Na trajetória de Marcelo, os vínculos afetivos foram apreendidos durante todo o período de convivência no GAMA e mesmo após a sua saída da instituição. A larista Nice é uma das pessoas com as quais Marcelo parece ter estabelecido um vínculo permanente. Durante a pesquisa, Nice foi escolhida por Marcelo como uma pessoa de referência em sua vida, alguém que poderia falar sobre a sua trajetória por ter feito parte dela.
“Pessoas que deram a vida como tia Nice, que deram a vida, chegou jovem lá, deu anos da sua juventude para me criar, para quebrar a cabeça comigo, então pessoas assim eu mantenho um relacionamento rico” (MARCELO).
“É como uma família minha, é como um filho eu vejo ele” (NICE sobre Marcelo).
Outro laço emocional duradouro foi percebido entre Marcelo e Nelson, cuja relação de respeito e afeto foi preservada na atualidade, e fortalecida nos encontros aos finais de semana no GAMA. O papel simbólico de autoridade e afeto desempenhado por Nelson no GAMA parecia permeado por valores e princípios (como valorização dos estudos, do trabalho, da religião) envolvidos nos comportamentos e projetos de vida de Marcelo. Nelson aparecia na narrativa de Marcelo como uma referência presente em suas escolhas profissionais e nos principais momentos de sua vida pessoal, como o casamento.
(...) Nelson que é uma figura central no GAMA, ele não deixa de ser a figura do pai (Marcelo).
E uma das coisas que mais marcava a mim era que Nelson não gostava de vestir terno, não gostava de casamento e aí eu convidei ele pra ser meu padrinho e ele foi. A presença dele, a pessoa dele pra mim é muito marcante (...) (Marcelo).
Em relação aos vínculos com os pares, Marcelo manteve muitas amizades da época do GAMA, inclusive com uma das participantes dessa pesquisa – Joana – apresentada por ele como uma referência ainda presente em sua vida. As amizades simbolizavam relações fraternas construídas no contexto institucional, e principalmente um elo entre Marcelo e sua história no GAMA.
“Joana foi uma que me pegava nos braços, ela cuidou de mim e hoje ela conta pra minha esposa o que eu fazia na hora de comer (...) E eu acho isso muito bom porque hoje eu tenho como irmãs, como amigas que cuidaram de mim e de certa forma eu fico sabendo um pouco da minha história, da minha vida” (MARCELO).
“Tenho muitos amigos, quando eu entro na internet, no Orkut, MSN, pessoas de outros estados que iam pra congressos aqui e me encontravam, eu sei que são pessoas que ficaram muito amigos meus por saberem da minha história, eu não gosto muito disso, mas pessoas que ficaram amigos meus a partir do que sou hoje tenho muitas também” (MARCELO).
Dentre os vínculos permanentes estabelecidos após a saída do GAMA, o casamento simbolizava uma união afetiva importante na vida de Marcelo, na construção de novos ideais e perspectivas sobre a vida familiar. Para Marcelo, esse laço emocional parecia associado à oportunidades de crescimento pessoal, superação de traumas e vivências conflitivas em relação à (ausência da) família.
“Hoje o casamento da gente é uma benção, tem hora que a gente em casa a gente ri a toa, porque a gente sabe que o que a gente passou serviu de experiência, de crescimento tanto pra mim quanto pra ela” (MARCELO).
Mudando o foco das pessoas para as instituições, Marcelo parecia vinculado à igreja desde a infância até a idade adulta, um vínculo institucional duradouro implicado na sua formação e atuação como líder religioso (pastor).
“E algo que me deixa bastante feliz é porque eu sou o primeiro menino do orfanato a fazer um curso de teologia e a se tornar pastor. E um dia eu tava
pensando nisso, uma entidade que é evangélica e apenas na história da sua entidade, uma pessoa se tornar pastor. E eu penso assim, Deus me escolheu no meio de tanta gente” (MARCELO).
“Uma coisa foi positiva ele voltava sempre, sempre no domingo ele estava por lá, sempre participava dos eventos da igreja, do grupo de música” (DIRETOR).
A partir da vinculação permanente entre Marcelo e as instituições – GAMA e igreja – essas pareciam propiciar condições afetivas (estabilidade e relações interpessoais e de familiaridade, por exemplo) e sociais (matrizes identificatórias, representações simbólicas, entre outras) relevantes para o seu desenvolvimento psicossocial saudável. Afinal, os vínculos podem ser estabelecidos não só com pessoas, mas inclusive com instituições, conforme propõem Carvalho et al (2006), ampliando a concepção sobre vínculos. Assim, a vinculação de Marcelo com o GAMA ultrapassaria as relações com as pessoas que a integram, contemplando a sua rede simbólica constituída pela sua história, dinâmica organizacional, cultura, dimensão imaginária, valores, normas, enfim, sua identidade e funções sociais estáveis.
Nessas circunstancias, Marcelo retornou ao Instituto GAMA que como qualquer outro contexto de convivência é perpassado por conflitos, decepções, perdas, mas principalmente pelo compromisso mútuo entre seus integrantes, pela cumplicidade, afeto e possibilidade de ser requisitada sempre que necessário em busca de apoio, como foi na vida de Marcelo.
“E graças a Deus com ajuda de muitas pessoas eu voltei a ser mais próximo do GAMA, das pessoas, passei a ir lá mais vezes, me espelhar em histórias de pessoas que venceram na vida. Tem famílias que saíram de lá,
e graças a Deus hoje eu consegui vencer boa parte assim da minha dificuldade, das minhas feridas” (MARCELO).