A educação do campo é uma categoria que se destaca em sua particularidade justamente por possuir um projeto contra hegemônico e popular, sustentado pelos sujeitos sociais que a constitui. Sendo assim, uma prática social que se realiza pelos sujeitos em movimento, organizados, mobilizados e conscientes de que antes de tudo a educação é um direito.
O processo formativo que se dá no campo é direcionado as especificidades inerentes aos povos do campo1. A educação como direito é legalmente
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Entende-se por povos do campo os agricultores familiares, os extrativistas, os pescadores artesanais, os ribeirinhos, os assentados e acampados da reforma agrária, os trabalhadores assalariados rurais, os quilombolas, os caiçaras, os povos da floresta, os caboclos e outros que produzam suas condições materiais de existência a partir do trabalho no meio rural, conforme o Decreto do PRONERA nº7352/2010. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007- 2010/2010/decreto/d7352.htm Acesso em 30 out de 2014.
43 constituída desde 1988, mas de lá para cá, muitas legislações se voltaram para reforçar a necessidade desta modalidade educacional nos seus respectivos contextos sociais. Desse modo se compreende nas diretrizes voltadas para educação do campo que:
A educação do campo tratada como educação rural na legislação brasileira, tem um significado que incorpora os espaços da floresta, da pecuária, das minas e da agricultura, mas os ultrapassa ao acolher em si os espaços pesqueiros, caiçaras, ribeirinhos e extrativistas. O campo, nesse sentido, mais do que um perímetro não urbano, é um campo de possibilidades que dinamizam a ligação dos seres humanos com a própria produção das condições da existência social e com as realizações da sociedade humana (BRASIL, 2002).
Há uma diversidade social que deve ser considerada quando se retrata educação do campo, pois está voltada aos povos do campo, que são múltiplos, diversos e complexos. Não se deve ofertar qualquer processo educativo para os povos do campo, se antes não incorporar a diversidade multicultural existente aos sujeitos de direitos, bem como é evidente que há uma necessidade peculiar da educação do campo para os sujeitos, pois eles vivem uma relação íntima com a natureza. É desta relação que produzem a sua sobrevivência. Somente por isso é preciso ser incorporados e ao mesmo tempo trabalhados processos formativos que qualifiquem a vida dos sujeitos do campo, com seu modo de viver no campo,
respeitando assim relação homem-natureza que se estabelece cotidianamente. Para que assim, não seja necessário perguntar “estudar para quê?”
Pergunta que até hoje se faz muito no campo, e como consequência se tem mais crianças e jovens fora da escola. Devido a falta de sentido que se estabelece entre o que se ensina/aprende com o que se vive e se faz com a terra. É como se houvesse dois universos, a educação por obrigação e o trabalho por necessidade. Assim educação e trabalho não são tidos como elementos preponderantes e na primeira oportunidade que os jovens têm vão embora para as grandes cidades. Nesse sentido, Martins (2008, p. 34) menciona que:
A realidade camponesa do Brasil, campesina, rural, agrícola, é abordada de uma forma multifacetada e de diferentes concepções de mundo. Tradicionalmente, a relação entre educação e campo é tomada, ao menos nos textos legais, como educação rural e entende a realidade campesina a partir da oposição entre urbano
44 e rural. Nessa oposição, esse último é uma instância inferior da vida social, tida como atrasada, rudimentar. A relação educativa segue essa lógica, a escola rural, além de ser um apêndice da escola urbana, é uma versão simplificada dessa. A grande mensagem subliminar ou, às vezes, explícita, é que a educação deve levar os jovens que desejam prosperar para a cidade. Por isso, pensar o campo a partir da categoria educação do campo requer o entendimento deste enquanto lugar de vida, diferente da concepção implícita na educação rural.
Trabalhar teoricamente na perspectiva da formação humana é desmistificar a supervalorização que se dá à cidade, são premissas da educação do campo. As mudanças sociais, econômicas e políticas são perceptíveis nas áreas não urbanas, enquanto que as áreas urbanas apresentam muito mais desigualdades do que a do campo, a realidade é que a educação no campo não está voltada para o campo.
