2.3 Langage pseudo-SQL pour flux issus de capteurs
3.1.1 Interfaces
No transcurso de meio século de cidade-capital, por suas contradições originadas de seu projeto e confrontadas com a realidade, que nos possibilita pensá-la como espaço real e concreto, produto da sociabilidade de seus cidadãos, Brasília produziu e continua produzindo tensões, em campos diferentes, seja nos aspectos políticos, geográficos, culturais, demográficos, arquitetônicos, entre outros, que levaram a soluções nem tão criativas assim, quanto à sua idealização e construção, haja vista a proliferação de cidades-satélites (atualmente, são 31, conhecidas como Regiões Administrativas), que não constavam do plano original, mas que foram inevitáveis e hoje abrigam centenas de milhares de imigrantes, acentuando ainda mais a segregação. A cidade que foi pensada para abrigar algo entre 500 e 600 mil
habitantes; hoje possui mais de 2,6 milhões, acrescida ainda da população que reside no seu Entorno, que ultrapassa um milhão.
O professor José Geraldo de Souza Jr, ex-reitor da UnB, aponta a segregação como um dos graves problemas estruturais da Capital. Diz ele que no imaginário idealizador da cidade,
na configuração de uma alternativa de vida urbana democrática e participativa, encontrou seu limite nas condições da sociedade capitalista, injusta e desigual. O próprio sucesso do desenvolvimento urbano da cidade gradativamente desarticulou a lógica da utopia original e operou a segregação das camadas populares, reorientando o espaço urbano com a estratificação das classes sociais na península e nas cidades-satélites105. Em artigo publicado na revista eletrônica Minha cidade, o professor Fabiano Sobreira106 também aborda de forma crítica as raízes da segregação em Brasília, que levaram a essa situação de desequilíbrio que a Capital enfrenta nos dias de hoje. Para o autor, se a invenção da nova capital era idealizada como “uma matriz sobre a qual se desenharia um novo e desejável projeto de nação e como um símbolo de uma nova sociedade que se formava”, poderia se constatar desde então que “o símbolo não resistiria à realidade`. Em seu entendimento, o subdesenvolvimento de Brasília (a metrópole), que se contrapõe ao aparente desenvolvimento de seu núcleo simbólico (o Plano Piloto) – numa referência a Milton Santos, que declarara, ainda em 1964, que apesar de a nova capital ter tido importante papel na redução do desequilíbrio regional, o subdesenvolvimento seria uma barreira para a materialização da utopia moderna – “é consequência direta do subdesenvolvimento político e social do País, que se alimenta das estratégias de não planejamento, onde o discurso da participação democrática e do interesse público ocultam, nos bastidores, a predominância dos interesses privados e empresariais”.
105
SOUSA Jr. José Geraldo. Brasília aos 50 anos (prefácio). In PAVIANI, Aldo et alii (Orgs). Brasília
50 anos: da capital a metrópole. Brasília: Editora UnB, 2010, p.10.
106
SOBREIRA, Fabiano. Brasília: Estratégia do não planejamento. Revista eletrônica Minha cidade, ano 13, março de 2013. In http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/13.152/4691. Acesso em 21/03/2013
Esse cenário da atual Brasília nos leva a refletir como Michel de Certeau, que identifica práticas estranhas na cidade habitada, práticas essas que não vêm à superfície:
Escapando às totalizações imaginárias do olhar, existe uma estranheza do cotidiano que não vem à superfície, ou cuja superfície é somente um limite avançado, um limite que se destaca sobre o visível. Neste conjunto, eu gostaria de detectar práticas estranhas ao espaço “geométrico” ou “geográfico” das construções visuais, panópticas ou teóricas. Essas práticas do espaço remetem a uma forma específica de “operações” (“maneiras de fazer”), a “uma outra espacialidade” (uma experiência “antropológica”, poética e mítica do espaço) e a uma mobilidade opaca e cega da cidade habitada. Uma cidade transumante, ou metafórica, insinua-se assim no texto claro da cidade planejada e visível (CERTEAU, 2011, p. 159) (grifos do autor).
