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O processo de urbanização brasileiro, tendo como marco a década de 1950, acontece de forma desigual não somente em relação à força produtiva, mas também em relação às condições de moradia. Em alguns estados, principalmente aqueles do Sul e Sudeste, a máquina substituiu parte da mão-de-obra. Já em outros estados do Nordeste principalmente, a incorporação efetiva do maquinário não se perfilou numa realidade concreta em toda a região.

De acordo com Santos (2008), ao discutir a urbanização brasileira, o crescimento numérico anual da população urbana entre 1970-1980 foi de 2.900.000, sendo um número maior que o crescimento da população anual total que chegou aos expressivos 2.600.000. Conforme a urbanização se acentuou, as pessoas migraram cada vez mais do campo para a cidade ocasionado a formação de grandes massas de despossuídos, obrigados a ocuparem a periferia dos grandes centros. Desse modo, as áreas periféricas desprovidas de infraestrutura e serviços sociais urbanos foram ocupadas sobremaneira pelo segmento socioeconômico menos favorecido. Nestas áreas, a intervenção do Estado por meio da política habitacional, gerou moradias para trabalhadores em situação de precarização social, conforme ocorrido na Zona Norte de Natal/RN. Sendo assim, foram construídos conjuntos habitacionais para atender a necessidade de habitação dessa população migrante. No entanto, por ocasião deste momento, não houve participação da população na tomada de decisão acerca do planejamento e consolidação das unidades habitacionais, assumindo assim, segundo o pensamento do Lefebvre

(2000) a forma do habitat. Fato semelhante ocorrido na França fez Lefebvre (2000, p. 81) entender o habitat como o resultado da ordem que se concretizou no espaço num processo “instaurado pelo alto: aplicação de um espaço global homogêneo e quantitativo obrigando o “vivido” a encerrar-se em caixas, gaiolas, ou, máquinas de habitar”.

Por esta lógica, e em consonância com o pensamento de Lefebvre (2000), pode-se compreender que os moradores participantes do processo inicial de expansão urbana da Zona Norte de Natal foram privados da obra, visto que não tiveram a oportunidade de decidir sobre a sua própria moradia. Esta fora inclusive projetada para as áreas periféricas, tanto do ponto de vista geográfico em relação ao centro da cidade, quanto do ponto de vista social pelas precárias condições de vida em um espaço pouco aparelhado no que se refere a infraestrutura e serviços urbanos.

No entanto, ao se debruçar sobre a história relatada por alguns moradores e/ou comerciantes na seção anterior, nota-se que a ação do Estado, ainda que em sua essência não tenha lhes concedido a condição de habitar, fez emergir o desejo da casa própria e a partir daí a construção do lugar da moradia. Ao adquirir a casa própria, os moradores passaram a desenvolver práticas no intuito de atender as suas necessidades básicas de consumo como alimentação, medicamentos e vestuário e aos poucos foram incorporando àquele espaço equipamentos básicos resultado da reprodução da própria vida.

O cenário atual da Zona Norte, ainda que se trate de realidades e tempos diferenciados daquele tratado por Lefebvre, pode ser interpretado à luz do pensamento do autor quando infere que a classe operária é aquela que sofre as consequências da explosão das antigas morfologias. Ela é vítima de uma estratégica segregação de classe permitida por essa explosão. Na visão de Lefebvre (2000), a antiga miséria proletária se atenua e tende a desaparecer nos países industriais fazendo surgir uma nova forma de precarização, a do habitat, que se expande na cidade e atinge sobremaneira o proletariado, mesmo sem isentar outros segmentos sociais, de modo que a população seja conduzida a uma cotidianidade organizada (na e pela sociedade burocrática de consumo dirigido).

Em paralelo ao habitat instaurado na Zona Norte, formas de ocupação desordenada foram surgindo como meio da população, que não fora beneficiada com o conjunto habitacional, construir sua própria residência à maneira desejada em

consonância com as vivências do próprio grupo. Cita-se como exemplo, os loteamentos em que, de posse do lote, o morador construiu sua casa desvencilhado de padrões pré-estabelecidos. Nestas construções, o maior interessado, o morador, foi sujeito atuante no processo de produção do espaço urbano da Zona Norte.