Pois os movimentos sociais estão de tal modo, organizados, que reivindicam os direitos como a educação ao Estado, o qual tem o dever de promover educação pública e de qualidade. A educação do campo vem sendo pensada, trabalhada e articulada pelos próprios sujeitos que a fazem conforme suas especificidades, peculiaridades e particularidades. Tendo em vista que a concepção de Educação do Campo propõe e defende uma escola no e do campo feita e vivenciada por sujeitos que nela vivem e trabalham; compreende o trabalho como produção da vida e não como ocupação ou emprego (CALDART, 2002). É uma relação muito mais significativa do processo de convivência dos sujeitos com o contexto do qual estão inseridos.
A concepção de educação do campo é ressignificada após um longo processo de luta, onde se deixa para trás a perspectiva da educação rural, por ter o caráter de lugar de atraso e educação como prestação de favor, o assistencialismo. Sendo assim, situa uma luta eminentemente política por meio dos movimentos sociais a favor do direito constitucional. Em razão disto:
A educação do campo é uma proposta que vem sendo materializada através da luta coletiva e o fazer educativo dos povos do campo na perspectiva da garantia de seus direitos, que tem relação direta com a concepção de Educação Popular forjada no processo de organização da classe subalterna. Tendo por fundamento a vivência coletiva no contexto da luta de classes e seu caráter formativo (VALDERIO, BORGES E SILVA, 2015, p. 2).
45 A educação do campo, de natureza escolar tende a viabilizar os processos de alteridades perante as desigualdades sociais, contestando a subalternidade, a subserviência e a inferioridade, estando em rede, em movimento e mobilização sempre no coletivo, a favor da fomentação do intelectual orgânico (ARROYO, 2005). É importante evidenciar que a história do Brasil é marcada por uma perversidade cruel, a qual trás consigo a negação do outro, com contribuição de caráter eurocêntrico, etnocêntrico e urbanocêntrico, perspectiva que permeou a diversidade no Brasil de tal forma que quem o habitava não era considerado gente. Para combater esta perversidade que em seu bojo ainda se tem resquícios de violação, segregação e desrespeito aos processos educativos necessários aos sujeitos do campo.
Desse modo, se faz pertinente nesta contemporaneidade reinventar as práticas pedagógicas para que dê conta das necessidades cognitivas dos povos do campo, pois se compreende e ao mesmo tempo se defende que o princípio da sustentabilidade, da qualificação profissional e da dignidade de vida, juntamente com a soberania alimentar é bem possível para os povos do campo, quando a educação que lhes é ofertada tenha um currículo bem definido com estas intencionalidades, até quando nada emergir de quebra de paradigma para o ensino do campo, valerá o que Arroyo (2002) aponta como escolinha das primeiras letras. Em sendo assim, acrescento também das últimas letras, pois muitos dos povos do campo não saíram para dar continuidade aos estudos no distrito da cidade ou até mesmo à cidade. Entretanto, é preciso consciência política dos educadores para que permeie a formação da educação básica ressignificando o contexto das aprendizagens inerentes aos saberes dos povos do campo, os quais possuem saberes significativos ao modelo de sociedade que se deseja e que evidentemente se busca ao menos isto é a luta incessante dos sujeitos dos movimentos sociais.
Os sujeitos dos movimentos sociais intervêm na legislação da educação do campo, a fim de ressignificar os processos educativos que devem ser perpassados pela prática pedagógica dos educadores que estão desempenhando sua função social nas escolas do campo. Os sujeitos do campo carecem de uma educação que valorize seu modo de vida, as estações do ano, para que a relação que é estabelecida entre os povos do campo e a terra seja respeitada e,
46 sobretudo vivida, com a produção da agricultura familiar, com a produção de animais de pequeno porte para o sustento da família. Os alimentos que estão e vão à mesa de toda a população parte desta relação dos povos do campo com a mãe natureza: a terra.