo a tinta para o substrato, deixando em branco as linhas do desenho. Durante os dois dias de testes iniciais realizados, verificou-se a dificuldade em produzir os desenhos no isopor, pois muitas vezes, quebrava ou não ficava em relevo suficientemente para aparecer a figura. Além disso, identifi- cou-se que a tinta guache não era o material mais adequado para
13|Inspirada da xilogravura , a isogravura é uma técnica adaptada para se utilizar das possibilidades do carimbo (principalmente crianças). Tem como suporte o isopor ao invés da madeira.
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a técnica, uma vez que as crianças perdiam o foco da atividade se sujando com a tinta e tinham dificuldade de pressionar matriz entintada sobre o papel sem escorregar.
Depois da experiência descrita, elaborou-se uma nova alternativa de criação, realizada com carimbos, feitos de isopor, produzidos pela autora deste trabalho. Os carimbos foram desenvolvidos a partir de formas geométricas não figurativas pesquisadas na internet de diversos tamanhos, desenhados nas bandejas de isopor, recortados e colados com cola quente em outra superfície de isopor (Figura 51). Além disso, a tinta guache foi substituída por canetas hidrográficas. O processo de carimbar constitui-se na transposição da tinta da caneta hidrográfica no isopor, pintando-o, e posteriormente pressionando a figura pintada em um papel, transferindo a tinta do carimbo para o suporte de impressão.
Realizada a experiência do protocolo, optou-se em reduzir a quan- tidade de participantes por atividade, visando maior concentração das crianças e possibilidade de assessoramento da pesquisadora. No primeiro dia de composição com os novos carimbos, durante a primeira hora, três crianças participaram: Pedro (7 anos), Rosa (8 anos) e Lara (8 anos). Os carimbos foram apresentados para as crianças que fizeram testes, em uma folha em branco para entender como o carimbo funcionava. Em seguida, a pesquisadora recitou uma estrofe para cada criança e discutiu com elas o entendimento daquela estrofe. Após compreender a frase, cada participante recebeu uma folha em branco para fazer sua composição. Durante a dinâmica, permitiu-se o uso da caneta hidrográfica para realizar o acabamento ou desenhar detalhes. Rosa (8 anos) recebeu a estrofe “Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!” e pediu para que carimbasse a própria mão no papel para poder fazer os anéis. No outro desenho, ela solicitou que contor- nasse a mão com a caneta hidrográfica para representar a luva (Figura 52). O que corrabora com os estudos da criatividade, uma vez que Pedro lançou mão do pensamento divergente (GUILFORD, 1977) so pensar sobre o problema de forma flexível e elaborada, encontrando uma solução. Pedro (7 anos) ficou com a estrofe “Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares” e fez um único desenho com uma pessoa empinando uma pipa, assim, explicou que a criança estava “no chão” enquanto a pipa estava “nos ares” (Figura 53). Lara ficou com a primeira estrofe “Ou se tem chuva e não se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva” e fez dois desenhos de paisagens de acordo com a descrição do poema, porém ao final utilizou alguns carimbos que não tinham relação com a estrofe, apenas para decorar o desenho. (Figura 54).
Figura 51 Produção dos
carimbos
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Após concluírem suas composições mais três crianças foram convi- dadas: Maria (6 anos), Ana (6 anos) e Sol (8 anos). Para esse grupo a pesquisadora recitou todo o poema e após a discussão do que compreenderam do poema, as crianças fizeram a composição. Identificou-se que as crianças mais novas copiaram a criança mais velha, assim, os resultados obtidos foram imagens semelhantes (Figura 55).
Figura 52 Composições de
Rosa (8 anos)
Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 53 Composição de
Pedro (7 anos)
Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 54 Composições de Lara (8 anos)
Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 55
Composição de Sol (8 anos), Maria (6 anos) e Ana (6 anos), respectivamente.
Fonte: Arquivo pessoal.
No segundo dia de atividade, cinco crianças participaram do teste, entre elas, duas que já haviam participado anteriormente: Joana (6 anos), Lara (8 anos), Mel (7 anos), Lia (7 anos) e Sol (8 anos). A estratégia utilizada foi a mesma do segundo grupo do primeiro dia, foi autorizado que utilizassem tanto a caneta hidrocor quanto os carimbos (Figura 56 a 58). A maior dificuldade encontrada foi em relação às páginas 4 (É uma grande pena que não se possa, estar ao mesmo tempo nos dois lugares!), 6 (Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… e vivo escolhendo o dia inteiro!), 8 (Não sei se brinco, não sei se estudo) e 9 (Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo), uma vez que nenhuma criança soube como transformá-las em ilustrações, se recusando a realizar a ilustração e alegando que não sabiam como fazer ou não entenderam o texto.
