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Como já foi referido, alguns artistas plásticos portugueses contemporâneos começam por interessar-se pelo vidro e a partir dos anos 50 assistimos à sua deslocação até à Fabrica Escola Irmãos Stephens para realizarem algumas obras.

Os pintores Alice Jorge e Júlio Pomar realizaram, em 1956, peças na Fábrica Escola Irmãos Stephens, exibindo estes trabalhos na galeria Rampa em Lisboa (DIONÍSIO: 1990, 288). Sá Nogueira realizou também trabalhos na Fábrica Escola Irmãos Stephens, que foram expostos em 1957 na galeria Rampa (SANTOS: 1998; 204-213 e SANTOS: 2002; 126-129). O escultor Lagoa Henriques realizou, em 1958, também na Fábrica Escola Irmãos Stephens, peças de vidro e o entusiasmo pela experiência do trabalho com os operários vidreiros foi tanto, que o artista regressou novamente à fábrica para elaborar novas peças (PERREIRA: 1994; 12-19, 155).

A artista Carmo Valente começou em 1958 a realizar peças de vidro na Fábrica Escola Irmãos Stephens; estes trabalhos viriam a ser expostos também na galeria Rampa no ano seguinte. Com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian a artista explora novas linhas nas fábricas de Venini em Murano, Itália, Orrefors na Suécia e Arábia na Finlândia (SANTOS: 2001; 42-45).

Outra das artistas que se evidenciaram nesta área foi a escultora Maria Helena Matos, que, também desde a década de 50, elege o vidro soprado como material na produção dos seus trabalhos de artes plásticas e de design (Figura 1.1), fortalecendo a relação entre o artista e o mestre vidreiro (SANTOS: 2001). A artista consolidou-se como uma das pioneiras do design Português no vidro, com elevado destaque no panorama nacional. As suas peças foram produzidas nas várias fábricas da Marinha Grande, nomeadamente na fábrica Vidros Santo Galo e Fábrica Escola Irmãos Stephen.

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Figura 1.1 Peças de sopro, Maria Helena Matos. Da esquerda para a direita: “Taças, Jarras”,

vidro soprado moldado e talhado à roda brava com trabalho a ácido, anos 60; “Frascos” cristal doublé soprado moldado, anos 60; solitário, “Jarra” cristal soprado com aplicação de manchas de vidro de cor, anos 70

Nos anos 60 Maria Helena Matos começou a explorar as várias potencialidades do vidro em chapa, elaborando peças de cariz escultórico e continuando a eleger o vidro como material plástico para realizar as suas obras, procurando investigar as capacidades do vidro de chapa.

“No sentido de integrar a atmosfera e a luz nos seus trabalhos,

em sobreposição, transparência e linhas de força desenhadas pelas superfícies de corte que conduzem a uma escultura que «respira» e se integra no espaço onde se encontra”.

(SANTOS: 2004, 87)

A sua obra “Ruínas no meu Sono” (Figura 1.2), de 1989, que integrou a exposição realizada em 2001 no Museu do Vidro da Marinha Grande, é um dos exemplos onde a artista desenvolveu esta técnica. Utilizando vidro fumado, Maria Helena Matos cria uma paisagem arquitectónica, que possuiu um cariz urbano. Apesar da sua aparente instabilidade, a peça permanece em equilíbrio por si só.

Nos anos 80 a artista vê reconhecido o seu trabalho quando o Museu Curtius de Liége adquire três das suas peças para integrarem a sua colecção (SANTOS: 2001).

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Figura 1.2 Peça “Ruínas no meu sono”, colagem, Maria Helena Matos, 1989.

Niza de Melo Falcão foi contratada como designer na Fábrica Escola Irmãos Stephens em 1987. Um ano depois, esta designer começa a desenvolver obras de cariz pessoal, onde, em colaboração com mestres vidreiros, nomeadamente o Mestre Esteves, (nome pelo qual é conhecido) procura explorar as técnicas tradicionais de trabalhar o vidro e a cor no vidro, com uma linguagem contemporânea. Assim, através das técnicas do craquelle8, encamisado9 e as marisas10, a artista cria as suas peças e procura introduzir cor nas mesmas (Figura 1.3). Participa em várias exposições nacionais e internacionais (Anexo I).

8 Esta técnica caracteriza-se por colocar o vidro quente dentro de água fria. Este fica com um aspecto

partido. Pode ser aquecido na cornua, prevenindo que o vidro parta por completo, e ainda levar uma segunda colha de vidro por cima desta.

9 Esta técnica caracteriza-se por colocar, por exemplo, um vidro de cor no meio de vidro transparente

incolor. Para isso é necessário realizar uma colha de vidro incolor, onde seguidamente é colocado o vidro de cor. Por fim volta a colocar-se um vidro incolor.

10 A marisa corresponde a uma pequena quantidade de vidro que foi adicionada à posteriori à peça de

sopro, e geralmente é usada para elementos decorativos como repuxados, pegas e asas. Uma operação de acabamento da peça moldada, colocação de pequenos pedaços de vidros, chamados marisas, ou a realização de cortes e feitios (AZAMBUJA: 2008; 148).

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Figura 1.3 Peças “Ampulheta do tempo ”, sopro, Niza de Melo Falcão, 1989/199011.

