El malefício de La Mariposa é uma obra com a característica nítida do drama, e, estabelece a relação entre o que é interno e o que é externo, em confronto com seu contexto social.
Em sua dramaturgia o autor defendeu os poetas e os seres discriminados, por padrões arbitrários de beleza. Seres que não conseguem viver de acordo com as normas e leis impostas por um sistema social e por isso são considerados diferentes não se encaixando em padrões determinados. Em Romancero Gitano defendeu os ciganos valorizando seu legado cultural. Conta-se que Lorca estava em Granada, escrevendo El malefício quando a cidade se viu perturbada com um acontecimento: alguns ciganos que tinham agredido dois guardas civis em Sierra Nevada chegaram à cidade atados, descalços e vigiados por policiais a cavalo. Toda Granada foi para a rua ver o espetáculo e Lorca que estava acompanhando Manuel Ángeles Ortiz impressionou-se profundamente; via-se que os ciganos haviam sido brutalmente capturados, mas o pior era que a multidão estava quase para linchá-los. Mais tarde, Ángeles Ortiz lembrou a reação de Lorca. Naquele dia, ele começou a pensar em escrever Romancero
Gitano, e especialmente o Romance da Guarda Civil Espanhola, que denunciava o sistema militar. (GIBSON, 2008, 153).
Foi uma ideia brilhante, da parte do poeta dar expressão épica à luta tradicional entre os ciganos da Andaluzia e a Guarda Civil, a polícia rural paramilitar fundada em 1842, para reprimir o banditismo e cujo tricórnio de verniz está entre os mais famosos símbolos da Espanha. Os frequentes encontros sangrentos entre ciganos e a Guarda Civil, deixaram marcas no inconsciente coletivo da cidade. Ao abordar questões sociais, Lorca deixa perceptível a influência do escritor Victor Hugo, conhecido por ele desde a sua infância.
A família de Lorca possuía as Obras Completas de Victor Hugo, numa bela edição encadernada em couro. Sua avó, Isabel Rodriguez Mazuecos, esposa do avô Enrique foi uma personalidade de destaque: muito sociável, com uma palavra amável para todos – a avó Isabel foi adorada por toda família e a responsável pela apresentação do escritor francês, à família e
13 Em quantas antigas historietas, uma flor, um beijo, ou um olhar fazem o terrível ofício de punhal! Tradução
à comunidade de Fuente Vaqueros. Sua avó ia sempre a Granada comprar livros, e tinha um grande prazer em ler não só para os filhos, como para amigos e vizinhos, muitos dos quais analfabetos. Esta paixão pelos livros não se resumia a Isabel Rodriguez, avó de Lorca: era bem conhecido na Vega, o amor dos aldeães pelos livros. Talvez por esta região ter pertencido ao Duque de Wellington, e o contato com protestantes ingleses lhes desse uma visão mais larga do mundo. O fato é que Fuente Vaqueros era diferente das outras aldeias da Vega.
Lorca, identificando-se com o escritor afirmava: “Eu creio que por ser de Granada, me inclino pela compreensão do perseguido, do cigano, do judeu, do negro, do mouro que todos levamos dentro”. (GIBSON, 1989, 443). Assim, ele começa a tornar-se o porta-voz de todas as vítimas da rejeição social.
Interessante observar que a influência de Victor Hugo sobre Lorca vai além da preocupação com os oprimidos, incluindo a compaixão pelos animais. Considerando que primeiro foi necessário civilizar o homem em relação ao próprio homem, mas agora é necessário civilizar o homem em relação à natureza e aos animais.
Para ilustrar a preocupação de Lorca com os menos favorecidos, temos conhecimento de uma história que aconteceu em Fuente Vaqueros sobre uma família que vivia em condições precárias, que chamou a atenção do poeta. O pai, um trabalhador diarista decrépito e reumático, a mãe vítima exaurida de incontáveis gestações. Lorca visitava a família com frequência, mas não tinha permissão para fazê-lo no dia de lavagens de roupas, em que todos ficavam dentro de casa praticamente nus, enquanto suas únicas roupas, secavam no varal. Ele escreveu que quando olhava para o seu armário, cheio de roupas limpas, sentia uma aflição horrível, um peso no coração. Foi aí que atrás da bucólica fachada da vida rural da Andaluzia, ele descobriu a cruel realidade, compadecendo-se das mulheres que davam à luz em circunstâncias adversas, a tantos filhos indesejados. O poeta se revolta e, ao falar sobre seu povo, diz: “Ninguém se atreve a pedir o que lhe falta. Ninguém se atreve – por senso de dignidade ou por timidez – a exigir pão. E eu que digo isto, cresci entre estas vidas frustradas. Protesto contra este mau tratamento dos que trabalham a terra”. (GIBSON: 1989, 39-40).
Os pais de Federico eram ricos proprietários de terra da Vega de Granada. Mas, estavam sempre ao lado do povo humilde da Espanha e eram adeptos do socialismo cristão.
Lorca não aprendeu a discriminar, mas aproximar mundos diferentes com franca compreensão e respeito às diferenças. Sua preocupação essencial era colocar ao alcance de seu povo as diferentes artes desconhecidas naqueles rincões longínquos do interior da Espanha, por isto teve tanto empenho em realizar o projeto La Barraca. Ao desenvolver seu projeto, estava certo de que a qualidade essencialmente hispânica das obras exibidas faria com
que as pessoas assistissem às peças teatrais com interesse. Para ele era importante participar da moldagem da nova República Espanhola, dando-lhe uma contribuição real. Iria apresentar obras clássicas – Cervantes, Lope de Vega, Calderón de La Barca nas aldeias e feiras da Espanha, privadas de vida cultural (GIBSON: 1989, 364).
Lorca sentia-se envolvido numa luta pessoal para renovar o teatro espanhol tão pusilânime em matéria de encarar a realidade das questões humanas e sociais. Talvez por isto, sua obra foi tão criticada e proibida na Espanha, durante o longo período da ditadura militar do General Francisco Franco (1936-1975). No entanto, podemos considerá-lo como o maior temperamento dramático do século.