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116. Tho International- Development Strategy contained a programme for the expansion of tho scientific and technological capacity of the developing countries and the

3.5.3.1 O primeiro contato

O primeiro contato se deu através do telefone. Consegui o número de um dos filhos do Mestre Geraldo do Coco de Zambê e procurei-o para saber como seria visitá-los para conversarmos sobre minha inserção naquele ambiente, naquela família, e em certa medida, na intimidade deles. Falei, naquela ocasião, com o José Cosme, o filho que assume o papel de organizador do grupo.

Em princípio ele se mostrou um pouco arredio e, de certa forma, justificou seu comportamento dizendo que muitos outros pesquisadores e pessoas curiosas já haviam estado por lá, aproveitado para saber muito sobre eles, e nunca haviam “dado nada em troca”. Na sequência me perguntou o que eu tinha para oferecer, o que me pegou completamente desprevenida. Eu lhe disse que não sabia como agir em relação a essa situação, pois aquilo era realmente novo pra mim, mas prometi retornar-lhe com uma resposta o quanto antes.

Procurei o meu orientador, professor Dr. Agostinho Lima e perguntei como deveria me comportar diante disso. Ele me tranquilizou explicando que esse comportamento era totalmente normal e esperado, principalmente em se tratando de um grupo que já foi pesquisado outras vezes. Disse que eu deveria ser sincera, dizer o que de fato eu pretendia com a pesquisa e situá-los sobre minha não condição de oferecer-lhes algo material, mas que outras formas de contribuição poderiam emergir no decorrer do processo.

Retornei com essas informações e obtive uma outra recepção, inclusive um pedido de desculpa pela primeira abordagem. Disse que estariam disponíveis para me receber e que seria um prazer falar sobre o coco de zambê e que eu poderia ficar tranquila quanto a recompensas, que nós poderíamos ver isso depois. Segui então para me preparar para a primeira viagem a Tibau do Sul, mais especificamente ao distrito de Cabeceiras, onde se situa o Coco de Zambê de Mestre Geraldo.

57 3.5.3.2 Primeira visita ao Zambê de Mestre Geraldo

Sentia insegurança de ir sozinha a primeira vez (após iniciar a pesquisa, pois já havia ido antes de ter intenção de pesquisá-los), por se tratar de um ambiente totalmente masculino e por não saber como seria tratada nesse primeiro contato, então pedi para que meu orientador fosse comigo. Então fomos os dois nessa primeira visita.

Chegando lá, Mestre Geraldo e José Cosme já nos esperavam na varanda da casa do Mestre. Nos receberam com muita tranquilidade e logo nos sentimos à vontade para conversar e tentarmos inclusive gravar alguns depoimentos.

Nessa primeira visita, acreditei que o gravador do meu celular seria suficiente para gravar as conversas que teríamos, e de fato foi, mas as gravações ficaram de péssima qualidade e logo depois, antes que eu conseguisse transferir os arquivos de áudio para um lugar seguro, meu celular quebrou e eu perdi todos os arquivos de áudio, inclusive as entrevistas. Primeira lição do campo: selecionar bem os equipamentos de registros dos dados da pesquisa.

Foi bastante difícil ter perdido todas as conversas que havíamos gravado, com ricas informações sobre história, sobre como o mestre Geraldo se envolveu com o Coco de Zambê e como ele aprendera a tocar, sobre como havia se dado a inserção dos filhos e netos no contexto, sobre as apresentações do grupo, sobre concepções do Mestre Geraldo e de alguns outros participantes que participaram desse primeiro contato, mas pudemos ter, mesmo sem essas gravações e graças a nossa memória e anotações no diário de campo, importantes primeiras impressões sobre o grupo estudado, o que nos ajudou a seguir com nossas análises e planejamentos de uma próxima ida ao campo.

3.5.3.3 Segunda visita

Na segunda visita fomos ainda juntos, eu e o professor Agostinho. Nos preparamos com perguntas mais específicas para fazer e com um bom gravador, disponibilizado pela Escola de Música da UFRN, para fazermos os nossos registros. Ao chegar em casa após essa ida ao campo, obtive a segunda lição sobre registros no trabalho de campo: não é suficiente escolher um bom material para registrar, tem que aprender muito bem a usá-lo e realizar alguns testes antes de partir para a experiência propriamente dita.

O que ocorreu foi que me confiei na minha memória sobre a rápida instrução que recebi do bolsista responsável pelo empréstimo dos equipamentos e não testei como

58 deveria, utilizando fones de ouvido para me certificar de que estava sendo transmitido o áudio para o aparelho e que o mesmo estava sendo gravado. Fato é que mais uma vez perdi todos os registros de áudio de uma ida ao campo. Felizmente, percebi isso no dia seguinte a viagem e ainda tinha muita informação na minha memória, além do que já havia anotado no meu diário de campo.

Nessa visita tivemos importantes informações sobre concepções do grupo em relação à escolha de repertório; sobre questões relacionadas ao processo de transição de mestre, que está acontecendo no presente momento; sobre como eles se comportam enquanto grupo frente à demanda externa de apresentações; qual a visão deles sobre as mulheres participando das danças; sobre o quanto os trabalhos que atualmente executam (em sua maioria, em hotéis e resorts em Tibau) interferem na dinâmica do grupo; sobre a construção de instrumentos; sobre como veem um grupo de zambê situado em Sibaúma; sobre a interação da comunidade com o zambê, e finalmente, sobre como estão se organizando para o projeto de circulação nacional que farão no anos de 2017 e 2018 com o SESC.

