visibilidade e apagamento, norteou a investigação de Foucault, que estudou pequenos textos do século 16 e 17 tratando de:
Vidas que são como se não tivessem existido, vidas que não sobrevivem senão do choque com um poder que mais não quis que aniquilá-las, ou pelo menos apagá-las, vidas que a nós não tornaram a não ser pelo efeito de múltiplos acasos, tais são as infâmias que eu quis juntar aqui alguns restos. (FOUCAULT, 2009, p.102)
Os textos estudados por Foucault demonstram que, mesmo que de alguma forma o homem popular tenha sido escrito, esta escrita aparece permeada pelo interesse do poder intervir sobre ela.
Momento importante, aquele em que uma sociedade atribuiu palavras, maneirismos e grandes frases, rituais de linguagem, à massa anônima do povo, para que possa falar de si mesmo – falar publicamente e sob a tripla condição de esse discurso ser dirigido e posto a circular no interior de um dispositivo de poder bem definido, de fazer aparecer o fundo até então quase imperceptível das existências e de, a partir dessa guerra ínfima das paixões e dos interesses, dar ao poder a possibilidade de uma intervenção soberana. (FOUCAULT, 2009, p.123)
O interesse do poder sobre os textos das classes populares aparece de outra forma nos estudos de Lejeune. Ele afirma que o circuito oficial de publicações na França se apropriou da fala popular ocasionando o sucesso de depoimentos transcritos ou reescritos de camponeses e artesãos. O autor afirma ainda que essa apropriação contribuiu para o fracasso de autobiografias e depoimentos de autodidatas escritos desde o início de 1900.
3.2 DIÁRIOS DO SÉCULO 20
As autobiografias permaneceram apartadas dos grandes textos literários até o alvorecer do século 20. O ‘século das memórias’ se abre ao universo narrativo centrado na primeira pessoa. Apesar disso, ao colocar a escrita a serviço dos pequenos dias do ser humano, os gêneros confessionais foram relegados à sombra como literatura íntima menor, como é possível constatar na fala de Paul de Man:
Tornar a autobiografia um gênero literário é elevá-la acima do status literário de mera reportagem, crônica ou memórias e conceder-lhe um lugar, embora modesto, entre as hierarquias canônicas dos maiores gêneros literários. Isso não se dá sem algum embaraço e, uma vez comparada à tragédia, ou épica
ou poesia lírica, a autobiografia sempre parece pouco reputada e auto indulgente, sendo incompatível com a dignidade monumental dos valores estéticos. (apud CARLOS; ESTEVES, 2009, p.29)
O diário como autobiografia revela um além-texto, isto é veicula o que extrapola a questão intratextual e situa o sujeito a partir do contexto social vivenciado. Elizabeth W. Bruss em Autobiographical Atcs, livro publicado originalmente em 1976, critica o abuso classificatório dos críticos e defende que, além da natureza linguística, “aquilo que a autobiografia é depende em parte daquilo que ela não é, do modo geral ao qual se liga a outros tipos de atividades presentes no seu contexto de origem ou se diferencia delas” (BRUSS apud CARLOS e ESTEVES, 2009, p.13). Portanto, a partir de Bruss, entende-se que existe a necessidade imanente de se buscar o caráter sociocultural do diário, sua importância na constituição da subjetividade e da identidade do sujeito que escreve. Mais que isso, nesta pesquisa, busca-se compreender de que modo os elementos extratextuais se revelam nas escolhas formais empreendidas no texto.
A literatura registra inúmeros diários publicados. Entre os mais conhecidos, selecionamos quatro diários femininos em que o viés sociocultural da autobiografia pode ser abordado como uma marca identitária.
