• Aucun résultat trouvé

INTERFACE ELECTRONICS SPECIFICATIONS

PRINTED CIRCUIT BOARD OPERATION

3.3 INTERFACE ELECTRONICS SPECIFICATIONS

Na segunda parte desta dissertação pretende-se estudar a inscrição do jornal e do jornalista na ficção de Eça de Queirós, tendo como corpus obras que demarcam fases específicas da sua escrita. São elas: O Crime do Padre Amaro (1876), O Primo Basílio (1878), Os Maias (1888), A Ilustre Casa de Ramires (1900)1, A Cidade e as Serras (1901)2.

Ao longo da obra de Eça, contemplamos a presença do jornal, e mesmo da revista, como uma constante na vida das personagens, quer através da leitura, quer possuindo uma existência de objecto do quotidiano, que surge na mão ou debaixo do braço de alguém que o transporta, que está colocado em qualquer parte da casa, chegando até a poder ser considerado elemento decorativo e identificador do ambiente vivido em determinado microespaço social. Eça transforma um simples objecto do dia- a-dia em motivo de interesse para o leitor atento dos seus romances. De facto, no decorrer da leitura das suas obras, o leitor é surpreendido pela abundância de pormenores que decorrem da descrição de objectos que, brotando da sua simplicidade, constituem pistas interpretativas:

“Ahora , cuando las corrientes literárias que alborotaron el siglo passado y los comienzos del presente se han confundido en un conjunto promicual y generalmente gris, los escritores mui definifos, como Eça de Queiroz, parecen adquirir un valor nuevo. Son como esos objetos a los que estamos viendo todos los dias y que, en um momento cualquiera en que reposamos en ellos nuestra attention, surgen de improviso como recientes y nunca vistos.”3

Esta abundância de pormenores é caracterizadora do Realismo, movimento literário em que facilmente inserimos a obra de Eça de Queirós, ainda que o seu Realismo tivesse características muito próprias, rapidamente identificáveis como queirosianas, uma das quais contemplando o uso da ironia na apresentação da realidade, a que está, como sabemos, associada a crítica. Eça troça de seus próprios personagens,

1

Publicada postumamente, esta obra tivera já uma versão incompleta na Revista Moderna.

2

Publicação póstuma, com texto revisto por Ramalho Ortigão e Luís Magalhães.

3

Antonio Espina, “En la hora de Eça de Queiroz” in Lúcia Miguel Pereira e Câmara Reis (orgs.), Livro

do Centenário de Eça de Queiroz, Lisboa, Livros do Brasil, 1945, pp.403-404.

provocando o sorriso do leitor. Numa carta a Rodrigues de Freitas, de 1878, o escritor apresenta uma feroz defesa do Realismo:

“O que lhe agradeço profundamente é a sua defesa geral do Realismo. Os meus romances importam pouco; está claro que são medíocres; o que importa é o triunfo do Realismo – que ainda hoje méconnu e caluniado, é todavia a grande evolução literária do século; e destinado a ter na sociedade e nos costumes uma influência profunda. O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, ia quase dizer a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc.”4

Através da leitura deste excerto, conseguimos compreender o apoio incondicional que Eça, neste momento do seu percurso literário, dá ao Realismo, como uma nova corrente capaz de quebrar com a tradição de uma escrita romântica, totalmente contrária à realidade. Se os escritores românticos se propunham pintar o que idealizavam do mundo em que viviam, os realistas desejavam antes fotografar a realidade, através de uma escrita que não temia apresentar até mesmo o lado mais negativo da sociedade. O realismo de Eça contempla, como ele próprio escreve, uma quase caricatura da realidade, uma vez que ridiculariza as suas personagens, exagera os seus vícios, de modo a criticar o mundo burguês da época. No mesmo ano, Eça escreve uma outra carta, desta vez a Teófilo Braga, onde aponta aquela que considera a sua missão como escritor realista:

“A minha ambição seria pintar a sociedade portuguesa, tal qual a fez o Constitucionalismo desde 1830 – e mostrar-lhe, como num espelho, que triste país eles formam – eles e elas. É o meu fim nas Cenas da Vida Portuguesa. É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário, o mundo agrícola, o mundo supersticioso – e com todo o respeito pelas

4

Eça de Queirós, Cartas e Outros Escritos, Lisboa, Edição Livros do Brasil, s/d, pp.44-45.

instituições que são de origem eterna, destruir as falsas

interpretações que lhes dá uma sociedade podre. Não lhe parece

Você que um tal trabalho é justo?”5

A leitura deste pequeno trecho da carta deixa evidente a necessidade que Eça tinha de que os seus romances funcionassem como um espelho da sociedade, apresentando-lhe o seu lado mais negativo. Digamos que encarava o realismo como tendo uma forte função pedagógica, acreditando no forte poder da literatura como uma arma para reformar o país. A crítica é, pois, um elemento caracterizador do realismo e, por extensão, do naturalismo, ainda que rejeitada pelos românticos, que preferem a idealização da sociedade à sua representação real.