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Ao final da experimentação das ilustrações com a participação das crianças, realizou-se uma análise dos desenhos identificando os elementos representados, as cores utilizadas e a relação com o texto. Nesta etapa, foi necessário definir alguns critérios em relação a ilustração final: 1- Se seriam literais, lúdicas ou
Figura 56 Composição de
Joana (6 anos)
Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 57 Composição de Lara (8 anos)
Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 58 Composições de Lia (7 anos), Sol (8 anos) e Mel (7 anos), respectivamente.
Fonte: Arquivo pessoal.
antagônicas ao texto; 2- Se as ilustrações das crianças seriam utilizadas como finais ou se serviriam apenas para inspiração; 3- Quais os possíveis mecanismos lúdicos seriam utilizadas em cada página (Figura 59).
Figura 59
Processo de escolha dos critérios de ilustração
Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 60 Brainstorming das possibilidades de mecanismos de inte- ração e ilustrações 1-ILUSTRAÇÃO A| LITERAL ex: sol/nuvel B| LÚDICO
ex: guarda chuva/óculos C| ANTAGÔNICA
ex: sol e nuvem juntos + arco-íres 2-ILUSTRADOR A| Ilustração Própria B| Ilustração das crianças 3-MECANISMOS INTERATIVOS A| Roleta B| Acetato C| Aba D| Encarte E| Corte e vinco F| Pop-up G| Movimento
Com intuito de identificar as melhores possibilidades de escolha na relação entre ilustração e mecanismos, elaborou-se um brains- torming das páginas do livro, utilizando as composições reali- zadas pelas crianças como base criativa e as opções de interação no suporte impresso estudadas anteriormente neste trabalho (Figura 60).
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Ao dispor as principais ideias no papel, identificou-se algumas opções viáveis para desenvolver o livro que fossem coerentes com a proposta do texto e das ilustrações, sendo elas: 1- Roleta, na qual metade estaria escondido e ao girar o leitor se surpreende com o contraposição da imagem e texto presentes na outra metade; 2- Aba, escondendo parte da ilustração que será descoberta pelo leitor; 3- Acetato, entreposto entre as páginas do livro, com imagens que sejam diferentes mas tenham o mesmo formato; 4- Pop-up, com elementos da ilus- tração que “saltam” das páginas; 5- Encarte, páginas com bolsos que guardem elementos para se interagir com a ilustração; 6- Corte e vinco, semelhantes a aba porém com opções de formato diferentes e mais de uma dobra; 7- Movimento, com elementos parecidos com o pop-up que possam ser movimen- tadas pelo leitor.
Definidas as possibilidades de mecanismos lúdicos, elaborou-se uma tabela com as páginas do livro na coluna horizontal e as opções de ferramentas na vertical (Quadro 2), então assina- lou-se as melhores relações entre as páginas e os mecanismos descritos. Selecionou-se as opções baseados no critério de não repetir a mesma manipulação em páginas seguidas, a simplifi- cação do livro com apenas 3 interações diferentes e por último a viabilidade da produção deste mecanismo considerando o suporte, impressão, acabamento e custo. Realizada a tabela comparativa, o próximo passo foi a definição de palavras- -chave para ilustração e as ferramentas interativas para cada página (Quadro 3). Definido os mecanismos, retornou-se para as ilustrações, com o intuito de estabelecer a composição final das ilustrações.
Chuva/
Sol Luva/ Anel Ares/ Chão Dois Lugares Doce/Dinheiro Isto/Aquilo Brinco/Estudo Correndo/ Tranquilo Melhor?
Roleta x x x x x x Acetato x x x x Aba x x x x Encarte x Pop-up x Movi- mento x x x x x Quadro 2 Tabela comparativa: estrofe x mecanismo
Fonte: Arquivo pessoal.
Página 1 - Chuva/Sol Movimento - gotas/sol Página 2 - Luva/Anel Roleta - metade luva/anel Página 3 - Ares/Chão Movimento - criança com balão
Página 4 - Dois lugares Acetato + aba - 1 personagem, 2 cenários Página 5 - Doce/Dinheiro Roleta - metade moeda/cookie
PPágina 6 - Isto/Aquilo Acetato + aba - 1 personagem, 2 pensamentos Página 7 - Brinco/Estudo Roleta - metade livro/quebra-cabeça
Página 8 - Correndo/Tranq. Aba - criança correndo Página 9 - Melhor? Movimento - balança
Quadro 3
Listagem final das páginas e mecanis- mos definidos
Fonte: Arquivo pessoal.