Em Brasília, como em outras grandes cidades, “imagens construídas artificialmente tendem a confrontar-se dialeticamente com imagens do real, representado pelo cotidiano de seus habitantes”107
. Talvez por isso mesmo é que, ainda em 1961, o arquiteto Lucio Costa, já preocupado com a expansão geográfica da Cidade pela especulação imobiliária e buscando assegurar a implantação da cidade conforme seu projeto e de acordo com a sua esperança de que a força do mercado ditada pela lógica da produção capitalista não ditaria as regras na Capital, escreve, em carta, ao presidente da Novacap, contra a criação do bairro Cruzeiro:
O que caracteriza o plano de urbanização aprovado em concurso e efetivamente executado é a concentração residencial em apartamentos nas chamadas superquadras, constituindo cada quatro delas uma área de vizinhança [...] O plano previu nessas áreas de vizinhança habitação de padrões econômicos diferentes a fim de possibilitar à população dos servidores em geral a utilização da cidade como foi planejada, evitando-se a divisão da parte urbana propriamente dita em “bairros ricos” e “bairros pobres”, ensejando assim o convívio normal da população nas escolas e nos logradouros públicos destinados à diversão, ao comércio etc. [...] Ocorreu, porém, o erro da venda indiscriminada dos terrenos correspondentes às projeções dos blocos a edificar, sem o cuidado de se preservarem, conforme o relatório do plano-piloto sugeria, as superquadras internas para a construção de apartamentos econômicos, contribuindo o governo com a cessão das áreas respectivas a quem de direito para tornar viável o empreendimento nos termos sociais previstos, e não na base da mera especulação imobiliária. Daí o equivoco generalizado de considerar as superquadras áreas destinadas apenas a determinada categoria de inquilinos, criando-se em consequência, artificialmente, o problema atual e a decorrente proposta de soluções supostamente “econômicas”, que são verdadeira aberração, como esta de discriminar nas áreas urbanas disponíveis milhares de casinholas [...] E tudo isto quando existe pronta e
107
CIDADE, Lúcia Cony Faria. Qualidade ambiental, imagem de cidade e práticas socioespaciais. In PAVIANI, Aldo e GOUVÊA, Luiz Alberto de Campos. Brasília: Controvérsias ambientais. Coleção Brasília. Brasília: Editora UnB, 2003, p. 156.
vazia a trama urbana da cidade planejada e construída para este fim. Nenhum morador deve morar fora da área residencial concentrada ao longo do eixo rodoviário; se o fizer, que seja por capricho e iniciativa própria, não coagido pelas circunstâncias108.
Sobre os rumos do crescimento excessivo da Capital e a distância entre a utopia que originou Brasília e a realidade, onde se tornou visível a segregação social, Umberto Eco já havia se pronunciado. Segundo ele, Brasília teria se transformado, de cidade socialista que devia ser, “na própria imagem da diferença social”, em que “funções primeiras transformaram-se em funções segundas, e estas últimas mudaram de significado” e ainda mais: “a ideologia comunitária, que devia patentear-se através do tecido urbanístico e do aspecto dos edifícios, deu lugar a outras visões da vida associada”. Eco, em seu argumento de defesa do projeto de Lucio Costa [sem que o arquiteto nada tenha feito de errado em relação ao projeto
inicial], diz que Brasília foi construída como “um monumento mais perene do que o
bronze e está sofrendo lentamente a sorte dos grandes monumentos do passado, que a história preencherá de outros sentidos, e que serão modificados pelos eventos que eles pretendiam modificar” (ECO, 2012 p. 246-247).