Deixando-se influenciar também pelas ideias do filósofo Heidegger, quando discute a habitação com o resultado de um planejamento, torna pertinente pensar sobre a produção espontânea do espaço da Zona Norte em forma de loteamentos que perpassa pela questão central situada em torno do “habitar” ou seja, o espaço essencialmente caracterizado como aquele de apropriação por um grupo, cujo objetivo ultrapassa o sentido de estabelecer residência.

Em outras palavras “O habitar é a própria essência da relação homem-meio, expressa na totalidade vivida e nas ligações com o construir” (PROENÇA, 2011, p. 22). A este respeito, vale acrescentar que nem toda construção pode ser habitada, apenas aquelas destinadas à moradia. Uma ponte não pode ser habitada, nem tampouco um salão, mas todos são construções. No entanto, se desvencilhando do simples fato de construir, “o habitar é o traço fundamental da condição humana. Pelas suas diversas dimensões, ele constitui-se num traço do ser, pelo qual os mortais estão sobre a terra. A habitação revela ao homem a sua situação de ser mortal” (PROENÇA, 2011, p.23). Por esta ideia, compreende-se então que habitar significa não simplesmente uma condição de morar a partir de uma construção, mas a realização de um desejo resguardado ao ser humano.

Pela compreensão do habitar em discussão, infere-se que o espaço urbano da Zona Norte, edificado pelo Estado ou pelos próprios moradores, serviu a uma população que construiu no dia-a-dia não somente o desejo da moradia, mas também a consolidação da reprodução da vida em terras praticamente vazias. As práticas iniciadas no solo consideravelmente desnudo, cedeu lugar ao desejo da sobrevivência e para sua realização, foram incorporadas ao lugar, atividades urbanas para atender às necessidades dos moradores.

Desta forma, aquela Zona Norte da década de 1980 em contexto de expansão urbana, mas ainda com muitas terras vazias, de longe parecia pertencer a uma cidade de crescimento econômico e social tão pujante conduzido pela Zona Sul. Enquanto esta última crescia consideravelmente em habitação de padrão elevado e sediava equipamentos comerciais importantes no âmbito da cidade, a Zona Norte apresentava um crescimento lento não só do ponto de vista do

contingente populacional, mas principalmente do ponto de vista econômico, o que lhe concedeu durante muito tempo a denominação de espaço dormitório.

Porém, a partir dos anos 1990 e principalmente 2000, quando houve uma maior construção de unidades habitacionais pelo Estado e também um aumento no número de imóveis, a Zona Norte apresentou outra realidade de modo que, segundo informações censitárias representadas na tabela 3, foi a porção que mais cresceu em termos populacionais em relação às outras zonas administrativas da cidade desenhando uma geografia que de longe se assemelha aquela de sua constituição inicial nos anos de 1980.

