Embora a presença nas placas de circuito impresso de componentes valiosos (materiais de base como Cu, Al e Fe e metais preciosos, como Pt, Au e Ag) sejam estimulantes para as atividades de reciclagem e recuperação de materiais, por representarem oportunidades com vantajosos retornos financeiros, quando analisadas sob o ponto de vista do valor do material recuperado (CUI et al., 2008), o porcentual de lixo eletrônico processado nos países ricos ainda é bastante pequeno. A maior parcela acaba sendo descartada em aterros sanitários ou é exportada para países pobres, o que se dá devido à falta de plantas industriais de reciclagem, aos altos custos trabalhistas e às fortes legislações ambientais (ROBINSON,2009).
As tecnologias disponíveis para o adequado processamento, que recuperem os materiais componentes com o mínimo impacto ambiental, exigem alto investimento financeiro (LINDHQVIST, 2000 apud RODRIGUES, 2012). Schmidt (2006) estima que 80% do lixo eletrônico coletado nos países desenvolvidos são exportados para os países pobres.
Em 1992 a maioria dos países foi consignatária de um tratado internacional, a Convenção de Basiléia, cujos principais objetivos eram: minimizar a geração de resíduos perigosos (em quantidade e periculosidade); controlar e reduzir movimentos transfronteiriços de resíduos perigosos; dispor os resíduos o mais próximo possível da fonte geradora; proibir o transporte de resíduos perigosos para países sem capacitação técnica, administrativa e legal para tratar os resíduos de forma ambientalmente adequada, e prevenir e monitorar o tráfego ilegal de resíduos perigosos. Apesar dos contínuos esforços da Convenção de Basiléia, cuja organização se mantém atuante no cenário internacional, e da proibição da exportação de resíduos perigosos, o fluxo de lixo eletrônico dos países ricos para os países pobres continua, seja por operações clandestinas, por artifícios legais ou por países que não ratificaram a convenção. Equipamentos eletrônicos usados, mas ainda em boas condições operacionais, são doados por pessoas e organizações humanitárias para países pobres, com o propósito de serem reutilizados, e com o efeito secundário de terem desta forma um aumento dos ciclos de vida, adiando os seus descartes finais (PUCKETT, 2005).
Por outro lado, organizações de má fé agindo de forma criminosa e utilizando-se de artifícios, remetem lixo eletrônico para países pobres disfarçado de doações, burlando a Convenção de Basiléia (LADOU et al., 2006).
LaDou (2006), em sua pesquisa sobre a indústria de placas de circuito impresso nos Estados Unidos, constatou que de 50% a 80% do lixo eletrônico americano são exportados
para outros países. Nos países pobres o processamento se dá de forma pouco cuidadosa, tanto com o meio ambiente quanto com a saúde das pessoas direta ou indiretamente envolvidas nos processos (UNEP, 2009).
Dentre os países que recebem os maiores fluxos de lixo eletrônico estão a China, o Paquistão, a Índia e Gana (HUANG et al., 2009). A cidade de Guiyu, na província chinesa de Guangdong, com uma área de 52 km2, tem uma população de 150.000 pessoas, todas de alguma forma ligadas aos trabalhos de recuperação de metais a partir do lixo eletrônico, originado principalmente dos Estados Unidos, Japão e Canadá (SCHNOOR, 2012).
Por ser o pólo de maior concentração mundial desta atividade, com processos primitivos de trabalho, Guiyu e sua região têm sido alvo de inúmeros estudos sobre os efeitos danosos tanto à saúde humana quanto ao meio ambiente, causados pela inadequação dos processos que são empregados nas atividades de recuperação de metais. (BI et al., 2010; WONG et al., 2006).
Nesta região é usual o aquecimento das placas de circuito impresso sobre grelhas de ferro para a remoção manual de componentes eletrônicos, visando o reaproveitamento no mercado de usados. Segue-se a queima a céu aberto com maçaricos a gás para a redução de volumes e recuperação de metais, principalmente o cobre. Também é comum a dissolução das placas de circuito impresso em soluções ácidas, após o que é provocada a precipitação dos metais preciosos. O restante da solução, sem interesse econômico, é descartado nas águas do rio que banha a cidade, sem qualquer cuidado com a neutralização. De modo geral, a utilização de ventiladores domésticos é a única precaução para proteger os trabalhadores das fumaças e gases liberados, e não se utilizam gorros, luvas ou máscaras (LEUNG et al., 2008).
Foram verificadas contaminações ambientais aos sistemas aquáticos, ao ar e ao solo. Estudos realizados por Wang et al.(2006) e por Wang (2007) identificaram elevadas concentrações de Pb, Ag, Cr, Li, Mo, Sb e Se nas águas do rio Lianjiang, a jusante da cidade.
Da mesma forma, pesquisas realizadas por Luo et al. (2007) identificaram a bio- acumulação de PBDE em sedimentos do ecossistema aquático próximo a uma localização de processamento de lixo eletrônico, com origem no processo de lixiviação em depósitos de resíduos. Muitos dos contaminantes originados no processamento das placas de circuito impresso são espalhados pelo ar e é onde se dá a maior exposição dos habitantes locais através da inalação, ingestão e absorção pela pele.
Li et al. (2007) coletaram amostras de ar nos arredores de Guiyu, encontrando dioxinas (PCDD) em concentrações de 65 a 2.765 pg/m3, os níveis atmosféricos mais elevados jamais reportados. Cai et al. (2006) recolheram amostras de terrenos de agricultura nas proximidades dos sites de reciclagem,encontrando elevadas concentrações de PBDE em solos de uma fazenda situada a 2 km de uma área de reciclagem de lixo eletrônico de Guiyu.
Schluep (2008) constatou que a maioria do lixo eletrônico importado por países do oeste da África vem da Europa, apesar da presença de eficientes unidades européias de reciclagem. Os usuários locais já são, atualmente, as maiores fontes de lixo eletrônico da África, mas a importação ilegal de velhos computadores, televisores antigos e outros dispositivos eletrônicos usados, com origem na Europa, Estados Unidos e Ásia, ainda representam uma grande parcela (LUBICK, 2012).
Medições recentes realizadas em Accra – Gana mostraram a elevação dos níveis de contaminação do leite materno por aditivos antichamas à base de éter difenilpolibromatado, associada com a reciclagem informal de lixo eletrônico que é realizada localmente (KA et al., 2011).