PART 7 - RESULTING CONTRACT CLAUSES
7.12 INSURANCE
expulsava tudo que via ser ameaça. Não media palavras, corria com os
oc
espertos comerciantes como se fossem bandidos ” .
A concorrência pela manipulação do monopólio do sagrado ocorre também em relação a outras religiões, ameaça constante a predominância católica. A população de Toledo desde a época da colonização, é predominantemente católica, como foi apontado acima, seguida pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - IECLB. A relação, pelo que consta nas fontes, sempre foi tolerável, havendo cultos ecumênicos e sobretudo boa relação de parte da direção da empresa composta majoritariamente por protestantes - como Willy Barth, Egon Percht, Julio Bastian entre outros-, cuja relação transcende a mera convivência para uma ajuda mútua na manutenção destes bens simbólicos. Esses fatos, entretanto, não encobrem uma luta, quando não velada, claramente assumida pelo padre na disputa pela manipulação dos bens do sagrado.
É nesse contexto que o padre Patuy persuade os católicos à não participarem da vida social quando promovida pelos evangélicos luteranos. Fato curioso ocorre no segundo semestre de 1952, quando a diretoria da IECLB promove vima festa a fim de arrecadar fundos para construção da igreja na cidade de Toledo. O convite se estende para a comunidade toda e prometia bons dividendos. Sabendo da promoção, padre Patuy, no domingo que antecede a festa, comunicou que nenhum católico devia “ir a festa dos protestantes, porque, aquilo aí era uma igreja do diabo ”86. A atitude não agradou os líderes da igreja evangélica que viram na posição do padre uma ameaça contra a crença, e um risco para o sucesso financeiro da festa.
Willy Barth - diretor da empresa desde 1949 até 1962 - ausentava-se da cidade naqueles dias e o escritório da Maripá estava sob os cuidados do também evangélico Ondy Niederauer que logo na segunda-feira, toma uma providência. Manda chamar o padre e pede- lhe vima explicação cabível do comentário feito na missa do dia anterior. O padre “desculpou- se alegando mal entendido, mas, alega o padre, devo falar com energia com nossos fiéis senão ficam debandando de um lado para outro Não convencido da explicação, o contador apresenta outros motivos que induzem o padre a tomar uma posição favorável e garantir o sucesso da festa. Assim o entrevistado comenta, como num diálogo, a conversa com o padre:
85 REIS, Florice Dias dos. Padre Finato..., op. cit., p. 46. 86 NIEDERAUER, Ondy. Entrevista..., op. cit.
“Ondy: O senhor sabe que a Maripá dá todos os meses um tambor de
gasolina, um saco de farinha, feijão e arroz para o colégio das irmãs. O senhor já imaginou, o Willy não está aí, mas eu vou ter que falar para ele que nossa festa fracassou porque o senhor proibiu os católicos de irem lá na comunidade evangélica, e aí qual será a providência do Willy? O senhor tomou uma, ele também vai tomar uma, não?
Pe. Patuy: Não, eu vou com eles na festa para mostrar que não há nada e..., Ondy: E tem mais, o senhor vai ter que falar na missa que houve mal
entendido.
Pe. Patuy: Sim, mas eles podem ir lá, mas não podem entrar na capela. Ondy : Está bom, mas não fale mais em diabo ”87.
O desenrolar da história ocorreu, conforme registros, assinalando para o espírito ecumênico do padre Patuy em participar, no domingo seguinte, com os seminaristas na festa da igreja evangélica. Nada se fala de fatos antecedentes que parecem ter contribuído decisivamente para a presença do padre na data festiva dos evangélicos, luteranos. Entretanto, mais que subserviência, a atitude do padre concilia duas posições aparentemente contraditórias: participou da festa e garantiu o quinhão oferecido mensalmente pela Maripá e, por outro lado, não deixou de afirmar o saber da Igreja em não “permitir” que os fiéis participassem do culto e somente da festa.
