2.5 Acknowledgements
4.2.6 Instrumentation and measurements
No recém criado CBPF, Tiomno e Lattes sentiam-se à vontade para convidar os seus colegas físicos estrangeiros para visitas, e entre esses o físico Richard P. Feynman, que aquiesce ao convite e vem ao Brasil, fazendo no CBPF, em 1949, uma breve estada (LEITE LOPES, 1988).
Apesar de curta a primeira visita ao CBPF, ele leva a imagem da competência e dedicação dos seus líderes de pesquisa, fato que o conduz a colocar a nova instituição como parte integrante do seu calendário de visitas às instituições estrangeiras e assim procede, visitando o CBPF nos anos de 1951, 1952 e 1953.
Em 1951, com o CBPF dispondo de mais recursos, Leite Lopes convida Feynman para ministrar curso de Física Nuclear, no seu ano sabático, ocasião em que ele se transfere da
Universidade de Cornell para o California Institute of Tecnology (Caltech), ambos nos EUA. Ele concorda e estende essa atividade de pós-graduação à FNFi, comparecendo, ainda nesse ano, à reunião da SBPC, conforme LOPES (1988, p. 8):
No CBPF Feynman deu um curso sobre física nuclear e na FNFi um curso sobre eletromagnetismo. Com ele colaborei numa investigação sobre a teoria de campo mesônico pseudo-nuclear e a descrição de algumas propriedades do dêuteron, uma colaboração na qual conheci as suas extraordinárias habilidades de cálculo acopladas a uma visão física intuitiva excepcional [...] compareceu à reunião da SBPC em Belo Horizonte onde interagiu com cientistas de várias áreas [...]
Com patrocínio do CNPq e da Academia Brasileira de Ciência (ABC), Feynman retorna ao Brasil no ano seguinte para realizar um simpósio, conforme também se lê em LOPES (1988, p. 8):
No ano de 1952 realizou-se um Simpósio sobre as Novas Técnicas de Pesquisa em Física44, sob os auspícios do recém-criado CNPq e da
Academia Brasileira de Ciências e ao qual compareceram físicos do calibre de Eugene Wigner, Emilio Segre, David Bohm [então na USP] [...]
Saindo do Rio de Janeiro para São Paulo, Feynman visita o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), contribuindo para a formação dos professores dessa instituição. O físico José Israel Vargas, que naquela instituição trabalhava, recorda aquele período, na entrevista VARGAS (1977, p. 15):
[...] em 1952 fui para São José dos Campos, como instrutor do ITA. Foi um período extremamente ativo do ITA. [...] Então houve um curso de especialização de professores de Física organizado pelo Pompéia45 [...].
Participaram o Abraão de Morais46, o Cintra, Sala [...] Lattes, Tiomno e
Feynman. [...] O curioso é que havia umas técnicas matemáticas que eu
44 Esse simpósio, denominado Symposium on New Research Techniques in Physics, sob os auspícios do CNPq, realizou-se nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, dos dias 15 a 29 de julho de 1952. Nele foi apresentado o tema On the pseudoscalar meson theory of the deuteron pelos físicos R. P. Feynman e J. Leite Lopes presente em Anais Academia Brasileira de Ciências, 1952. 45 Paulus Aulus Pompéia (1911-1993), graduou-se como engenheiro eletricista (1935) e seguidamente como físico (1939) pela USP, tendo entre os seus feitos o estudo de raios cósmicos com o físico Gleb Wataghin na USP, pesquisas com o físico Arthur L. Compton na Universidade de Chicago até 1942 e a implantação do departamento de física e química do ITA, onde atuou de 1949 a 1964, sendo chefe do departamento de física por amplo período, aposentando-se por essa instituição em 1966. Fonte: < http://acervo.if.usp.br/bio07 >.
46 Abrahão de Morais (1917-1970) foi professor do IFUSP, com maior destaque em astronomia e geofísica, tendo como reconhecimento das suas pesquisas, pela comunidade astronômica internacional, a denominação de uma cratera de impacto na Lua com o seu nome: Cratera De Moraes. Fonte: < http://acervo.if.usp.br/ >.
vim descobrir na pós-graduação segundo um curso de Feynman47 [...] O Pompéia me recrutou para o Dept. de Física do ITA. Foi um período muito bom. Não havia pós-graduação registrada, mas nós tínhamos o [...]
Como fruto daquele trabalho conjunto do ano anterior, ainda em 1952, Feynman publica, com Leite Lopes, o artigo “On the pseudoscalar meson theory of the deuteron”.48
Em 1953 Feynman retorna ao Brasil para dar continuidade às suas pesquisas sobre a transição do hélio líquido, fazer nova conferência na FNFi, e inspecionar o ensino de física no Brasil, entre outras atividades.
