PROFESSIONNELLE DES JEUNES (FIJ)
R EALISATIONS EN CHIFFRES Les 8 e Jeux en quelques chiffres :
7.1.1 INTEGRATION DES OBJECTIFS DU DEVELOPPEMENT DURABLE
A questão identitária é tão próxima com o tema moda que ambos se mesclam chegando ao ponto de não haver distinção sobre qual veio primeiro. Afinal, a representação do ser se conectou ao estilo de vestir-se há muito tempo, tornando a identidade atrelada diretamente a estética da moda. Além disso, a dicotomia de gêneros, sendo um fator de designação sobre quem se é na sociedade, também foi desde o início reforçada pelas vestimentas.
Já a conexão da moda com a arte e o espetáculo também não é algo novo. Contudo, é nos tempos atuais que essas áreas rompem suas fronteiras e aproximam-se como equivalentes, chegando às vitrines como obras de admiração e desejo. Mercadorias de um “capitalismo artista”, tal como Lipovetsky e Serroy (2005) denominaram essas imbricações entre produtos de consumo e arte em um momento histórico onde a geração de capital é ornada com o lúdico, o belo e o criativo.
Diana Crane (2006) defende que a moda é fundamental na construção social da identidade de um indivíduo, sendo ela uma das formas mais visíveis de consumo por ser bem aparente, quase parte do próprio corpo. Podemos considerar que expressamos quem somos em especial a partir do que vestimos. “A moda contribui para redefinir identidades sociais ao atribuir constantemente novos significados aos artefatos.” (CRANE, 2006, p. 43). A autora ainda exemplifica, citando Fred Davis (1992), que as roupas expressam ambivalências circundantes às identidades sociais, como “juventude versus idade, masculinidade versus feminilidade, androginia versus singularidade, trabalho versus diversão, conformismo versus rebeldia.”
A moda está muito além da redução ao vestuário, está ligada as mudanças sociais e transforma-se a partir de intervalos específicos de tempo e espaço, a moda está atada então ao que é novo. “Praticamente todos os teóricos da moda enfatizam “o novo” – com uma sucessão constante de objetos “novos” mas agora se tornaram “velhos” – como uma característica básica da moda.” (SVENDOSN, 2010, p. 27). Ela afeta, assim, vários campos da vida, a linguagem, o comportamento, a estética, o costume e até mesmo a ciência. (Svendson, 2010; Simmel, 1904; Lipovetsky, 2005).
Aderir a moda é passar a expressar algo do momento presente. Essas expressões se dão a partir de como o que está em voga desenha e conceitua, criando e reinventando estilos e significados a partir principalmente do vestuário; este por sua vez é exposto à compra e logo dialoga com cada público.
“O consumidor usa vários discursos para interpretar as ligações entre sua própria noção de identidade e a identidade social conferida pela condição de pertencer a vários grupos sociais que vestem roupas semelhantes.” (CRANE, 2006, p. 43). Essa construção identitária, a partir do que se aplica ao corpo, lembra ainda os escritos de Louro (2018):
A marcação pode ser simbólica ou física, pode ser indicada por uma aliança de ouro, por um véu, pela colocação de um piercing, por uma tatuagem, por uma musculação “trabalhada”, pela implantação de uma prótese… O que importa é que ela terá, além de efeitos simbólicos, expressão social e material. Ela poderá permitir que o sujeito seja reconhecido como pertencendo a determinada identidade; que seja incluído em
ou excluído de determinados espaços; que seja acolhido ou recusado por um grupo; que possa (ou não) usufruir de direitos; que possa (ou não) realizar determinadas funções ou ocupar determinados postos; que tenha deveres ou privilégios; que seja, em síntese aprovado, tolerado ou rejeitado (p. 77).
Essa identidade e significados construídos pela moda, são voláteis, pois ela “é, em primeiro lugar, um dispositivo social caracterizado por uma temporalidade particularmente breve, por reviravoltas mais ou menos fantasiosas, podendo, por isso, afetar esferas muito diversas da vida coletiva.” (LIPOVETSKY, p. 24, 1989). Nesta dimensão, a moda tem papel fundamental na representação do sujeito dentro do contexto social vigente. Ela gera a aparência e comunica a qual grupo se pertence, generaliza e unifica ao mesmo tempo. Na medida que encaixa o modo de vestir em uma categoria de estilo, classe, idade e gênero, jogando a pessoa em um grupo geral, também traduz a imaginada unicidade da pessoa, sua personalidade, preferências e desejos.
