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Segundo o Humbono Carlos Bottas, o vodum escolhe a equede para ser sua “mãe”. No momento em que o vodum escolhe uma pessoa para ser equede, ele está determinando que aquela mulher suspensa seja mãe dele, de seus filhos e do terreiro, existindo um respeito do sacerdote e de todos os filhos da casa para com ela. Segundo Lima, a equede é:

Uma mulher consagrada ao serviço dos santos, iniciada para esse mister, por meio de ritos de purificação e de confirmações, mas que não recebe o orixá. Isto é, a equede não é feita-de-santo, tem o seu santo assentado [...] É uma espécie de pajem do orixá, e guardiã da segurança física e do conforto da filha-de-santo cujo orixá a escolheu como protetora (LIMA, 1977:86-87).

Diferente da conceituação de Vivaldo da Costa Lima, que afirma que as equedes não são feitas-de-santo, nas comunidades Oba Koso e Karê Lewi afirma-se serem elas feitas-de-santo e não apenas confirmadas. Durante o processo de iniciação, as equedes destas roças passam por processos similares aos dos rodantes. Seu recolhimento oscila entre dezesseis e vinte e um dias, rezas e cânticos são entoados e, ao nascer e ao pôr-do- sol, elas devem tomar seus banhos rituais. Não fazem, entretanto, uso de kelê e não existem “puxadas” ou saídas de apresentação. Ademais, apesar de ser um costume da comunidade Savalu, as equedes passam por um processo similar aos rodantes ou

adoxus, pois as mesmas participam da iniciação de outras equedes, de ogãs e de iaôs,

Fig. 18 – Equede Derivalda de Ogum. Foto: Eduardo Vega/ Oba Koso, Simões Filho, 02 de Fevereiro de 2013.

À equede é proibido o uso de trajes completos durante as cerimônias públicas, isto é, não se vestem de baianas. Usam uma roupa civil, obrigando-se a usar saias compridas ou vestidos, e, ao lado de sua mão, uma toalha para usar com o vodum. Nos dizeres da Ialaxé Rosa, “uma equede sem sua toalha, é uma equede sem seu principal instrumento de trabalho”, pois a toalha representa o seu poder, servindo para despachar os voduns, funcionando como um alá. Nessas roças, a equede participa da roda nos rituais públicos, estando à frente dos rodantes, ainda que sejam mais novos que ela. Devido à autoridade que lhe é constituída na posição de mãe, ela pode intervir na ação do vodum, inclusive o chamando para dirimir algumas situações do cotidiano, funcionando como uma espécie de interlocutora do vodum, ao transmitir recados para o iniciado ou para a comunidade.

Entre suas diversas funções, podemos destacar as seguintes: despachar os voduns, ou seja, liberar o rodante de seu estado de transe (iniciado ou não-iniciado); ela é responsável pelo ossé, principalmente quando é do vodum ao qual foi confirmada; cuida dos apetrechos e indumentárias do voduns, em alguns casos dos sacerdotes; ornamenta as casas dos voduns; prepara os tecidos necessários para processos rituais, como bori, feitura; ela cuida do noviço recolhido no hundeme; assessora os adeptos em suas necessidades, bem como distribuem comidas rituais.

Fig. 19 – Equedes distribuindo o ipeté no ritual para Oxum. Foto: Arquivo pessoal do Oba Koso, Simões Filho, Janeiro de 2010.

A Equede Sônia de Oxum foi iniciada pelo Humbono Carlos Bottas e pela Ialaxé Rosa Moreno, já num estágio avançado da estruturação hierárquica da casa, em 18 de março de 2006. Começou seu aprendizado no hundeme, pois, quando recolhida com o Humbono Neto, recebeu dele boa parte da “educação de axé”, algo tão importante na vida de qualquer adepto da comunidade. No processo ritual de sua feitura, o Pejigan Nelson de Bessén foi o responsável pelo sacrifício dos animais, constituindo assim, o primeiro adepto iniciado pelo pejigan do Oba Koso, e não mais, como anteriormente, por pejigans de outras comunidades.