Entre os muitos diários que ganharam reconhecimento no século 20, o de Annelise Frank (1929-1944) se destaca. Ela começou a escrever regularmente em 14 de junho de 1942. Dos 13 aos 16 anos, manteve uma escrita ritual que revelou, além da sua experiência pessoal do Holocausto, a afetividade relacionada à manutenção de um diário. Ela escreve: "Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda". Em comentário acrescentado em 28 de setembro de 1942, ela confidencia:
Até agora você tem sido um grande apoio para mim, como também tem sido Kitty [amigo imaginário], para quem tenho escrito com regularidade. Esse modo de manter um diário é bem melhor, e agora mal posso esperar os momentos de escrever em você. Ah, estou tão feliz por ter você comigo! Um caderno de capa quadriculada em vermelho, laranja e cinza foi o melhor amigo de Anne. A ele a menina confidenciou pormenores da rotina de medo e preocupação com a fome e a morte. Segundo Lobo (2007), o estilo do diário muda quando, em março de 1944, Anne ouve no rádio um apelo de que os judeus guardem seus depoimentos para serem publicados após a guerra.
Publicados sob o título Diário de Anne Frank, os relatos se tornaram símbolo do sofrimento judeu durante o Holocausto. O diário foi traduzido em 55 idiomas. Hoje, existem páginas nas redes sociais que publicam diariamente trechos do livro e os internautas compartilham suas experiências de leitura da obra. Certamente, Anne Frank, apesar de sonhar ser escritora ou jornalista, jamais imaginou que suas memórias chegariam tão longe no tempo. Sairiam do papel para a virtualidade do Facebook9.
Em terras brasileiras, A Minha Vida de Menina merece destaque por apresentar um fim de século 19 marcado pelo declínio da mineração e o surgimento de ofícios que se situavam entre a escravidão e o regime salarial. O diário constrói um Brasil particular, a partir do cotidiano pitoresco de uma adolescente. Aconselhada pelo pai, aos 12 anos, Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, começa a escrever seu 'romance pessoal', vivido na província Diamantina, Minas Gerais.
Cada dia acho mais razão no conselho de meu pai de escrever no meu diário o que penso ou vejo acontecer. Ele me disse: Escreva o que se passar com você, sem precisar contar às suas amigas e guarde neste caderno para o futuro as suas recordações. Se eu não tivesse esse caderno poderia guardar na memória o caso tão engraçado que vi ontem? (MORLEY, 1998, p. 68)
O primeiro registro acontece numa quinta-feira, 5 de janeiro de 1893. Do início ao fim, a tônica bem-humorada é marcante. Escrito até 1895, o diário de Morley foi publicado no século 20, em 1942. A escrita despretensiosa e simples de A Minha Vida de Menina conquistou admiradores entre leigos e críticos.
Famoso, admirado e bem humorado. Entre as qualidades do diário de Morley, somente as duas primeiras se repetem na escrita da favelada Carolina Maria de Jesus. A dor, a fome e a pobreza não permitem o humor, mas abrem campo para uma linguagem-verdade, dura como a vida na favela.
Os diários escritos entre julho de 1955 e janeiro de 1960 ganharam notoriedade inicialmente em trechos publicados na Folha da Noite e na revista O Cruzeiro. Mais tarde, em agosto de 1960, aconteceu o lançamento do livro Quarto de Despejo: diário de uma favelada. Para além dos 'erros' e hipercorreções, a narrativa fragmentada e forte conquistou o mundo. Em 1982, Diário de Bitita, o segundo da autora, foi publicado originalmente na França sob o título Journal de Bitita. As
características da linguagem, mantidas no primeiro diário, foram editadas tornando o texto menos fragmentado e com 'erros' ocasionais.
Mais recentemente, o diário da ex-prostituta conhecida por Bruna Surfistinha colocou em xeque quem não acreditava que a vida infame (considerando-se a acepção conferida ao termo aqui neste estudo) não encontrasse público leitor ou não fosse lucrativa. Em 27 de abril de 2006, o jornalista Larry Rohter publicou no jornal The New York Times um artigo que é a síntese deste pensamento. O texto Aquela que Controla seu Corpo Pode Irritar seus Compatriotas aborda o impacto da obra no meio editorial e a popularidade alcançada pelo livro. A trajetória de Raquel Pacheco (nome real de Bruna) começou um ano antes da publicação de Larry Rohter. Ela se tornou uma celebridade primeiramente na internet com mais de 10 mil acessos na sua página pessoal. Depois do meio virtual, veio a publicação do livro Doce Veneno do Escorpião: O Diário de Uma Garota de Programa em que Bruna traz histórias que não entraram no blog. O sucesso na internet se repetiu também no livro, que atingiu 140 mil exemplares, somente em 2006.