Na obra de Eça que constitui o corpus deste trabalho abundam traços do realismo. Nomes de publicações reais surgem a par de nomes ficcionais, povoando as conversas das personagens sobre vários assuntos, e permitindo ao escritor o seu toque de ironia, quer relativamente à situação política, económica, social, cultural de Portugal, quer no que diz respeito ao que se passava no resto da Europa. O conteúdo de várias publicações surge no universo da ficção, permitindo ao leitor conhecer o que chamava a atenção do público leitor português no jornal, e se esta mesma atenção variava conforme o meio social e a educação.

A presença dos periódicos no romance queirosiano permite ao escritor traçar o perfil da sociedade portuguesa de oitocentos e, mais especificamente, conduz à caracterização do jornalismo que se fazia nesta época, uma vez que o jornal surge não só como objecto, mas também como espaço onde as notícias são redigidas. De facto, o espaço de redacção é sujeito a um olhar crítico, de forma a enfatizar os pobres textos que ali eram produzidos, salientando-se o facto de não raras vezes este órgão de imprensa ser usado como troca de favores e como palco de conflitos, em que a função social e pedagógica do jornal é esquecida em detrimento de interesses pessoais, políticos e até mesmo económicos.

A figura do jornalista é também uma constante nos romances de Eça de Queirós. Ele, também jornalista ao longo da sua vida, não deixa, porém, de apontar os erros e vícios desta profissão, que considerava de grande importância para a sociedade, mas que estaria nas mãos de indivíduos que, infelizmente, desviavam a imprensa da sua função

5

Idem, Correspondência, Lisboa, Edição Livros do Brasil, s/d, p.35.

- 58 -

de transmitir informação de qualidade e de, simultaneamente, reformar a sociedade. Nas palavras de Jaime Brasil:

“A sua mágoa, a de todos os jornalistas que desejariam ver a sua profissão prestigiada (…) levava o jornalista Eça de Queiroz a castigar, nos mais duros termos, a venalidade e corrupção, a ignorância e a suficiência de pretensos jornalistas, e não só dos patrões mas da própria criadagem, dos escribas- lacaios.”6

O jornalismo aparece nos romances de Eça como parte constitutiva da crítica social que pretende fazer ao seu país e, talvez por isso, submeta as personagens ao ridículo, quer pela forma como as descreve, quer pelos comportamentos morais e sociais que lhes atribui. Escreve Roberto Rosa acerca do romancista:

“Observava a Humanidade primorosamente, é certo, mas dava-a nos seus romances deformada, vista apenas com o monóculo do ridículo para, através dela, visar o que achava necessário combater.”7

Através dos seus romances, Eça procurou evidenciar a importância da imprensa no quotidiano da sociedade portuguesa do século XIX. Através da crítica ao jornalismo que se fazia, mostrava a sua vontade de ver nascer jornalistas que honrassem os nobres propósitos que deveriam ser a base da sua profissão. Acreditava que no meio de tantos jornalistas, como o seu famoso Palma Cavalão d’ Os Maias, poderiam surgir ou ressurgir homens que tivessem o mesmo alto conceito de jornalismo que o escritor possuía.

Nas páginas que se seguem serão, pois, analisados todos estes aspectos, objectos de uma análise interpretativa que terá por base a informação presente nos romances referidos. A primeira parte centrar-se-á no jornal (objecto, instituição, redacção), e na segunda parte será analisada a figura do jornalista.

6

Jaime Brasil, “Eça de Queiroz, jornalista” in Lúcia Miguel Pereira e Câmara Reis, (orgs.), op. cit., pp.517-518.

7

Roberto Nobre, “Crítica e auto- crítica em Eça de Queiroz” in Lúcia Miguel Pereira e Câmara Reis, (orgs.), op. cit., p.611.

CAPÍTULO I

1

Documents relatifs