Nas comunidades do Oba Koso e Karê Lewi, as equedes também podem ser escolhidas pelo representante sacerdotal máximo do terreiro para receberem títulos hierárquicos que venham a lhes constituir mais autoridade e poder no terreiro, no caso, o título de ialaxé, como já vimos no caso de Rosa Moreno. Mas, antes de voltar sobre esse tema, e para finalizar nossa análise dos cargos femininos precisamos mencionar a dagã, responsável por um dos espaços mais importantes do terreiro: a cozinha.

No Obá Koso o título de dagã é outorgado preferencialmente a uma filha de Oxum, responsável pelo preparo das comidas rituais. Foi apontada pela Oxum do Humbono Neto, a dagã Cristiane de Oxum, em 24 de Julho de 2010. Sua suspensão ocorreu, assim, no que convencionamos chamar o terceiro estágio de estruturação hierárquica da comunidade, quando Neto já tinha recebido o decápor parte do Humbono Carlos Bottas e virado sacerdote do Oba Koso. Entretanto, ela ainda não foi iniciada. Ela está passando por um processo de aprendizado, recebendo um ensino meticuloso sobre os segredos da cozinha do santo, tendo como sua responsável a Deré Rozimar.

Fig. 20 – Dagã suspensa Cristiane de Oxum. Foto: Eduardo Vega/ Terreiro Oba Koso, Simões Filho, 02 de Fevereiro de 2013.

Essa atividade de cozinha costuma ser desempenhada por uma figura feminina, por uma pessoa que não entra em transe, ou seja, não rodante. O poder envolto nessa função é dos mais importantes dentro do terreiro, pois a comida representa uma obrigação, um sacrifício, um pedido de proteção e uma benção. Segundo Lody, a cozinha tem um amplo significado, pois

O candomblé é, sem dúvida, o reduto de grande significado para a sobrevivência da cozinha dos orixás, onde as atitudes rituais e maneira de preparar os alimentos estão repletas de sentidos religiosos, significados sociais, sendo de alta importância para a boa realização da comida (LODY, 1977:38).

No Oba Koso, existem duas cozinhas. Uma conhecida como cozinha do santo e outra chamada apenas de cozinha. Apenas as mulheres circulam pela cozinha do santo que é um espaço sagrado, um local de trocas de saberes e experiências. Entre suas paredes, as pessoas cantam, dançam, fazem fuxicos, loroguns18 e, por fim, aprendem alguns segredos. Como diz Lody:

Por tradição, o homem não deve entrar ou permanecer na cozinha sagrada. As mulheres que nela trabalham deverão ser iniciadas para os mistérios e segredos das porções, receitas e atitudes rituais que irão variar de prato. As cozinheiras dos deuses devem atuar no espaço sagrado de suas cozinhas como se estivessem no interior dos santuários e os alimentos que não pertencerem ao cardápio ritual não poderão permanecer nesses locais, devendo ocupar cozinha própria (LODY, 1977:41).

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No terreiro Oba Koso, na ausência de uma pessoa confirmada, Deré Rozimar era quem sempre assumia a direção na cozinha e, de maneira informal, essas atividades e responsabilidades acabaram por se confundir com o seu cargo. No Karê Lewi, também não existe uma pessoa confirmada para o cargo de dagã. Entretanto, a Iá Efun Raimunda de Logun-Edé assume as atividades da comida dos voduns.

Contudo, a suposta necessidade da comunidade Oba Koso de ter uma pessoa iniciada com o cargo de dagã para tomar conta da cozinha nos momentos rituais, e a subsequente suspensão de Cristiane para esse cargo, são indicativos da tentativa da comunidade de reproduzir o modelo hierárquico das casas “tradicionais”, com uma proliferação de títulos e postos. Aliás, essa é uma dinâmica característica daquelas instituições que sofrem um processo de centralização política ou de poder, como parece ser o caso em apreço.

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