Isso já explica em parte a adesão da moda agênero para expor noções de identidades sem rótulos, pessoas livres e desprendidas de regras. Com o uso desse estilo de roupa há uma expressão sobre o que acredita, sobre quem é e sobre em qual grupo social está inserido. Expõe ao mundo seus princípios e reinvidicações.
O próprio da moda foi impor uma regra de conjunto e, simultaneamente, deixar lugar para a manifestação de um gosto pessoal: é preciso seguir a corrente e significar um gosto particular. Esse dispositivo que conjunta mimetismo e individualismo é reencontrado em diferentes níveis, em todas as esferas em que a moda se exerce, mas em parte alguma manifestou-se com tanto brilho quanto no vestuário, e isso porque o traje, o penteado, a maquiagem são os signos mais imediatamente espetaculares da afirmação do eu. Se a moda reina a esse ponto sobre o parecer, é porque ela é um meio privilegiado da expressão da unicidade das pessoas: tanto quanto um signo de condição, de classe e de país, a moda foi imediatamente um instrumento de inscrição da diferença e da liberdade individuais, ainda que a um nível “superficial” e no mais das vezes de maneira tênue. (LIPOVETSKY, p. 45, 1989)
Não caberá aqui, e tampouco é o intuito, fazer um apanhado de todo o histórico da moda desde quando começou a se tornar relevante no início do século XIX. Porém, alguns fatos quanto às suas transformações são válidos de exposição para compreendermos especificamente como chegamos ao boom da moda agênero.
As bases da moda começaram na França com participação da Inglaterra e dos EUA a partir do século XIX. Antes disso, as roupas eram utilizadas de modo uniforme, atreladas mais a utilidade de proteção do frio e ao pudor do que a formatações sociais e de gênero. “Afirma- se em geral que a moda no vestuário teve suas origens no fim do período medieval, possivelmente no início do Renascimento, talvez em conexão com a expansão do capitalismo mercantil.” (SVENDSON, 2010, p. 22). Algumas simbologias de poder atreladas aos adereços no corpo podem ser identificadas antes da era da moda, como o uso de chifres e pinturas por
tribos pré-históricas para representar hierarquias, mas isso não chega a ser moda da forma como é tratada neste trabalho.
Com o advento da moda, as indumentárias foram se desenvolvendo a partir dos papéis ditos como masculino e feminino. Antes mesmo de expressar qualquer caráter de identidade, a função principal era distinguir gêneros. Mulheres passaram a usar roupas como enfeites e apelo à sedução, chegando a ser vestimentas bastante desconfortáveis, uma vez que o machismo já imperava e as mulheres eram vistas como o troféu do homem. Já os homens usavam praticamente os mesmos trajes, cores neutras e peças confortáveis. Só passaram a usar estampas ou cores na década de 1990. Além disso, antes do século XIX, de modo geral “as pessoas não possuíam mais que um conjunto de roupas. Isso mudou enormemente com a expansão da produção em massa, que tornou mais roupas facilmente acessíveis a mais pessoas.” (SVENDSON, 2010, p. 41).
No infográfico abaixo, é possível observar fatores de impacto na transformação da percepção social sobre como se vestir, quebrando em paralelo tabus de papéis sociais e de gênero. Vale lembrar que esses marcos foram frutos especialmente das transformações impulsionadas por movimentos feministas e por tendências artísticas do cinema e da música.
Gráfico 4 - Principais transformações de quebra de estigmas de gênero no vestuário
Fonte: Elaborado pela autora com base em dados de Crane (2006).