O arquiteto Oscar Niemeyer também demonstrou em algumas ocasiões imensa preocupação, como na entrevista que deu ao jornal britânico The Guardian, em março de 2008109, em que ele declara que há problemas no jeito que Brasília evoluiu. “A cidade deveria ter parado de crescer há algum tempo. O trânsito está mais difícil e o número de habitantes já ultrapassou o previsto”.
Esse quadro traz enormes problemas para a Cidade, pois “crescendo a taxas superiores à média nacional, pressiona os recursos naturais, requer mais espaços habitacionais e de serviços, como nos comércios das entrequadras, adequações da Cidade pensada e a que se efetivou agigantada”, diz o professor Aldo Paviani, em artigo publicado no jornal Correio Braziliense110. Mas, apesar dos problemas que a
108 Citado por Marcelo Coutinho Vargas, em sua dissertação de mestrado “Estratificação e mudança social em Brasília” – IFCH/Unicamp, 1989.
109
O jornal Correio Braziliense, do dia 7/12/2012, em edição especial do Caderno Cidades, reproduz trechos desta entrevista, da qual extraimos o desabafo do arquiteto.
110 Em “Patrimônio cultural: título a preservar”, jornal Correio Braziliense, 10/07/2012, caderno Opinião, p.15.
afligem, como segregação social e espacial, violência urbana, excesso de carros, ocupação territorial desordenada, entre outros, comuns também às demais grandes cidades do país, Brasília possui o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos mais elevados do país.
Com o crescimento urbano acelerado excludente e desequilibrado da Capital e de suas cidades-satélites e as demandas sociais decorrentes, ficou mais visível a segregação, a desigualdade mais patente e o espaço urbano também reconfigurado, o que nos faz lembrar o personagem Marco Polo, da obra As cidades invisíveis, de Italo Calvino, quando ele diz que “as cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa” (CALVINO, 2003, p. 46). Assim, desconstrói-se o mito fundador da Capital e o real desponta.
Mas a Capital passa a ter outro dinamismo a partir dos movimentos populares sociais, que, organizados e mobilizados, exerceram, em vários momentos históricos, a cidadania, seja por motivos políticos, seja por melhores condições de vida, seja por motivações artísticas, seja por intervenções no plano urbanístico da Cidade, por meio de consultas populares, pois Brasília “é muito mais que urbanismo, é uma hipótese de reconstrução de todo um país” e “supõe uma remodelação geográfica, social e cultural do país inteiro” (PEDROSA, 1981, p. 351). Isso é extremamente significativo, tendo em vista que em qualquer cidade a vida flui e faz com que o espaço em sua dimensão social, apreendido subjetivamente e simbolicamente, seja usado de maneira intensa, permitindo reconfigurações e adaptações, resultados de uma práxis que se produz e se reproduz continuamente. Um patrimônio forjado nos seus contrastes e no clamor de seus habitantes por cidadania.
Parece que foi leitura semelhante que levou Lucio Costa a proclamar sua supresa diante da apropriação de um espaço pelos moradores, em uma visita sua a Brasília, no ano de 1984, mirando a Cidade sobre a plataforma da Rodoviária do Plano Piloto: Eu caí em cheio na realidade, e uma das realidades que me surpreenderam foi a Rodoviária, à noitinha. Eu sempre repeti que essa Plataforma
Rodoviária era o traço de união da metrópole, da Capital com as cidades satélites improvisadas da periferia. [...] Então eu senti esse movimento, essa vida intensa dos verdadeiros brasilienses [...]. Isto tudo é muito diferente do que eu tinha imaginado para esse centro urbano, como uma coisa requintada, meio cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros verdadeiros que construíram a cidade e estão ali legitimamente. É o Brasil... E eu fiquei orgulhoso disso [...] Eles estão com a razão, eu é que estava errado. Eles tomaram conta daquilo que não foi concebido para eles. Então eu vi que Brasília tem raízes brasileiras reais, não é uma flor de estufa como poderia ser. [...] Na verdade, o sonho foi menor do que a realidade. A realidade foi maior, mais bela (COSTA, 1995, p. 311).