3.3 L’Equation aux Vitesses Verticales
4.2.1 Interactions entre une Perturbation Synoptique et la Dérive Nord-Atlantique 47
Uma pista importante sobre o futuro de uma língua franca está em sua origem. Segundo Ostler (2010), a língua franca cresce através da adesão de novos adeptos; portanto, quando as pessoas aprendem línguas francas, o fazem com algum objetivo. Mas esses propósitos, em algum momento, podem não ter mais razão de ser ou podem ser alcançados por outros meios. Para Ostler (2010), quando as línguas francas deixam de ser meio para se alcançar determinado fim, elas correm o risco de extinção e a única saída seria ou transformar-se na língua materna de uma comunidade, isto é, ser nativizada, ou se tornar a língua de alguma empreitada imperialista de longa duração e vasto alcance. Um exemplo da equação apresentada pelo autor é a língua espanhola na América que foi a língua franca da classe dominante e das grandes cidades, mas depois se tornou a língua nativa de boa parte da população. Esta forma nada natural, ao contrário, muito violenta, pela qual a língua franca espanhola se tornou uma língua materna nos territórios invadidos, devastou muitas línguas indígenas e inviabilizou a possibilidade desta LF se transformar naturalmente em uma segunda, terceira, enfim, em uma língua requerida pelos nativos das colônias.
O persa, o sânscrito e o latim foram línguas de longo alcance, no entanto, nenhuma delas é uma língua franca viva no início do século XXI. Foram extintas porque as comunidades cujas interações se davam nessas LFs se tornaram inoperantes. Na verdade, o fim de línguas nessas condições pode se dar de maneiras diferentes, assim como as comunidades atendidas podem se transformar e mudar suas demandas. Segundo Ostler (2010), o declínio pode vir por “ruína”, com a perda da posição que ocupava devido a um declínio econômico; por “rebaixamento”, quando lhe atribuem uma posição inferior por razões políticas; e “resignação”, desistindo da posição ocupada e se submetendo a ondas sócio-políticas ou sócio-econômicas.
Cada um desses elementos pode acometer uma língua franca dominante e cada um tem muitos exemplos, como o grego, o latim, o persa, entre outras línguas. Os exemplos mais evidentes de línguas extintas pelo declínio e o fechamento das oportunidades de mercado que os espalharam são os pidgins, as línguas que são, à primeira vista, associadas a contatos
comerciais entre grupos anteriormente distantes. Uma vez que os pidgins são criações de oportunidades de mercados particulares, eles deixam de ser falados quando o mercado se move e as oportunidades já não existem, a menos que tenham dado o salto para se tornarem crioulos, adquirindo, então, falantes nativos próprios.
Em meio à infinidade de situações que podem levar uma LF à extinção, vale destacar a resignação – a renúncia de uma posição ocupada, com a submissão a novas forças sociolinguísticas. A renúncia geralmente ocorre através da reforma social, uma mudança na comunidade de fala que leva à destituição de uma elite dominante de algum tipo e com ela a língua franca que a marcou. O declínio linguístico não é o efeito direto de uma mudança econômica ou intervenção política, embora qualquer uma dessas forças desencadeie a transformação social que destitui uma LF. Outras forças também podem desencadear mudanças sociais significativas, como uma conquista militar, uma revolução técnica ou algo tão difuso na sociedade como a reforma protestante que dominou a Europa no século XVI. A característica comum essencial é que uma classe de sociedade simplesmente desaparece e, com ela, seu meio de comunicação distinto.
A despeito da reforma protestante, o latim permaneceu a língua da Igreja e da Academia ao longo do século XVIII na maior parte da Europa – uma única república literária para todo o continente. Enquanto o latim era a língua da Igreja e da Academia, no mesmo século, o alemão crescia, sendo amplamente utilizado como uma língua franca entre os diferentes governos da Europa Central. O início do século XIX foi precisamente o período do nacionalismo alemão. A proeza das universidades alemãs era tal que o alemão tornou-se rapidamente uma língua importante para estudiosos em universidades da Europa. Na década de 1930, o alemão perdeu a importância conquistada no meio intelectual e nunca se recuperou após a Segunda Guerra Mundial. Neste período, o alemão simplesmente deixou de ser candidato como meio de acesso à produção científica mundial. O fim de sua trajetória como LF pode ser explicada em termos de política global, especialmente por conta do aumento dos falantes de língua inglesa nos EUA, outro centro dominante de inovação nas ciências. Portanto, o declínio do alemão LF, no período específico, se deve a três causas. A primeira foi o resquício de sentimento anti-alemão que cresceu nos mundos ingleses e franceses (e especialmente nos EUA) na época da Primeira Guerra Mundial. A segunda causa foi a perseguição do governo nazista aos judeus, que foram incentivados a emigrar e a prosseguir suas carreiras acadêmicas em inglês. A terceira causa, que não garantiu o retorno à centralidade do alemão, foi o poder econômico esmagador dos EUA com sua língua inglesa, intensificado brutalmente após o fim da Segunda Guerra.
Após todos esses acontecimentos, a língua alemã tinha pouco a oferecer para a comunidade mundial de pesquisa, já que os próprios alemães aceitaram o inglês como a língua franca das ciências naturais. O alemão, para as ciências, é outro exemplo em que um conjunto social distinto foi dissolvido e, com ele, o uso de sua língua franca. De acordo com Ostler (2010, p. 209), “a sobrevivência de uma língua franca é sempre uma questão de confiança e ideologia” 20
. A nação alemã foi desacreditada devido aos acontecimentos políticos emanados do conflito mundial, o que repercutiu na aceitação da língua como um meio para todos, nativos ou não. Simultaneamente, os EUA cresciam, e junto com o país, crescia o interesse por falar a língua de um país detentor de tamanho poderio econômico, científico e militar. Em outras palavras, perdeu-se a confiança na língua alemã como a língua das ciências ou de qualquer outro tema, e abraçou-se a ideologia estadunidense da emancipação científica, econômica, política, tecnológica, entre outras.
Desta forma, como foi visto, o futuro de uma língua franca depende de muitas coisas, dentre elas, a(s) concorrência(s) que enfrenta. A capacidade de sobrevivência de uma LF não é a mesma coisa que a resistência militar, o capital acumulado do comércio ou mesmo a fidelidade religiosa. A vida e a morte de línguas francas não são autônomas, nem auto- determinadas. As línguas mais faladas nos dias de hoje são, principalmente, aquelas com maior população de língua materna. Esse contingente lhes garante um potencial como língua franca, mas como nenhuma delas é autônoma, sua vida em tal condição está condicionada a outros fatores.