4. RÉSULTATS
4.3 Recommandations cliniques
4.3.4 Les interventions chirurgicales pour les lésions professionnelles de la
Antes de qualquer consideração específica acerca das atividades de sala de aula – os conteúdos trabalhados, o enfoque que se dá a eles, as estra- tégias de ensino, a bibliografia utilizada, o sistema de avaliação, a relação professor-aluno – é necessário que o educador tenha consciência que toda e qualquer metodologia de ensino se articula a uma opção política. Segun- do Geraldi (2006b), ao falar em ensino, as questões “Para que ensinamos o que ensinamos?” e sua correlata “Para que as crianças aprendem o que aprendem?” são esquecidas em benefício das discussões sobre o como, quando e o que ensinar. É a resposta ao “para que”, entretanto, que dará as diretrizes básicas de tais respostas. Em se tratando do ensino de língua portuguesa, a resposta ao “para que” envolve uma concepção de lingua- gem e uma postura em relação à educação, uma vez que as duas se fazem presentes na articulação metodológica.
Há três possibilidades distintas de se conceber a linguagem: a linguagem é a expressão do pensamento, a linguagem é instrumento de comunicação, a linguagem é uma forma de interação. (GERALDI, 2006b) A primeira concepção, que entende a linguagem como expressão do pensamento, leva à compreensão de que as pessoas que não conseguem se expressar não pensam. A concepção de que a “linguagem é instrumento de comunicação” está relacionada à teoria da comunicação e compreende a língua como um código capaz de transmitir ao receptor certa mensagem. Na terceira concepção, “a linguagem é uma forma de interação”, “a linguagem é vista como um lugar de interação humana”. Mais que possibilitar a transmissão de informações de um emissor a um receptor, através da linguagem o su- jeito que fala pratica ações que não conseguiria realizar a não ser falando. O falante age sobre o ouvinte, constituindo compromissos e vínculos que
não preexistiam à fala. Sendo assim, esta concepção de linguagem implica uma postura educacional diferenciada, pois situa a linguagem como lugar de constituição de relações sociais, onde os falantes se tornam sujeitos.
Nos atuais Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino de Língua Por-
tuguesa é possível identificar a concepção de linguagem como processo de interação humana:
a linguagem é uma forma de ação interindividual orientada por uma finalidade específica; um processo de interlocução que se realiza nas práticas sociais existentes nos diferentes grupos de uma sociedade, nos distintos momentos de sua história. (BRASIL, 2000, p. 23-24)
Além disso, o documento acrescenta que, por se realizar através da in- teração verbal dos interlocutores, a linguagem não pode ser compreendida sem considerar o seu vínculo com a situação concreta de produção.
No decorrer do Ensino Fundamental,
[...]espera-se que os alunos adquiram progressivamente uma competência em relação à linguagem que lhes possibilite resolver problemas na vida cotidiana, ter acesso aos bens culturais e al- cançar a participação plena no mundo letrado. (BRASIL, 2000, p. 41, grifo nosso)
O ensino da língua na perspectiva da linguagem como forma de interação humana lança-nos para o estudo da linguagem em funcionamento. Essa nova perspectiva obriga a um novo posicionamento acerca das variedades linguísticas (regionais ou sociais) enfrentadas pelo professor no cotidiano da sala de aula. É frequente o questionamento dos educadores quanto à melhor forma de agir no ensino diante das diferenças dialetais.
Com a democratização da escola, os professores têm recebido uma clien- tela com diferenças dialetais acentuadas, isto é, representantes de diversos grupos sociais, que falam de maneira diferente, ocupam os bancos escolares. Geraldi (2006b) alerta que a forma de falar que foi elevada à categoria de língua padrão está relacionada com a qualidade intrínseca dessa forma. Segundo o autor, fatos históricos, políticos e econômicos determinaram a “eleição” de uma forma como a língua portuguesa. As formas de falar que
não correspondem à forma “eleita” são consideradas errôneas, deselegantes e inadequadas. Gnerre (1978 apud GERALDI, 2006b, p. 43) salienta que
[...] uma variedade linguística ‘vale’ o que ‘valem’ na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais. Essa afirmação é valida, evidentemente, em termos internos quando confrontamos variedades de uma mesma língua, e em termos externos pelo prestígio da língua no plano internacional.
Sendo clara a separação entre a forma de falar dos alunos e a variedade linguística estabelecida como “padrão”, que posicionamento o professor de língua portuguesa deve adotar? Geraldi (2006b) alerta que simplesmente valorizar as forma dialetais consideradas não cultas, embora linguistica- mente válidas, é desconhecer que “a começar do nível mais elementar de relações com o poder, a linguagem constitui o arame farpado mais pode- roso para bloquear o acesso ao poder”. (GNERRE, 1978 apud GERALDI, 2006a, p. 44)
De acordo com Soares (1983 apud GERALDI, 2006) há dois posicio- namentos. De um lado, alguns consideram que a escola deve respeitar e preservar a variedade linguística das classes populares, tão válida e eficiente para a comunicação, quanto a variedade linguística privilegiada socialmen- te. Há, também, os que afirmam que as classes populares devem aprender a utilizar a variedade linguística considerada “padrão” e manter com a linguagem a relação que as classes dominantes com ela mantêm, pois a posse dessa variedade linguística e dessa forma específica de relação com a linguagem são instrumentos fundamentais e indispensáveis na luta pela superação das desigualdades.
Retomando a reflexão de Gnerre (1978 apud GERALDI, 2006) citada anteriormente, sendo a linguagem um dos caminhos para romper o bloqueio de acesso ao poder, consideramos que o segundo posicionamento diante das variedades linguísticas deve ser adotado pelo professor de língua por- tuguesa. As atividades devem possibilitar aos alunos o domínio do dialeto padrão, sem depreciar a forma de falar predominante em seu grupo social. O ensino de língua materna precisa comprometer-se com a formação plena do cidadão e contra toda forma de exclusão social pela linguagem.