Dos 50 respondentes dos questionários, 35 são professores vinculados a IES públicas (federais e estaduais - 24 e 11 docentes, respectivamente) e 15 a IES privadas. Em termos geográficos eles são provenientes das cinco grandes regiões geográficas brasileiras, na seguinte proporção: Sudeste (22 pessoas; 44%), Nordeste (15 pessoas; 30%), Sul (8pessoas; 16%), Centro-Oeste (4 pessoas; 8%), Norte (1 pessoa, 2%). A grande maioria destes respondentes (72%) têm mais de 10 anos de experiência na docência. Já em relação ao trabalho com HS, 50% dos respondentes o fazem a mais de 10 anos (Figura 27).
Figura 27 – Tempo de docência X tempo de trabalho com HS
Fonte: Respostas fornecidas aos questionários desta pesquisa
Ao investigar-se seu tipo de inserção na área, foram encontrados tanto casos em que a atuação no ensino os levou ao trabalho com HS, quanto professores com menor tempo de sala de aula, mas que já trabalhavam com HS antes e levaram essa experiência prévia para a docência. Nas entrevistas isso ficou mais claro, como no caso de um docente de IES privada de João Pessoa que, iniciou seu interesse pelo tema ainda na graduação e
depois atuou na Secretaria de Planejamento de João Pessoa, na área de habitação social e, posteriormente, ingressou na docência. Ele relatou que sempre se interessou por habitação social, seja construções novas, seja intervenções em comunidades carentes pré- existentes, que trabalhar com isso na gestão municipal ampliou seu repertório, inclusive influenciando sua pesquisa de mestrado.
Em complementação a essa informação, a fim de compreender tanto a relação dos docentes com o tema, quanto a influência de fatores como sua formação e atuação profissional nessa motivação, foram averiguados os motivos que os levaram a trabalharem com HS. A maioria deles (24%) indicou a influência da própria carreira docente, ao serem designados a ministrar disciplinas que tinham HS como tema condutor do projeto ou ao substituir um professor que trabalhava com a temática. Em segundo lugar foi mencionada a iniciação no tema através da pesquisa de mestrado ou doutorado (21%), ou ainda, como membros de grupos de pesquisa. Não é surpresa, portanto, que as duas palavras com maior ocorrência nas respostas, segundo a análise textual do Iramuteq, sejam justamente disciplina (aqui entendida como sinônimo de componente curricular) e pesquisa.
Além disso, verifica-se que 19% dos professores iniciaram seu trabalho com HS como arquitetos projetistas, autônomos ou servidores de órgãos públicos (como secretarias ou empresas municipais de habitação), experiência que posteriormente foi trazida para as salas de aula. Três pessoas ainda destacaram experiência em trabalhos ou cooperações para entidades internacionais20. Neste grupo, a análise estatística textual destacou a repetição do uso da expressão “experiência profissional” e a variação “prática profissional” para descrever a atuação profissional fora do meio acadêmico.
Nove professores (14%) responderam que seu interesse pelo tema iniciou ainda durante a graduação (através de disciplinas, iniciação científica ou trabalho final de graduação). Enquanto, seis professores disseram ter começado a trabalhar com o tema por iniciativa/interesse pessoal. Estes professores, ao serem questionados “como começou a trabalhar com o tema da HS?”, apresentaram respostas que ilustram a sensibilidade desses professores com relação à necessidade de se trabalhar a temática nos cursos ao qual estão vinculados:
Por ser pouco abordada no curso [Q33, IES privada, SE];
Em função da experiência profissional e pela necessidade da temática no curso [Q58, IES privada, SE];
A disciplina que leciono é ‘Projeto Integrado de Arquitetura Urbanismo e Paisagismo’, não é obrigatório trabalhar com HIS, mas utilizo como tema a luta por moradia e ocupações urbanas e o trabalho final é um projeto de HIS [Q38, IES federal, SE].
Um dos entrevistados relatou que a introdução do tema de Habitação Social em uma disciplina de projetos foi iniciativa própria em conjunto com outro docente, em uma época em que esse tema ainda era pouco frequente nos cursos de Arquitetura.
Na Universidade Católica eu levei essa disciplina. Foi criada por mim e outro professor, casualmente uruguaio, porque tinha uma carga muito forte da habitação no Uruguai, por cooperativas. Então achamos que deveríamos montar essa disciplina e se implementou como disciplina curricular [E4, IES privada, S].
Há casos em que o interesse se iniciou durante a graduação, mas partiu do próprio indivíduo, como uma das professoras entrevistadas [E3, IES federal, S] que comentou que sempre teve interesse pelo tema, porém, na época em que cursou a graduação, na USP (década de 1970), o tema da habitação social ainda era pouco trabalhado dentro do curso de Arquitetura e Urbanismo. Estava começando a haver algumas discussões, em função da produção do BNH, mas ainda em pequena escala. No entanto, ela soube que na Escola de Engenharia da USP, já havia trabalhos sobre racionalização da construção – por serem constantemente procurados para dar soluções técnicas para as questões de construção em massa, acabaram desenvolvendo estudos sobre o assunto. Desta forma, por sua iniciativa, procurou se aproximar dessas discussões e se tornou bolsista da Escola de Engenharia, trabalhando lá por um ano em um tema que não era diretamente ligado à habitação, que eram os centros sociais urbanos. Isso acabou a levando a desenvolver um desses centros em seu trabalho final de curso, que foi efetivamente construído, lhe proporcionando uma experiência muito rica sobre o tema da pré-fabricação. A professora fez mestrado na área de Planejamento Urbano (pois não havia mestrado em Arquitetura) trabalhando habitação através do tema da terra urbana. Em seu doutorado, já em Arquitetura, optou por estudar o que tinha acontecido com os grandes conjuntos habitacionais da época em que se formou, analisando-os através da ótica da Avaliação Pós-Ocupação (APO).
Nos questionários, três pessoas disseram que o trabalho com HS iniciou com a realização de trabalhos voluntários junto à movimentos sociais, comunidades de baixa
renda e pastorais. Duas, através da atuação em trabalhos de assistência técnica (duas dessas incluídas no grupo que mencionou trabalho voluntário) e outras duas, através de projetos de extensão. Apenas um dos respondentes disse ter começado a trabalhar com o projeto de HS durante seu período de estágio.
A nuvem de palavras da Figura 28 ilustra graficamente os resultados encontrados, com destaque para as duas palavras com maior ocorrência: disciplina (no sentido de componente curricular) e pesquisa.
Figura 28 – Nuvem de palavras: como os docentes começaram a trabalhar com a HS
FONTE: gerado pelo software Iramuteq a partir dos dados coletados
6.2 O ENSINO DE HABITAÇÃO SOCIAL AVALIADO PELOS DOCENTE