Para o desenvolvimento final das ilustrações, buscou-se unir o estudo teórico realizado sobre ilustrações no livro para criança com o resultado das imagens geradas nas dinâmicas participativas. A solução encontrada para ilustração do livro-brinquedo Ou isto ou Aquilo proposto neste TCC, foi a utilização de imagens que se completam, que utilizam de um mesmo cenário, ou que se movem, causando surpresa no leitor e participação dele na narrativa. As ilustrações das crianças foram digitalizadas para tratamento e edição na ferramenta Photoshop, realizando testes de cores e
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composição gráfica (Figura 63). A exemplo do que foi produzido, na estrofe “ou compro o doce e gasto o dinheiro ou guardo o dinheiro e não compro o doce” os elementos utilizados foram: um cookie e uma moeda, ilustrados por duas crianças separadamente e repo- sicionados pela autora deste trabalho com o software de edição de imagem para compor uma nova imagem a partir da montagem dos dois desenhos diferentes.
Figura 63 Composições de imagens no Photoshop
Fonte: Arquivo pessoal.
A partir do resultado das montagens digitais, iniciou-se a confecção do primeiro modelo. Os materiais utilizado foram: papel sulfite 75g/
m2, canetas hidrográficas, tesoura, fita adesiva dupla face, lixa de
unha e percevejos de metal. Neste modelo algumas observações foram identificadas para que o mecanismo pudesse melhorar, descritas no esquema a seguir:
Página 1| Foi observado que a parte do suporte que será movi- mentada deve ter metade da altura do livro para que o mecanismo funcione bem e a ilustração de trás apareça perfeitamente, as gotas não podem estar alinhadas, pois se estiverem a cor da gota mais alta poderá aparecer na gota mais baixa ao movimentar o palito (Figura 64).
Figura 64
1º Modelo - Página 1
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Página 3| Inicialmente não se colocou uma aba para movimentar o personagem, o que dificulta o entendimento do mecanismo, com isso acredita-se que colocar uma aba para puxar nesta página, como na página 1, vai dar unidade às ferramentas interativas e facilitar a utilização dela (Figura 65).
Página 8| Notou-se que a solução não era a opção mais atrativa, diante disso, foi elaborado um mecanismo de movimento de puxar e empurrar para simular o personagem correndo ou andando de acorodo com a velocidade de movimento que o leitor manipular, parecido com a página 1 e 3 (Figura 67).
Figura 65 1º Modelo - Página 3
Fonte: Arquivo pessoal.
Página 4| Ao invés de fazer uma aba com um monumento, optou-se por desenvolver dois cenários, em que o ambiente mudaria ao passar a página, mantendo o personagem intacto (Figura 66).
Figura 66 1º Modelo - Página 4
Fonte: Arquivo pessoal.
Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 67
1º Modelo - Página 8
Definida a composição das ilustrações e mecanismos em cada página, foi solicitado ao ilustrador João Vitor Albuquerque que elabora-se as ilustrações finais, uma vez que, a autora deste TCC não possui habilidades técnicas para realizar a ilustração final. O desenhista recebeu o sketch das páginas feitos a mãos e desen- volveu as ilustrações em uma mesa digital, através do software de desenho digital Procreate, separando cada elemento da compo- sição em camadas, para que se necessário pudessem ser manipu- ladas pela designer.
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Tipografia
Definidos os efeitos e ilustrações, prosseguiu-se para a escolha da tipografia que seria aplicada nas páginas do livro. Baseando-se nas pesquisas realizadas na primeira parte deste trabalho abordando tipografia nos livros para crianças e para leitores iniciantes deter- minou-se alguns aspectos de escolha como: a utilização de caixa- -alta, em virtude da melhor identificação da letra, menor confusão entre caracteres semelhantes e legibilidade. Uso de fonte sem serifa, para evitar a aglutinação de letras, maior espaçamento para legibilidade e pausas de leitura; e por fim, um desenho de fonte que não possuísse caracteres semelhantes. Após fazer o levanta- mento de possíveis tipografias que se adequassem aos aspectos pré estabelecidos, optou-se pela utilização da open source Indie Flower no tamanho 20 pt.