No caso de uma perda de dados como essa, considero que foi de enorme relevância ter ao meu lado uma pessoa, no caso o meu orientador na pesquisa, consciente de todos os enfoques que eram necessários ser dados nas entrevistas, que eram sempre semi- estruturadas, e sobretudo para poder juntamente comigo rememorar e registrar em forma de tópicos o que tinha sido dito. Essa estratégia nos assegurou a manutenção de muitos dados importantes para a nossa pesquisa.

3.5.3.4 Terceira visita

A terceira visita ao Coco de Zambê de Mestre Geraldo foi uma experiência incrível de imersão no contexto. Dessa vez, já com bastante confiança e com um nível satisfatório de aproximação com o grupo, senti-me segura para ir sem meu orientador. Cuidei com atenção do material para registros, fiz testes e conferi tudo o que poderia para não permitir que erros novamente acontecessem. Na ocasião fui presenteada com uma roda de coco organizada para mim, o que me deixou bastante entusiasmada e consciente de que já havia criado com eles um laço de confiança e, por que não dizer, de certa amizade.

Nessa ida ao campo, fui intencionalmente sem nenhuma pergunta para fazer, apenas disposta a conversar e apreender da conversa informações que se somassem com as anteriores que já obtivera em outras visitas. Procurei gravar o máximo de conversas que

59 participei, e levei muito tempo observando, interagindo com todos, fotografando, e realmente tentando ser parte deles.

Pude perceber nessa visita que fiz, uma grande participação das crianças e adolescentes nos momentos que antecederam a roda e inclusive na própria roda. Eles dançaram, tocaram, demonstrando muita identificação e muito conhecimento sobre como essa dança é pensada, sobretudo nas características de ser altamente improvisada e de passos e movimento audaciosos e vigorosos.

Nessa vivência que tive com o Zambê, a experiência mais significativa foi ter podido tocar com eles. Tocar o Zambê, o instrumento que dá nome a esse coco, que é o símbolo maior dessa manifestação foi como acessar de fato, e de uma vez por todas o entendimento sobre aquele contexto. Tocar o zambê me fez pertencente, me fez compreender muitos de suas características, como por exemplo, o porquê de ele ser tocado apenas por homens até o momento. Isso indica muito mais do que uma relação de gênero, mas sim de entendimento de que para se tocar esse instrumento e para se dançar essa dança, precisa-se de muito vigor e força física. Revela que, até então perpetua-se a ideia de que homens sim são aptos a participar ativamente do grupo, mas, por outro lado, demonstra-se em atitudes como a de me permitir tocar, que consideram que agora mulheres também tenham preparo físico suficiente para puxar uma roda e dançar entre eles. Se isso é sinal de uma mudança que irá ocorrer no contexto do zambê enquanto grupo, não sabemos e não é objetivo dessa pesquisa fazer inferências a esse respeito, mas demonstra claramente uma mudança de concepções naqueles que o fazem hoje em dia.

3.5.3.5 Quarta visita

Para a quarta visita, fui muito focada em fazer registros fotográficos de qualidade, para isso convidei uma amiga fotógrafa, a fim de garantir que seriam feitos registros com nitidez e com certa beleza. Além disso, levei um guia para uma entrevista semiestruturada que me revelasse aspectos sobre a turnê com o SESC que iniciariam. Perguntas sobre questões relacionadas a viagem me trouxeram, com muita surpresa, muito sobre os valores de família, por exemplo, como o fato de um dos integrantes e filho de Mestre Geraldo (o Didi, tocador da Lata) não ir para viagem para não deixar os pais sozinhos e por ele ser o cozinheiro oficial da família. Ou o fato de outros participantes, como Mião (Tocador do instrumento Zambê) e Quequé (dançarino), dizerem que iriam pra viagem mesmo que não fossem liberados de seus trabalhos. Esses dados me revelaram o quanto

60 essa manifestação é importante para a vida deles, a ponto de correrem o risco de perderem seus trabalhos.

Nessa entrevista também me foi revelado que o Mestre Geraldo não vai acompanhar a turnê, e que desde que percebeu que essa viagem ia realmente acontecer, coisa que ele inicialmente duvidava, passou a sofrer com muita ansiedade, sendo necessário, inclusive, intervenção com medicamentos tranquilizantes. Essa informação me trouxe a constatação do quanto uma interferência ocasionada por uma demanda externa e atípica de apresentações pode modificar a rotina de um grupo como esse. Para além de todas as mudanças que ocorrem na performance como um todo, em todos os processos que o constituem o evento performático em si, o quanto também pode interferir em aspectos mais pessoais de integrantes do grupo, como é o caso de Mestre Geraldo. No mais, a ausência de Mestre Geraldo nessa viagem também confirma o processo de transição vivenciado por eles e o quanto isso ainda não é algo totalmente aceito pelo mestre, pelo menos o quanto isso não o satisfaz.

Todas essas impressões aqui mencionadas constarão em detalhes e com suas respectivas análises no próximo capítulo, que trata da performance do grupo, sendo essas aqui, apenas pontuações, sem grande aprofundamento sobre o quadro já verificado e em processo de análise das vivências em campo com o Coco de Zambê de Mestre Geraldo.

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