O mosteiro de Cluny, fundado em 11/IX/909/910, em terras doadas pelo Conde Gui- lherme da Aquitânia, exerceu um papel verdadeiramente importante no seio do monaquismo ocidental. De forma efectiva, foi introduzido, então, o princípio da isenção das autoridades civis e religiosas, com a sujeição directa ao poder de S. Pedro, em Roma. De 909 a 1109, Cluny teve apenas seis abades e, deles, quatro santos canonizados: Odão, Odilão, Máiolo e Hugo.
BERNÃO (910-927), abade beneditino de Baume e de outros mosteiros, foi o seu pri-
meiro abade e o seu carismático organizador, a que se seguiu, depois, uma série de abades sábios e santos260. Isso fez com que a abadia de Cluny, na Borgonha, fosse quase durante dois séculos o centro accionador duma verdadeira e profunda reforma monástica261. De
258Corpus Consuetudinum Monasticarum, 12 Vols, Ed. Kassius Hallinger, Siegburg, Fr. Schmitt Verlag, 1963s.
259HALLINGER, Kassius – Gorze-Kluny. Studien zu den monastichen Lebensformen und Gegensätzen im Hochmittelalter, II.
«Studia Anselmiana». 22-25, 1950-51.
260BAUD, Anne – Cluny. Un grand chantier médiéval au cœur de l’Europe, Paris: Picard, 2003; MÉHU, Didier – Paix et Com-
munautés autour de l’abbaye de Cluny (X-XV siècle), Lyon: Presses Universitaires de Lyon, 2001.
261CANTARELLA, Glauco Maria – I monaci di Cluny, Turim, 1993; COSTA, Ricardo – Cluny, Jerusalém celeste encarnada
(séculos X-XXI). In «Mediaevalia. Textos e Estudos». 21, Porto, 2002, 115-137; LECLERCQ, Jean – Pour une histoire de la vie à Cluny. «Revue d’Histoire Réligieuse». 57, 1962; PACAUT, M. – L’Ordre de Cluny, (909-1789), Paris: Fayard, 1986; WOL-
início, foram introduzidos os costumes de Aniano, mas Bernão governava vários mostei- ros e, antes de morrer (927), nomeou sucessor para Cluny a Odão. Como novidade, o duque fundador renunciava para si e seus familiares ao direito de fundador, e o mosteiro de Cluny ficava ligado directamente a S. Pedro de Roma, como Bobbio e Fulda, isento da autoridade dos bispos locais, enquanto os monges podiam escolher o seu abade, livres de ingerências laicas ou eclesiásticas. Por sorte, os 6 primeiros abades tiveram governos de longa duração, enquanto na Igreja se sucederam 31 Papas e Antipapas.
ODÃO (927-942), homem erudito e de boa formação, fora cónego de S. Martinho de
Tours, estudara em Paris e, quando entrou em Cluny, levou consigo 100 livros, que consti- tuíram a base da futura biblioteca do mosteiro. Feito abade, percorreu França e Espanha para espalhar a reforma iniciada em Cluny. No seu tempo, o Papa João XI, em 931, confir- mou a isenção ou liberdade de Cluny, o que ligou fortemente o mosteiro à Santa Sé e favo- receu a beneditino-clunicização de mosteiros romanos e de Subiaco. Numa época em que o clero diocesano tinha pouca importância, a reforma dos mosteiros acabaria por ajudar à reforma da Igreja. Escrevendo a «Vita Geraldi Aurillac», Odão mostrava como um leigo casado, no mundo, podia ser exemplo de santidade para monges e clérigos e antecipava-se à teologia do laicado.
AIMARDO (942-954) foi o abade que promoveu sobretudo o aumento do mosteiro. MÁIOLO (954-994) veio dar um acréscimo de estabilidade ao movimento de reforma
monástica e fez a agregação de muitos mosteiros: S. Dinis, Marmoutier, S. Mauro des Fos- sés, Santo Apolinário in Classe de Ravena. Por essa razão, muitos pequenos mosteiros começaram a gravitar como «cellae» à volta de Cluny. Favorecido pelos reis e imperadores (Otão I, II), Cluny tornava-se exemplo de vida monástica, mas teve de pagar resgate pelo seu abade caído em poder dos sarracenos (972), quando viajava pelos Alpes.
ODILÃO (994-1049) procurou com afã levar por diante a reforma monástica262. O
imperador Henrique II ofereceu ricas dádivas a Cluny (Liber tramitis) Se, em 994, Cluny englobava 37 mosteiros; ao tempo da morte de Odilão, já contava 65. Uma só abadia, Cluny, gozava direitos e privilégios sobre os mosteiros afiliados, como se formassem corpo com ela, aquilo que se veio a chamar a «Ecclesia cluniacensis». Foi Odilão quem desenvolveu o culto dos defuntos estabelecendo uma ponte de orações e intercessões, que permitissem uma pas- sagem fácil da «assembleia dos fiéis ao coro dos anjos». A ele se deve o Estatuto primitivo sobre os Fiéis Defuntos, aproximadamente do ano 1030263. Pelo fim do seu governo abacial
262HOURILLER, D. Jacques – Saint Odilon, abbé de Cluny, Lovaina: Bibliothèque de L’Université, 1969. 263HOURLIER, J. – Saint Odilon et la fête des Morts, in «Revue Grégorienne». 28, 1949, 208-212.