As roupas eram utilizadas como forma de controle social, e ainda o são, tendo em vista que ainda são fatores determinantes para classificar e rotular os sujeitos. As peças femininas da era vitoriana eram desconfortáveis propositalmente, para a mulher ter limitação
de movimentos, não praticar esportes e não participar da vida fora do ambiente doméstico. (CRANE, 2006). Com o avanço da história, a mescla dos guarda-roupas feminino e masculino, onde um se apropriava de algum elemento do outro, foram acontecendo por motivos distintos, o homem afeminava-se por estilo, a mulher masculinizava-se em busca de liberdade. “Sabe-se que ao contrário dos homens, que apropriavam-se de elementos ditos como femininos por pura vaidade, as mulheres usaram símbolos masculinos como forma de ocupar espaços até então reservados apenas aos homens.” (SCHNEID E BARRETO, 2017, p. 4)
Apesar de hoje ainda ter os tabus de gênero, raça e classe social atrelados nas indumentárias, há maior flexibilidade no vestuário. “A variedade de opção de estilos de vida disponíveis na sociedade contemporânea liberta o indivíduo da tradição e lhe permite fazer escolhas que criem uma auto-identidade significativa.” (CRANE, 2006, p. 37).
Com isso, surge uma infinidade de opções e significados nas roupas. Homens e mulheres mesclam os guarda-roupas com mais facilidade, assim como surge a opção de roupa com neutralidade de gênero. Inclusive, a quantidade de peças adquirida por cada pessoa aumenta progressivamente devido a disseminação da ideia de que você pode ser uma pessoa diferente a cada dia, do estímulo para consumo, agilidade da transformação do que é moda em antiquado, estímulo a usar novidades todo o tempo e as tentações diversas nas vitrines reais e virtuais. Múltiplos modelos de sapatos, roupas e acessórios compõem a coleção de vestuário do sujeito contemporâneo que varia suas combinações a cada dia e a cada ocasião.
A configuração do eu então se forma a partir dos bens de consumo, neste caso específico estamos falando do segmento de vestuário. Crane (2006) relata que as mercadorias produzem identidade pré-fabricadas. Sendo assim, “pessoas de todas as classes sociais consomem cultura material para salientar sua identificação com grupos específicos, mas não com a sociedade como um todo.” (CRANE, 2006, p. 44). Há uma busca de se inserir em nichos os quais se identifica, a fim de fortalecer o eu e pertencer a uma dada ordem ideológica.
Interessante também observar a temporalidade da moda, e consequentemente a temporalidade da identidade das pessoas que cambiam junto com as novidades do mercado. Cria-se um estilo contemporâneo e logo este é varrido por outro, sendo então a moda um exemplo típico do mercado que clama pela continuidade do movimento cíclico de compra e descarte. Agamben (2010) sugere que a moda possui uma temporalidade antecipada, ela busca trazer o que seria do futuro. Ao mesmo momento que traz a novidade já a torna velha a medida que o presentifica.
A moda é um bom exemplo desta especial experiência do tempo a que chamamos a contemporaneidade. O que define a moda é o facto de ela introduzir no tempo uma descontinuidade peculiar, que o divide segundo a sua actualidade ou inactualidade, o seu ser ou o seu não-ser-já-na moda (na moda e não simplesmente de moda, que se refere apenas as coisas). [...] O tempo da moda é, deste modo, constitutivamente um tempo que se antecipa a si próprio e, precisamente por isso, está também sempre atrasado, tem sempre a forma de um limiar incaptável entre um << ainda não >> e um << já não >>. (AGAMBEN, 2010, p. 25).
Com a chegada dos anos 2000 e após muitas revoluções e quebras de tabus nas vestimentas, como foi apresentado alguns no resumo do infográfico. Chegou junto com o novo século uma atenção maior nas questões sobre os conceitos androgia e unissex. (SCHNEID E BARRETO, 2017). Isso implica o mercado moldar-se para atender e criar uma maior diversidade de desejos de consumo.
A liberdade de não pertencer a nada específico e rotulado, junto com o desejo de exercitar as vontades pessoais sem compromisso com imposições sociais, criou um novo grupo de pessoas que tem como única preocupação ser fiel às suas próprias ideias. Entre as muitas ações desde grupo, uma das mais discutidas é a roupa. (SCHNEID E BARRETO, 2017, p. 10).