A fala do entrevistado supracitado, embora sendo evangélico, parece crível uma vez que se tem conhecimentos doutros acontecimentos semelhantes, onde o padre toma atitudes proibindo os católicos de conversarem com os protestantes. A conversa, segundo Berger, é um dos meios mais eficazes para manter a plausibilidade presente na ordem do dia, “E na conversa que construímos e fazemos prosseguir nossa visão sobre o mundou , porque se mantém explicitamente ou implicitamente as verdades, verbalizando-as ou assumindo como
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implícitas ao modus vivendi. Daí a importância de fortalecer os laços de uma comunidade constituindo uma “consciência de nós” onde o diferente deve ser repelido.
Assim, padre Patuy, parece não medir esforços para inculcar nos católicos uma imagem negativa da principal agência do sagrado representado pelos evangélicos protestantes, coagindo os “menos cultos” a não conversarem com os protestantes, pois poderiam ser
87 Idem, ibidem.
88 BERGER, Peter. Um rumor dos anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. Petrópolis: Vozes, 1973, p. 54.
convertidos e além do mais estarem pecando. O padre, comenta a migrante Otilia a migrante Elizabeth, “disse que não pode falar com os protestantes, com os evangélicos não pode, isso é pecado, é pecado mortal”. A migrante Elizabeth intrigada, vai ter com o padre Patuy querendo saber se era verdade, pois neste caso, estava em pecado e precisava confessar. Então o padre lhe consola dizendo, “aqueles que não entendem nada de religião é preciso falar assim, senão ficam trocando, vocês podem ”90.
Pode-se perceber que a ação do padre não é limitada às missas e homilias, novenas e via-sacras. Estando em contato diário com os migrantes, trava, no vivido, disputas a fim de construir um saber legítimo e criar uma imagem caricaturada doutro saber concorrente, pois na igreja dos protestantes, reafirma o padre a outro migrante, “eles não adoram Deus, eles tem um bode lá no altar e eles pintam as patas do bode de dourado e as guampas também e botam ele em cima do altar e adoram o bode ”91.
O comportamento e as atitudes tomadas não só pelo padre Patuy mas por outros membros do clero, não devem ser interpretadas circunstancialmente, ou seja, isoladas no tempo e no espaço. Devem ser entendidas num âmbito abrangente onde a Igreja, nesse momento histórico, vivia num período de restauração, cujas características incluem a defesa e afirmação da ortodoxia doutrinária, concentração da hierarquia eclesiástica romana como instituição normativa e cognitiva, aliança explícita entre a Igreja e o Estado, numa interdependência harmoniosa e consequentemente experienciando um “desenraizamento cultural da Igreja” em relação à “cultura popular”91, daí que, o ‘trânsito religioso’, e a presença doutras religiões concorrentes, são interpeladas drasticamente pelos agentes do sagrado.
Por conseguinte, o estranhamento não ocorre somente em relação aos evangélicos protestantes. Talvez em Toledo seja mais freqüente, não obstaculizando, porém, ataques a outras agências que apresentam qualquer risco ou concorrência à ação do agente católico, pois se está tratando de uma alteridade doutrinária, quesito de embate próprio desse período como se apontou acima. Por isso, lembra o padre aos fiéis na pregação da missa “cuidado com os astrólogos, não acreditem neles”93, e noutra ocasião em Tupãssi, quando vê todos os esforços exauridos no combate aos ciganos que estavam a “1er mãos” dos clientes,
89 Cf. HELLER, Agnes. Sociologia de la vida cotidiana. Barcelona: Ediciones Peninsula, 1992, p. 160. 90 FUERSTEIN, Elizabeth. Entrevista..., op. cit.
91 NIEDERAUER, Ondy. Entrevista..., op. cit.
92 AZZI, Riolando. A Neocristandade: Um Projeto Restaurador. São Paulo: Ed. Paulus, 1994, p. 33