Tabela 3 - Evolução da população residente em Natal de 1991-2010

Z.A BAIRRO POPULAÇÃO RESIDENTE

1991 1996 2000 2010 NO RT E Lagoa Azul 9.864 40.199 50.413 61.289 Igapó 24.354 25.477 27.032 28.819 N.Sra. da Apresentação 12.982 38.708 56.522 79.759 Pajuçara 13.259 35.300 42.130 58.021 Potengi 55.877 56.221 56.259 57.848 Redinha 6.581 9.084 11.504 16.630 Salinas 529 1.026 883 1.177 SUBTOTAL 123.446 206.015 244.743 303.543 S UL Lagoa Nova 44.651 35.712 35.669 37.518 Nova Descoberta 14.307 13.130 12.481 12.467 Candelária 15.233 18.018 18.684 22.391 Capim Macio 13.984 18.103 20.522 22.760 Pitimbu 20.402 22.755 22.985 24.209 Neópolis 18.606 21.092 22.041 22.465 Ponta Negra 18.070 20.061 23.600 24.681 SUBTOTAL 145.253 148.871 155.882 166.491 LE S T E Santos Reis 7.480 6.633 6.820 5.640 Rocas 12.316 10.833 10.525 10.452 Ribeira 1.826 1.839 2.110 2.222 Praia do Meio 3.304 4.139 4.193 4.770 Cidade Alta 7.548 6.254 6.692 7.123 Petrópolis 7.506 5.222 5.105 5.521 Areia Preta 3.137 2.926 2.652 3.878 Mãe Luiza 17.416 16.324 16.058 14.959 Alecrim 39.219 32.100 32.356 28.705 Barro Vermelho - 8.024 8.145 10.087 Tirol 15.176 13.071 14.799 16.148 Lagoa Seca 13.844 7.088 6.651 5.791 SUBTOTAL - 114.453 116.106 115.297 O E S T E Quintas 35.265 32.184 29.751 27.375 Nordeste 12.045 12.041 11.436 11.521 Dix-Sept Rosado 36.233 14.869 16.141 15.689 Bom Pastor 19.015 17.746 17.984 18.224 N.Sra. de Nazaré - 18.123 15.623 16.136 Felipe Camarão 37.021 41.398 45.907 50.997 Cidade da Esperança 21.172 20.629 20.235 19.356 Cidade Nova 16.821 15.694 15.778 17.651 Guarapes 8.334 13.908 8.415 10.250 Planalto - - 14.314 31.206

SUBTOTAL - - 195.584 218.405

TOTAL - - 712.317 803.739

Fonte: Prefeitura Municipal de Natal/RN. Anuário Natal 2011-2012. Elaboração da Autora, 2016

Se na década de 1980 aquela área era ocupada basicamente por trabalhadores da indústria e se mantinha distante geograficamente do centro da cidade, inclusive, pelo precário acesso às outras áreas, hoje o cenário é outro. Do ponto de vista econômico, a Zona Norte apresenta grandes equipamentos comerciais que geram emprego para a população residente, principalmente da área, e também concentra serviços de saúde, a exemplo do Instituto do Rim e do Hospital Maria Alice. Cabe mencionar ainda a substituição do Aeroporto Augusto Severo, localizado em Parnamirim pelo Aeroporto Internacional Governador Aluízio Alves, inaugurando em 2014, cuja localização está no município de São Gonçalo do Amarante, vizinho a Zona Norte. A presença desse equipamento atraiu mão-de-obra para perto de sua localização de modo que a Zona Norte se configurou como uma das melhores opções, não somente para o estabelecimento da moradia por parte da maioria dos funcionários, como também dinamizou serviços de transporte para aquela área, como a inserção de linhas de ônibus e a otimização de praças de taxis na para atender a demanda vinda do aeroporto.

Do Ponto de vista populacional, entre as décadas 2000 e 2010 conforme expresso na tabela 4, a maior taxa de crescimento está na Zona Norte, se comparado às outras regiões administrativas de acordo com a (SEMURB, 2015).

Tabela 4 - Taxa de crescimento de Natal/RN por Zona Administrativa 2000-2010

Zona Administrativa

População Residente Percentual de crescimento (2000-2010) 2000 2010 Zona Norte 244.743 303.543 19,3% Zona Sul 155.882 166.491 6,3% Zona Leste 116.106 115.297 -0,7% Zona Oeste 195.584 218.405 10,4% Fonte: Prefeitura Municipal de Natal/RN. Anuário Natal 2011-2012. Elaboração da Autora, 2016

Parte desse crescimento da Zona Norte se explica pelo fato de muitas pessoas investirem em imóveis nesta área em função do seu baixo valor do solo urbano em comparação com o restante da cidade. A referida área tem se constituído numa alternativa viável economicamente para se fugir do aluguel em outras áreas da

cidade. De acordo com a SEMURB (2015), os bairros da Zona Norte que mais cresceram em 2015 foram Pajuçara, acima de 500 imóveis, seguidos de Potengi e Nossa Senhora da Apresentação, entre 21 e 50 imóveis.