O arquitecto Siza Vieira também concebe peças nas fábricas da região, como por exemplo, as jarras de 1995 e o copo do vinho do Porto em 2001.

Contudo, nem só os artistas de formação académica se destacaram na área do vidro de sopro. A “terra do vidro” conta com mestres vidreiros, possuidores de perícias e práticas na mestria da arte de trabalhar este material. São indivíduos que começaram desde muito jovens (alguns ainda crianças) a manusear esta arte secular, aprendendo uma tradição de técnicas e procedimentos, que passavam de geração em geração, por vezes de pai para filho, no entanto inovando e progredindo no nível técnico, aventurando-se em seguida nos domínios estéticos, conseguindo hoje, muitos desses aprendizes, chegar ao tão prestigiado lugar de “mestre vidreiro”12. Entre os vários exemplos destacam-se Júlio Liberato e Jorge Mateus.

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Fotografia cedida pela artista.

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O conceito de “Mestres vidreiros” é remoto e refere-se ao trabalho dos “mais conceituados oficiais do fabrico e decoração de vidro” (catálogo: Novas Mestrias; 2008). Neste sentido, à medida que o vidreiro adquiria competências e saberes na técnica de trabalhar o vidro, sentia-se a necessidade de fazer a distinção entre os aprendizes, os bons oficiais e os “mestres”. O “mestre vidreiro” é o título que todos aqueles que trabalham no vidro aspiram um dia alcançar, assimilando o reconhecimento da qualidade técnica de trabalhar o vidro.

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Júlio Liberato caracteriza-se por efectuar, a solo, trabalhos usando a técnica de

filigrana13, oriunda de Murano. As suas peças possuem uma leveza ancestral, onde o

jogo de cores, linhas e entrelaçados criam composições harmoniosas. Os seus pratos gigantes, expostos no Museu do Vidro da Marinha Grande e no CRISFROM (Figura 1.4), demonstram as suas capacidades estéticas e a sua mestria perante a técnica usada. Radicado na Austrália, Liberato possuiu nesse país um estúdio equipado para vidro soprado onde realiza as suas peças, expondo com certa regularidade, tanto no estrangeiro como em Portugal. Leccionou vidro soprado na Universidade de Newcastle (College of Advance Education), Austrália, de 1976 a 1978, e de 1979 a 1982 foi professor coordenador no Caufield Institute of Technology (CIT Monash University), Australia (catálogo Novas Mestrias: 2008, 25). Na exposição realizada no Museu do Vidro em 2008, Júlio Liberato expôs a sua obra “central twist” (Figura 1.4), onde é possível observar não só um rigor na técnica empregada como uma preocupação com a estética utilizada. Utiliza uma predominância da cor vermelha opaca, onde linhas amarelas, brancas e pretas envolvem a peça. A técnica é uma constante preocupação de Júlio Liberato (Anexo II).

Jorge Mateus é um gaffer14, e sem dúvida, um exemplo desta natureza de saberes, na

medida em que executa com precisão e mestria os trabalhos que lhe são

encomendados.Este mestre vidreiro realiza também trabalhos de cariz pessoal, onde a

mestria da técnica do sopro é utilizada. Tendo realizado estágios com mestres vidreiros italianos, franceses e holandeses, assumiu as funções de formador de vidreiros no

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Filigrana: é uma técnica que utilizam fios, tubos ou varetas de vidro. Normalmente realiza-se o tubo de vidro no qual são introduzidos fios de vidro de cor diferente (na técnica original desenvolvida em Murano a cor branca era a utilizada), que formam no seu conjunto uma espiral. Júlio Liberato realizou uma demonstração desta técnica nas instalações do Crisform em 2006. Demonstração essa à qual assisti e pude visualizar a mestria e cuidado que este artista desenvolveu na criação de uma pequena jarra. Falou também da sua experiência em leccionar na universidade e do prazer que possuiu em trabalhar sozinho no seu estúdio na Austrália.

14 Gaffer é alguém que se encarrega de realizar um trabalho de um artista ao nível técnico. É uma

pessoa possuidora de uma grande mestria na técnica que utiliza. Podemos dizer que é semelhante ao termo de “mestre vidreiro”, pois ambos são possuidores de conhecimentos técnicos que permitem a laboração do vidro. Contudo o título de “mestre do vidro” fica para sempre conotado ao indivíduo. O termo gaffer pode ser meramente ocasional, como por exemplo os gaffers de Pilchuck Glass School. Em 2007, Jay MacDonell foi co-professor e artista num workshop “Look around”. No ano seguinte ele foi gaffer da sessão 3, onde ajudou os artistas e professores a realizarem peças. Com isto verificamos que o termo gaffer não fica conotado com a pessoa.

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CRISFORM em 2005, tendo regressado a França em 2007, onde se encontra actualmente a trabalhar. Alguns dos seus trabalhos estão em exposição nas instalações do CRISFORM (Figura 1.5). Caracterizam-se por peças esféricas onde no seu interior formas abstractas de intensas cores e possuidoras de um carácter vegetalista parecem levitar no seio da mesma.

Figura 1.4 Duas peças de Júlio Liberato. Da esquerda para a direita: Prato, onde foi utilizada a

técnica de filigrana, sopro, (exposta no CRISFROM) e “central twist” 15 (exposta no Museu do Vidro), sopro, 1998.

Figura 1.5 Duas peças, "sem título", sopro, Jorge Mateus.

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