Em uma pesquisa realizada por Isabel Wittmann (2019) com o objetivo de compreender como pessoas que se titulam com identidade transgênero se relacionam com a moda, revelando o quanto as vestimentas possuem uma ligação entre quem se é para os sujeitos. Na maioria das falas coletadas pela pesquisadora há relatos sobre a importância da aparência para sentir o seu eu assim como demonstrar para os que estão em volta. Em suas observações sobre alguns entrevistados disserta que eles “marcam, portanto, a maneira codificada como a moda é utilizada, negociando o espaço do reconhecimento e da reafirmação de estereótipo.” (p. 80). Ao longo do trabalho expõe algumas das falas e sempre conclui relacionando o que foi dito com as teorias sobre gênero e moda. “Sara, programadora de 40 anos que se define como crossdresser, ao ser perguntada sobre sentimentos que nutre em relação à moda, fala de um eu interior que pode se expressar quando está montada.” (p. 81). A partir daí explana estudos de autores que já explicavam as sensações descritas pelos inqueridos. “Essa harmonia, segundo sua fala, faz parte desse sentido de externar quem se é de verdade, expressado por Miller (2013), alinhando o sentimento subjetivo que tem ao seu próprio respeito com a aparência que passa a apresentar. (p. 81).
A principal lição da pesquisa de Wittmann é que não há um pensamento único e homogêneo quanto as relações de transgêneros com a moda, são sensações múltiplas e variam de um para outro. Porém, há um ponto em comum a todos: “a formação da subjetividade perpassa a relação entre corpo, performatividade, identidade de gênero e moda.” (2019, p.88). A moda agênero é uma das opções para performar aquilo que se identifica como ser.
A função da moda, portanto, como reforço da construção identitária do sujeito, cria tanto modelos prontos para serem aderidos quanto possibilita novas criações, ainda que sejam apenas rearranjos do que já está em voga. O estilo queer, especificamente o sem gênero, aparece como solução apara aqueles que já não se identificavam com os vestuários vigentes.
O efeito dessa moda, em sua difusão, será muito provavelmente o de promover e intensificar o processo de gentrificação do queer – pois esse é o movimento e o efeito do mercado do qual a indústria de Moda participa. Por outro lado, a materialização, na criação de Moda, da problematização da normatividade de gênero operada pelos questionamentos queer não deixa de constituir também uma certa tentativa de encenar e transfigurar (poetizar) essas demandas na oferta de novas possibilidades de performatização dos gêneros. O mais importante aqui talvez seja poder levar em conta em que medida os resultados concretos dessa transposição prestam-se, ou não, a uma nova produção de formas identitárias – o que se traduz, em termos de consumo, em novas segmentações mercadológicas. Ou, em contrapartida, em que medida essas experimentações abrem novas possibilidades, para cada um, de produzir as suas próprias formas de ser e de estar no mundo. (PORTINARI, COUTINHO, OLIVEIRA, 2018, p. 154).
Fica em xeque o quanto que a moda liberta e poda o indivíduo, pois não é possível reduzir a complexidade da identidade ao que se veste, assim como não podemos negar a expressividade possibilitada pelo estilo ofertado nas roupas. Porém, sabe-se a partir do levantamento sobre a moda o quão sua transformação está ligada com os aspectos sociais e as conquistas a partir das lutas em especial feministas e LGBTQIA+, pois foram esses movimentos que mais movimentaram o campo da moda.
A identidade dos sujeitos e a moda, portanto, conversam e transformam-se continuamente. Antes, as mulheres eram sufocadas com vestimentas (como na época vitoriana) que restringiam sua liberdade física e emocional para que não se movimentassem e fossem apenas apêndices adornados dos homens. Em seguida, com as transformações feministas elas passaram a conquistar o direito de sair mais livremente nas ruas, conquistando desde simples ações como andar de bicicleta (a partir do uso da calça) até trabalhar em ocupações anteoriormente masculinizadas.
Já saltando para os dias atuais, vemos a possibilidade de quebrar as discriminações por diferenciação de gênero se manifestando, nem que seja começando apenas pela vestimenta. É possível então vislumbrar a moda, a sociedade e a identidade criando uma nova conjuntura a partir da concepção do agênero.