(cerca de 1024-1045), foi redigido o «Liber tramitis aevi Odilonis abbatis»264, importante cos- tumeiro de alcance jurídico, útil para o conhecimento geral do mosteiro Cluny II. Desenvol- veu as cerimónias do culto segundo o ciclo do ano litúrgico, enriqueceu a lista de relíquias, sistematizou a organização do mosteiro, dos seus espaços e dos seus cargos monásticos.
Rudolfo Glaber265, monge da observância de Cluny, que escrevia depois do ano Mil, diz que Cluny dera novo vigor à Regra de S. Bento e se tornara «um albergue de sabedo- ria»266. Em 998, o Papa Gregório V concedeu a Odilão e seus sucessores o privilégio da isenção eclesiástica, permitindo a Cluny tornar-se um corpo eclesiástico autónomo, inde- pendente de bispos e senhores, com ligação directa a Roma e ao Papado.
HUGO DE SÉMUR (1049-1109), eleito aos 25 anos, teve um longo abaciado de 50
anos, pelo que foi chamado Hugo, o Grande! Durante o seu governo é que o monge Ber- nardo (1070) compilou as Constituições ou «Ordo cluniacensis», de que o monge Udalrico (1080)267faria uma outra compilação para o abade de Hirsau. Hugo foi um extraordiná- rio abade, amigo do Papa Gregório VII, padrinho do imperador Henrique IV; foi ele que, em Canossa, conseguiu fazer a reconciliação do Papa Gregório VII com o Imperador Hen- rique IV. Com ele, a reforma de Cluny atingiu a maior extensão (Polónia, Hungria, Ingla- terra, Itália: Pontida e Cava dei Tirreni). Seus familiares, no empenho da «Reconquista» cristã aos mouros, vieram até à Península Ibérica, como o Conde D. Henrique, que se fixou no Território Portucalense. O abade Hugo travou amizade com o rei de Castela, Afonso VI268, que deu valiosas esmolas para a nova igreja de Cluny e fez com que se realizassem fundações cluniacenses na Península Ibérica: em Espanha: Sahagún e outras; em Portugal: S. Pedro de Rates (1100), Santa Maria de Vimieiro, Braga, e Santa Justa de Coimbra269.
Foi ele que fundou, em Sémur, o mosteiro feminino de Marcigny-sur-Loire (1055) para sua mãe e irmã, que chegou a prioresa, agregando mosteiros de religiosas a Cluny e incrementando as fundações de mosteiros de beneditinas. No mosteiro de Marcigny se conservava o mais antigo necrológio de Cluny, hoje na Biblioteca Nacional de França. Não
264Do «Liber tramitis», redigido cerca de 1048, conservava-se uma cópia na Abadia de Farfa (Consuetudines Farfenses), Itá-
lia, e foi publicado no «Corpus Consuetudinum Monasticarum» (CCM), X, Siegburg, 1980.
265GLABER, Rudolphus – Historiarum libri quinque, «PL», CXLII, 609-698; Cfr. ARNOUX, M. – Raoul Glaber: Histoires, Tur-
nhout: Brepols, 1996; RODOLFO IL GLABRO – Storie dell’Anno Mille, a cura di Giancarlo Andenna e Dorino Tuniz, Milano: Europía, 1981; DUBY, Georges – O Ano Mil. Lisboa: Edições 70, 1980.
266«Ad ultimum quoque predicta videlicet institutio, iam pene defessa, auctore Deo elegit sibi sapientie sedem vires colectura ac
frutificatura germine multiplici in monasterio scilicet cognomento Cluniaco», GLABER, R. – Historiarum, III, 18.
267Antiquiores consuetudines Cluniacensis monasterii collectore S. Udalrico monacho Benedictino, «PL», 149, 635-778. 268LINAGE CONDE, António – Alfonso VI. El rey hispano y europeo de las tres religiones (1065-1109), Burgos: Editorial La
Olmeda, 1994 (Col. «Corona de España», XVII).
269DIAS, Geraldo J. A. Coelho – O Mosteiro de Rates e os Beneditinos. «Boletim Cultural. Póvoa de Varzim». XXXIV, 1998-
-99, 71-83; Idem – Cluniacenses. «Dicionário de História da Igreja em Portugal», Dir. Carlos Moreira Azevedo, I. Lisboa: Cír- culo dos Leitores, 1999, 381-385.
se pode esquecer que foi o abade Hugo, o Grande, e Cluny quem mais ajudou à reforma gregoriana da Igreja. Quando ele morreu, em 1109, a Ordem Cluniacense contava 1084 casas e, delas, 883 em França.
