Em 1992, a linha 1 da unidade de Mucuri iniciou suas atividades, passando a produzir celulose. Segundo informações da Suzano (2009), essa linha era titular de benefícios fiscais federais que garantiam a redução de 75% do imposto de renda decorrente do lucro da exploração de suas atividades. Em âmbito local, desenvolveram-se atividades de apoio à indústria de celulose e papel, e também, cresceu a demanda habitacional. Itabatã começou a se tornar um núcleo urbano inserido na dinâmica econômica global, devido à operação da multinacional Suzano Papel e Celulose. O comércio e serviços cresceram no distrito, atendendo à sua população em vários aspectos. Porém, mesmo com as mudanças na dinâmica socioeconômica municipal, Itabatã ainda se mostrava vinculada às zonas rurais. O núcleo urbano também carecia de infraestrutura e serviços para atender sua população com mais qualidade, tais como unidades de saúde, escolas públicas, calçamento nas ruas e esgoto sanitário.
Em 1992 um novo passo foi dado para o crescimento de Itabatã, pois, com o intuito de solucionar parte das necessidades básicas, foi iniciada a construção do primeiro “Colégio de 1º e 2º grau de Itabatã”. O colégio foi localizado na maior área pública livre até então, a Praça Nações Unidas, no bairro Gazinelândia (em destaque na Figura 72). Apesar de hoje ser conhecido como “Colégio Frei Ronaldo”, sua construção foi motivada principalmente por Seu Tixa e pelo Sr. Antônio da Pureza, com o apoio do bispo da Diocese de Teixeira de Freitas, o Dom Antônio. Juntos conseguiram doações para a construção do colégio, cujos croquis e planta foram elaborados pelo Frei Ronaldo. Devido à atuação do Frei na comunidade de Itabatã, como forma de homenageá-lo, o colégio é conhecido por “Frei Ronaldo”.
As fotografias a seguir, Figura 83 a Figura 85, remetem ao início da década de 1990, e mostram a ambiência da Praça Nações Unidas enquanto era construído o Colégio Frei Ronaldo. O espaço era bastante amplo, e sem muros ou qualquer outra divisória. A edificação que aparece em primeiro plano, na Figura 83, era uma edificação com aproximadamente três salas, nas quais eram realizados cursos de artesanato, e também serviam de apoio às atividades escolares. Na Figura 85 está a fachada do colégio, em funcionamento, e ao fundo nota-se a torre de telecomunicação, que
estava em fase de construção. Esse elemento vertical irá fazer parte da nova paisagem de Itabatã, destacando-se entre as modestas edificações locais.
Figura 83 - Praça Nações Unidas - A igreja católica e o colégio em segundo plano (1992)
Fonte: Firmino Ribeiro.
Figura 84 - Momento de chegada das primeiras carteiras do “Colégio Frei Ronaldo” (1992)
Fonte: Firmino Ribeiro.
Figura 85 – Fachada do “Colégio Frei Ronaldo” (199-)
Em 1993, o Colégio Frei Ronaldo foi inaugurado na Praça Nações Unidas, local que ainda hoje é uma referência para a comunidade. Também em 1993, a unidade fabril de Mucuri iniciou a produção de papel, o que atraiu mais pessoas para Itabatã. De 1993 até a virada do século XX, são escassas as informações sobre o crescimento de Itabatã, e foram raros os fatos locais mencionados pelos entrevistados, a respeito desse período. Sabe-se, porém, que nesse espaço de tempo apenas um novo bairro foi implantado, o São José Operário, ao lado do bairro Triângulo Leal. Logo, esse período foi marcado pela consolidação dos bairros já existentes, pela valorização do solo, antes rural e que passava a ser urbanizado.
Um fato bastante relevante para a localidade ocorreu em 11 de agosto de 1999. Segundo o IBGE, nesse dia Itabatã foi considerado oficialmente como um distrito de Mucuri, pela lei municipal nº 278. Também em 1999, o nome “Itabatã” havia sido reconhecido oficialmente por projeto de Lei aprovado na Câmara Municipal, sendo formalizada também a grafia do nome, com o sinal diacrítico til sobre a letra a. O autor desse projeto, Elvacy Venâncio dos Santos, conta que vários estudos histórico- linguísticos foram realizados, resgatando-se expressões do tupi-guarani, e também de origem africana, ainda com ampla consulta a professores de Língua Portuguesa, Sociologia e Antropologia. Em sua pesquisa etimológica, o Sr. Venâncio dos Santos conta:
Verificamos a procedência dos estudos que consideravam a origem indígena da palavra, segundo os étimos ita (= pedra) e bata (= mão), dentro do primeiro idioma nacional do Brasil, o tupi-guarani. Fizemos, também, pressupostos relativos à fusão do vocábulo indígena ita com o termo de origem africana bata (= habitação, em quimbundo). Houve, ainda, uma terceira hipótese, que considerava a fusão do étimo ita com outro substantivo de origem africana - batá (= pequeno tambor de madeira). (SANTOS, 2009).
