DosiVox, outil de modélisation des débits de dose en milieux hétérogènes
Chapitre 9 : Interface et accessibilité
O presente estudo se desenvolve em uma ocupação urbana, localizada Zona Norte da cidade de Pelotas às margens de um córrego urbano, ausente de infraestrutura urbana adequada nas áreas de habitação, saneamento básico e abastecimento de energia elétrica. De acordo com as narrativas dos habitantes e moradores da ocupação tem aproximadamente vinte anos, mas esse tempo é variável.
Acredito que essa variação esteja relacionada às diferentes percepções do tempo que se entrelaçam com as trajetórias dos habitantes, presentes na memória coletiva que organiza as formas de produção do espaço.
No ano de 2006, a Prefeitura Municipal de Pelotas, através da Secretaria Municipal de Habitação, realizou um levantamento socioeconômico e topográfico da área ocupada. No mesmo ano, o Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas (SANEP) realizou as instalações de abastecimento de água, porém, as instalações de esgoto e das redes de energia elétrica não se efetivaram. Tampouco foram efetuados os pedidos em relação à cedência dos termos de posse e às medidas necessárias para a abertura de processo de regularização fundiária. Foram inúmeras as tentativas, por parte de alguns moradores, para instalação das redes de eletricidade. Ao procurarem a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), foram informados de que a colocação dos postes dependia dos termos de posse fornecidos pela Prefeitura.
Também houve reivindicações para que o poder público regularizasse a área, haja vista que quase a totalidade dos moradores não tem intenções de deixar o loteamento, exceto nas situações em que há um descrédito quanto aos investimentos em melhoria na infraestrutura urbana. Essas reivindicações, na maioria das vezes, eram feitas junto aos vereadores, que mediavam as relações entre os moradores e o poder público, que acabaram não sendo atendidas.
Pela perspectiva macrossocial, o processo de ocupação e formação do loteamento se deu concomitantemente à implantação de inúmeros empreendimentos imobiliários no entorno. Esses empreendimentos têm aumentado nos últimos anos em consequência do crescimento da cidade em direção à Zona Norte, impulsionados pelos incontáveis investimentos habitacionais e de infraestrutura urbana. Os critérios utilizados para o desenvolvimento dos projetos obedecem à circulação do capital nas cidades, fortemente movimentado pela especulação imobiliária. Por tratar-se de uma ocupação irregular e informal, não foi incluído em tais projetos.
Da perspectiva microssocial, há uma especificidade no processo de formação do loteamento: quase que a totalidade dos habitantes é oriunda do bairro Santa Terezinha. Assim, a formação do loteamento acontece a partir de um movimento migratório por dentro do próprio bairro. Essa característica é fundamental para a compreensão das
fronteiras como um elemento de constituição do território. Tem-se que aqui a fronteira como espaço de interação, que se estabelece não apenas pela dimensão territorial, de classe, mas também por uma dimensão racial, considerando-se que o bairro Santa Terezinha se identifica com uma origem alemã; os moradores da ocupação, por outro lado, em sua maioria se reconhecem como negros. Essas questões raciais estão presentes desde a origem do bairro Santa Terezinha e são representadas pela rivalidade entre dois times de futebol: Terezinha Futebol Clube16, “clube dos negros”, e o Sul Brasil, “clube dos brancos”. A questão do fluxo migratório interno também possibilita a compreensão sobre as redes de sociabilidade, visto que as relações de parentesco e vizinhança não podem ser pensadas a partir da formação do loteamento, mas como constitutivas do território. Deve-se ter em consideração que os moradores já estabeleciam relações de amizade, compadrio, vizinhança, a partir dos lugares que habitavam antes da chegada à ocupação, mais especificamente, foi constituído por essas redes de relações.
Nessa contextualização do universo da pesquisa, destaco objetos de grande relevância, pela dimensão simbólica e pela materialidade na elucidação do campo pesquisado: trata-se de pontes de madeira que ligam as casas ao restante do bairro. Essas pontes é o espaço do “entre”, conectando e separando o loteamento do bairro da cidade. Ele representa toda a ambiguidade presente nos modos de habitar. São nessas pontes que acontecem as brigas familiares, brigas de casais, de grupos, entre vizinhos. É onde a “gurizada” se reúne para namorar, “jogar conversa fora” depois de uma noite
16
Nos anos 40 do século passado, uma ideia norteava as conversas de um grupo de amigos que se reuniam diariamente, no Bairro Santa Terezinha. A ideia fixa era formar um time de futebol que congregasse os jovens negros da comunidade, já que o time existente não permitia a participação de pessoas “de cor”. As conversas deram resultado: no dia 23 de janeiro de 1944, o Nico Barbeiro abriu as portas do salão para o primeiro encontro oficial, e nessa data foi fundado o Terezinha Futebol Clube (TFC). Os amigos eram: Jorge e Walter Silveira, Pedro, João Francisco e Vivico, entre outros. O Terezinha vencia campeonatos e era o orgulho da comunidade negra da Zona Norte. Mas, além de ser um time de futebol, o TFC era uma sociedade de negros, onde as famílias confraternizavam e fortaleciam sua identidade racial, numa época em que o racismo era lei em Pelotas. Existiam os clubes sociais de negros: Fica Ahí Pra Ir Dizendo; Chove Não Molha e Depois Da Chuva. Depois os clubes dos brancos: Diamantinos, Brilhante e Comercial. Nos bairros, a rivalidade esportiva coincidia com a social e a racial. Na Santa Terezinha, o Grêmio Esportivo Sul Brasil representava a comunidade branca. E o maior empenho do Terezinha Futebol Clube era disputar com o Sul Brasil e vencê-lo. Subconscientemente, a vitória era sobre o preconceito e o prêmio, a valorização étnica.
de festa. Próximo a ele as igrejas pentecostais realizam cultos. A igreja católica distribui o sopão nas noites frias de inverno. As pontes são passagens precárias, provisórias. Um espaço de disputa, em constante processo de construção e desconstrução. Ele também engendra uma série de discursos políticos, através das promessas de vereadores, com relação às melhorias das condições de infraestrutura da ocupação que são representadas pela substituição do pontilhão provisório de madeira por uma ponte de permanente de alvenaria.