Examinando a história dos diários femininos em território nacional, Luiza Lobo aponta que “a verdadeira diglossia existente entre norma culta e a fala popular e a dificuldade de acesso a uma boa educação de base explicam a quase inexistência de diários de mulheres publicados no Brasil” (LOBO, 2007, p.87). Contudo, os exemplos citados dão conta de que as autobiografias marginais estão na ordem do dia das editoras. No mundo todo, nas últimas décadas, os diários, as memórias e as autobiografias se tornaram, juntamente com os romances, "as leituras preferidas pelo público" (AGUIAR,1997, p.165). Assim, temos no século 21 um ambiente editorial mais aberto à literatura íntima e que, aos poucos, se abre para as autobiografias marginais.
Diante da complexidade do mundo, da política, da ciência e dos acontecimentos sociais, por que a vida íntima desperta tanto interesse? Talvez Souza indique uma resposta. Afinal, "a escrita do eu pode ser definida como uma forma de salvação do homem dos nossos dias em um mundo que já descrê de projetos de salvação coletiva" (SOUZA apud MACIEL, 2004, p.6).
Anne Frank mantinha um diário para combater o medo. Morley escrevia para registrar os dias de uma infância colorida em Diamantina. Carolina aspirava publicar um livro e ir morar numa casa de alvenaria. Bruna desejava expor sua queda. Com
motivações e condições diferentes de escrita, elas puderam colocar suas vidas em palavras. Seus dias, dores e alegrias, são lidos hoje, no impensado século 21.
3.3 À SOMBRA DO HOMEM
Para que seja possível compreender porque os blogs são importantes canais de subjetivação feminina na contemporaneidade, é indispensável abordar as matrizes socioculturais da condição marginal feminina.
A constituição da mulher como ente periférico na História é o ponto desencadeador de uma discussão que expõe marcas residuais do masculino, certamente sob rasura, mas (ainda) dominante. A compreensão da determinação do feminino a partir do masculino é um viés que não pretende promover uma ingênua inversão sexista, mas uma consciência conjuntural. Argumentamos que a condição de subjugação da mulher e o seu apagamento ou minorização no universo da escrita é produto de uma construção forte80mente marcada pelo agravante arbitrário do gênero mas que se ramifica (e se complica) quando associada a questões raciais, linguísticas e de classe. Importante entender que esta trama de exclusões, sustentada por muito tempo, começa a ruir com novos espaços de escrita que se abrem na imprensa feminina e na internet.
Os discursos históricos que secundarizaram a mulher a partir de uma oposição dura em relação ao homem podem ser encontrados nos estudos do historiador americano Thomas Laqueur (2001), que investigou a noção de divisão sexual como um constructo cultural. Na obra Inventando o Sexo, Laqueur versa sobre a hierarquização entre os sexos como uma construção a-histórica, constatação que nega a perspectiva naturalista ou biologizante da inferioridade feminina.
Para os gregos, havia um único sexo, o masculino. A mulher era a sua inversão imperfeita. Disso Laqueur constata que “em alguma época do século XVIII, o sexo que nós conhecemos foi inventado” (2001, p.189). O pesquisador afirma também que a ideia de que homens e mulheres são categorias sexuais diferentes é recente. A divisão social dos sexos nasce no berço iluminista do século 19 motivada muito mais por questões políticas do que por evidências científicas. As explicações reducionistas resultaram de uma conjunção histórica específica centrada nas divisões entre público e privado, certo e errado, normal e anormal, homens e mulheres.