A complexa tarefa de encontrar a origem do nome “Itabatã”, a partir de estudos histórico-linguísticos, permitiu interpretações e significados variados. Um desses significados tornou-se bastante conhecido, tanto na localidade, como em sítios eletrônicos pela internet. Com isso, o nome "Itabatã" passou a ser amplamente interpretado como "lugar de pedras duras", por meio da fusão entre os termos itá (pedra), aba (lugar) e atã (duro). Para confirmar tais definições, foi consultado o livro “Vocabulário Tupi-Guarani – português”, do professor emérito da USP Francisco Bueno (1982). Segundo as traduções apresentadas no livro, dois dos termos que compõem a palavra “Itabatã” significariam: itá – pedra, ferro; e atã – duro,
resistente, forte. Logo, pela perspectiva que considera “Itabatã” como um nome de origem tupi-guarani, as definições em Bueno (1982) favorecem a confirmação do significado "lugar de pedras duras", que tem sido amplamente divulgado há duas décadas.
Em consultas ao dicionário tupi-guarani6 online, constatou-se que nomes de lugares
com os termos Itá + aba geralmente significam “lugar de pedra(s)”. Esses dois substantivos podem, então, ser associados a um adjetivo, formando diversos nomes, como a palavra Itabuna. Itabuna tem origem no tupi, e significa “lugar de pedra(s) preta(s)”, pela junção dos termos: itá (pedra), aba (imediações [de um lugar], arredores), e una (preta). Outros nomes de lugares conhecidos apresentam apenas o prefixo Ita, como Itararé, do Tupi Itá (pedra) associado a ra’ré (escavada, oca), significa “pedra que o rio cavou”, de acordo com o dicionário tupi-guarani online. Também a palavra Itacaré, que significa “jacaré de pedra”, pela junção de itá (pedra) e îakaré (jacaré); ou ainda o nome da famosa hidrelétrica de Itaipu, palavra de origem Tupi Guarani, formada pelos termos itá (pedra) + i (água) + pu (estrondo).
A realização dessa pesquisa etimológica, por moradores do território, revela um esforço em resgatar uma identidade local em Itabatã. Isso em um contexto de desenvolvimento do capital industrial e de globalização, onde a cultura e a memória local foram desvalorizadas, relegadas ao passado. Portanto, pode-se reconhecer essa busca das origens do nome “Itabatã” como uma recente valorização do passado.
O crescimento econômico acentuou-se no município após o início da produção de papel e celulose, que alavancou o valor do PIB per capta de Mucuri. Observa-se ainda que a região do Extremo Sul foi reorganizada socialmente e economicamente, como dissertado no capítulo anterior. Nesse sentido, a previsão de investimentos no estado da Bahia, no período entre 1998 e 2002 (Figura 20) revelou que aproximadamente 28% dos investimentos seriam direcionados apenas à Região do Extremo Sul baiano. Isso, devido ao desenvolvimento das atividades voltadas à produção de papel e celulose, que atraíram o capital de empresas multinacionais. Em consequência, o governo passou então, a priorizar as regiões e centros urbanos em crescente desenvolvimento econômico, como o município de Mucuri.
Em 2001, após a Companhia Suzano adquirir parte da CVRD no capital da Bahia Sul, esta passou a ser controlada também pelo grupo Suzano Papel e Celulose. Logo, posteriormente, em 2004, a Bahia Sul passou a se chamar Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A., devido à incorporação da Companhia Suzano.
O agronegócio prosperou em Mucuri, e com isso a mão-de-obra, antes marcada pela força braçal, foi substituída pela força intelectual. Surgiram novas demandas para atender à produção informatizada, e a indústria globalizada buscou, assim, mão-de- obra especializada para operar as novas tecnologias. Portanto:
Nessas áreas, a agricultura globalizada, em que a base do processo produtivo requer a incorporação de novas tecnologias de produção, com base na informática e eletrônica, passa a ocorrer um rearranjo de força de trabalho envolvendo as capacidades profissionais dos trabalhadores (ARRUDA, 2009, p. 163).
Sendo assim, o município de Mucuri prosperava quanto aos índices econômicos, destacando-se em âmbito regional, no estado da Bahia, ocasionando rearranjos nas estruturas produtivas e socioeconômicas. No contexto de Itabatã, em 2002 o território urbano estava em expansão, e a região do Centro e seu entorno imediato se configuravam como as áreas mais densas do distrito, conforme é apresentado na Figura 86. Nas áreas além da rodovia BR-101 havia, ainda, poucas ocupações, que se concentravam próximo ao centro.
A sede do distrito, e não mais povoado, era formada por sete bairros: Centro, Bela Vista, Gazinelândia, Jardim dos Eucaliptos, Triângulo Leal, Cidade Nova 1 e São José Operário. Esses bairros tiveram as ruas demarcadas, e os lotes foram colocados à venda. No entanto, percebe-se pela imagem de satélite de 2003 (Figura 87), que boa parte dos novos loteamentos estavam desocupados, principalmente no bairro Cidade Nova. Isso evidencia parte do processo de valorização do espaço, que começava a se caracterizar como urbano. Além disso, revela o processo de especulação imobiliária em Itabatã, quando pessoas interessadas em lucrar com a valorização dos terrenos, compravam parte dos loteamentos, porém sem ocupá-los. Como resultado, têm-se uma ocupação espraiada, e agravam-se as desigualdades sociais.
Figura 86 - Fotografia aérea de Itabatã (2002)
Fonte: Jornal Tribuna do Povo (2002) apud Carvalho e Coelho (2011).
Figura 87 – Imagem de satélite, enquadramento da sede do distrito de Itabatã em 2003
Em 2005 foi iniciada a expansão da fábrica Suzano Papel e Celulose para a construção da segunda linha de produção de celulose, concluída em 2007. Nesse mesmo ano de sua conclusão, um novo loteamento foi iniciado em Itabatã, o bairro Cidade Alta, no limite norte do distrito.