Decorridos quatro anos, o físico Herch Moyses Nussenzveig, que foi graduado pela USP em 1954, conclui seu doutorado sob a orientação do físico Guido Beck, nessa mesma instituição no ano de 1957, com a tese intitulada Solution of a diffraction problem. Após a defesa, sabendo o orientador que Feynman nesse período estava no CBPF, Beck solicitou ao seu orientando que fosse ao Rio de Janeiro e repetisse a defesa daquela para se ter as considerações do ilustre visitante, ao que Moyses aquiesceu e assim narra em NUSSENZVEIG (2008):
Essa tese, eu a defendi duas vezes, de fato: uma vez na prova oficial, que foi com o Schönberg, o Beck e outras pessoas na banca, e depois eu tive de defendê-la de novo perante o Richard Feynman (que era visitante constante aqui no Rio), e o Beck fez com que eu repassasse aquilo tudo, ele me interrogando. Foi uma defesa dupla.
Os anos se passam e apesar da ausência física no Brasil, Feynman procura sempre se manter informado do que aqui acontece. Essa sua preocupação com a física brasileira pode minimamente aqui ser ilustrada pela carta de 1959, dirigida aos colegas americanos e estrangeiros quando ele se encontrava nos EUA, copiada em LOPES (1988, p. 13):
47 A técnica matemática a que se refere o físico Israel Vargas consiste no processo de renormalização aplicado por Feynman à teoria do elétron de Dirac, o qual permitiu, entre outras conquistas, corrigir os valores da carga e da massa do elétron para os valores físicos corretos (com ótima aproximação), já que se apresentavam divergentes quando calculados pelos mecanismos da teoria citada.
48 O artigo encontra-se nos anais do evento Symposium on New Research Techniques in Physics, julho de 1952, p. 251.
3 de junho de 1959 De: Richard P. Feynman Para meus colegas
Como vocês sabem, sempre me interessei pelo desenvolvimento da física no Brasil. Eu estive lá quatro vezes, fazendo palestras no “Centro Brasileiro de Pesquisa Física”, em uma dessas vezes, permaneci lá por 10 meses. O “Centro” está localizado em um pequeno prédio de 15 ou 20 salas, com uma pequena biblioteca. É nessa instituição que todo49 o trabalho
avançado e útil em física no Brasil é feito, os mais importantes professores de física fazem sua pesquisa e ensino avançado lá, e seu ensino mais básico na Universidade Federal.[…]
Em visita virtual aos arquivos do Caltech encontro que, ainda em 1959, quando em suas reflexões sobre o ensino e pesquisa em física na America Latina, Feynman observa os facilitadores e dificultadores para tal:
A dificuldade está nos problemas terríveis que eles têm no seu país. Por exemplo, o centro de pesquisas físicas, no Rio [referindo-se ao CBPF], que é um dos líderes da América Latina, tornou-se isolado do resto do mundo por causa de uma coisa muito simples: ninguém quer pagar as revistas Physical Review ou Nuovo Cimento. Ninguém quer pagar para ter as revistas que podem manter as pessoas informadas sobre o que acontece em outro lugar. (FEYNMAN, 1959, p. 30)
Recordando a influência de Feynman no ensino e pesquisa em EDQ nas instituições brasileiras, já em 1960, Leite Lopes assim se recorda, na introdução do livro Introdução à
eletrodinâmica quântica (LOPES, 1960):
As presentes notas constituem uma introdução à eletrodinâmica quântica, como curso oferecido, em várias oportunidades, aos estudantes graduados na FNFi, CBPF e ITA, [esse localizado] em São José dos Campos. O método seguido é o de Feynman [...]. Seguimos, assim, tanto quanto possível, a apresentação de Feynman nos seus trabalhos [publicados na] Physical Review [...], bem como suas notas de curso de Quantum Electrodynamics [...].
Do convívio profissional do físico estadunidense com os brasileiros resultou a seguinte frase de Leite Lopes, quando indagado sobre a atuação do nobelista da EDQ no CBPF: “Feynman sozinho é um Departamento de Física, um homem de uma inteligência extraordinária”(LOPES, 2010, p. 44).
49 Apesar da ênfase de Feynman sobre as pesquisas físicas realizadas no então CBPF, já são de relevo, também, as pesquisas físicas em nível de pós-garduação feitas em outras instituições do Brasil, a exemplo das realizadas na USP.