O aumento populacional da Zona Norte deve-se ainda a maior integração desta área ao restante da cidade, promovida pela Ponte Newton Navarro (Figura 13), (popularmente conhecida como ponte todos), inaugurada em 2007. A referida ponte facilitou a mobilidade dos habitantes de outras áreas da cidade em direção a porção norte e vice e versa e também otimizou a procura daquela área por parte dos turistas.

A Zona Norte detém a maior perspectiva de crescimento populacional pela sua disponibilidade não somente em área territorial, mas também em termos de verticalização. Entretanto isto depende, sobremaneira, de investimentos do Estado em conjunto com a Prefeitura Municipal para investir em infraestrutura urbana, como saneamento básico, para que se possa revogar o gabarito previsto no atual Plano Diretor de Natal, que veta qualquer construção acima de 7,5 metros naquela zona.

O aumento no número de pessoas na Zona Norte também significa aumento no percentual de consumo na área, visto que à medida que a cidade cresce, o comércio também cresce e se desenvolve (PINTAUDI, 1999). Dito isto, compreende-

Figura 13 - Ponte Newton Navarro - Natal/RN - 2011

se que, para acompanhar o aumento populacional, haverá um crescimento nas atividades de comércio e de serviços para que a crescente demanda de consumo evidenciado na Zona Norte possa ser atendida.

O crescimento do comércio está atrelado principalmente à instalação de grandes equipamentos mencionados na segunda seção, em conjunto, com serviços como: Ginásio Nélio Dias, Campus da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Instituto do Rim, Central do Cidadão, Campus da Universidade Potiguar, Faculdade Estácio de Sá e outros que se configuraram como vetores para o crescimento da Zona Norte, principalmente entre as décadas de 2000 e 2010. No tocante ao varejo, cabe mencionar a inauguração do Assaí, grande equipamento de comércio do segmento do atacado e varejo, em dezembro de 2016. O referido empreendimento está localizado na Avenida Bacharel Tomaz Landim, na divisa de São Gonçalo do Amarante com a Zona Norte de Natal e se projeta como um grande dinamizador do consumo no ramo de alimentos e variedades.

Por estar localizado próximo ao Supermercado Nordestão de Igapó, poder-se- ia presumir que o atacarejo Assaí impulsionasse uma queda nas vendas do supermercado mencionado. No entanto, acredita-se que isto não ocorrerá em virtude das estratégias de publicidade veiculadas pelo referido. A logomarca do Nordestão, “gente da terra da gente”, explicita valores corporificados pela emprega em divulgar uma imagem de supermercado concatenado com a cultura potiguar. Outrossim, o Nordestão aplica capital no desenvolvimento de políticas de preocupação com o desenvolvimento local, meio ambiente, educação e cidadania.

Diante desse quadro de crescimento econômico e populacional elucidado e projetado para a Zona Norte não se pode negar os impactos sofridos por esta área mediante a crise econômica instaurada não só no estado, mas em todo o país. Em conjunto com outros segmentos econômicos, o varejo moderno tem sido atingido consideravelmente com a redução de produção e vendas ocasionando, deste modo, um grande número de desempregados. Como estratégia, tem-se investido cada vez mais em geração de renda alternativa. A este respeito, cita-se os casos de pessoas que, após perderem seus empregos, passaram a desenvolver novas atividades como ambulantes ou mesmo com a abertura de pequenos estabelecimentos de base fixa.

Esta alternativa de sobrevivência se constitui como garantia de permanência das condições básicas da vida de muitos desempregados. Como consequência da

crise, o habitar é colocado em situação de instabilidade podendo mais uma vez ser transformado no habitat, neste caso não pela obra projetada pelas forças hegemônicas, mas pela manutenção da sobrevivência em ambientes urbanos e no caso específico da pesquisa, na cidade do Natal.

Mediante problematização, o habitat passa a ser o espaço da própria reprodução do sistema capitalista que se reinventa na crise e projeta em ruas com Pompéia, Chegança e Boa Sorte a possibilidade de continuar gerando lucro por meio de novas artérias produtivas como o pequeno comércio de base informal. Tendo em vista a análise sumária apresentada, maiores aprofundamentos são abordados na subseção seguinte.

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