Com ele se fundou também a nova igreja de Cluny (20/IX/1088 = Cluny III), «ante- câmara do céu», segundo o sonho dum velho abade chamado Gunzo, como narra a sua vida, escrita pelo monge Gilon, cerca de 1120, tendo consagrado o altar-mor o Papa Urbano II (1095), antigo Grande Prior de Cluny, e feito a dedicação da mesma o Papa Ino- cêncio II (25/X/1130). Essa igreja, que foi a maior da Cristandade até à de S. Pedro no Vati- cano, com 211 metros de comprimento total, tinha 187 metros de comprido na nave e dois transeptos, um de 73 m. e 4 absidíolos e outro de 59 m. e dois absidíolos, tinha uma cha- rola ou deambulatório com cinco capelas radiantes, possuía sete torres, além de muita e sumptuosa decoração, a que, depois, se juntaram outros acréscimos e reformas270. O mos-
teiro foi, desgraçadamente, destruído em 1823.
Em 1088, o Papa Urbano II renovou a Hugo e seus sucessores o direito de isenção eclesiástica e concedeu-lhe o privilégio de usar mitra e insígnias, reservadas aos bispos, o que Pascal II renovou em 1100. A liturgia realizava-se sempre com grande brilho e soleni- dade. Com Hugo, Cluny atingiu o apogeu e era a demonstração visível do poder espiritual e temporal da «Ecclesia cluniacensis».
PÔNCIO DE MERGUEIL (1109-1122) teve um abaciado desastrado, que provocou
um triste interregno na dinastia dos santos abades. Negociou, é certo, por incumbência do Papa Calixto II, a Concordata de Worms (1122), que consagrou a paz entre o Império e o Papado, e, por causa disso, recebeu o privilégio de Abade Cardeal. Orgulhoso, partiu em viagem para a Terra Santa sem informar o Papa, que ordenou nova eleição abacial, a do abade Hugo II, que morreu três meses depois. Começavam, então, os primeiros assomos da oposição dos bispos à importância dos monges e suas abadias.
PEDRO VENERÁVEL (1122-1156), foi o novo abade, também chamado Pedro-Mau-
rício de Montboissier271. Nascido em 1092, educado no mosteiro de Sauxilanges, professou
em Vézelay (1109), e seria, em 1120, enviado como Prior para Grenoble. Após a demissão do abade Pôncio, foi eleito Abade de Cluny, quando tinha apenas 30 anos. Lutando com humildade e tenacidade contra o partido de Pôncio, retornado e morto em prisão papal em 1126, reformou a disciplina. Em 1132, reuniu um Capítulo Geral em Cluny com 200 Priores e centenas de monges. Restituiu a Cluny o seu antigo prestígio, apesar de, entre-
270VINGTAIN, Dominique – L’Abbaye de Cluny. Centre de l’Occident médiéval, Paris: CNRS Éditions, 1998; DIAS, Geraldo
J. A. Coelho – Liturgia e Arte. Diálogo exigente e constante entre os beneditinos. «Revista da Faculdade de Letras. Ciências e Técnicas do Património», Volume II, Porto, 2003,2912-310.
271TORRELL, Jean-Pierre; BOUTHILLIER, Denise – Pierre Le Vénérable, abbé de Cluny. Le courage de la mesure, Chambray:
tanto, aparecer também a reforma de Cister com a figura ímpar e fogosa de S. Bernardo de Claraval. Contudo, em 15/I/1233, o Papa Gregório IX, com uma bula, pretendeu reformar o «scandalum» que representava Cluny na Igreja, estabelecendo um paralelo desfavorável entre Cluny e Cister. Em 1146, publicou estatutos a respeito das observâncias, profissão e liturgia272.
Entre 1147-48, Pedro Venerável escreveu «Dispositio rei familiaris»273, espécie de regu-
lamento para administração do património monástico com a intenção de reconduzir os monges à austeridade do seguimento de Cristo. Sob o seu abaciado, só o mosteiro de Cluny contava com 400 monges e a ordem de Cluny abarcava cerca de 2000 casas. Pedro Venerá- vel teve a digna e nobre hombridade de declarar que, no seu tempo, Cluny era «o tesouro público da república cristã»274e, por isso, se lamentava da quebra do fluxo de doações e
mandas ao seu mosteiro. Apesar de tudo, com todos os seus problemas e a concorrência de Cister, a importância de Cluny durou ainda vários séculos, até à Revolução Francesa.
O arquitecto americano, Kenneth John Conant, de 1928 a 1950, tentou fazer a recons- tituição de Cluny III, que foi o farol do monaquismo ocidental, motivando imitações e provocando críticas contestatárias.
O sucesso monástico de Cluny explica-se, de algum modo: Primeiro, pela sua situa- ção geográfica entre a França e o Império alemão. Segundo, pela categoria excepcional dos primeiros abades (de 909 a 1109) e pela longa duração do seu governo. Em Cluny, o abade era eleito pela comunidade sob proposta do antecessor.
Não podemos, todavia, deixar de sublinhar alguns elementos estruturais: