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No artigo “Prospectos para um regionalismo crítico” publicado em 1983 no Perspecta11, Kenneth Frampton objetivava a possibilidade de uma arquitetura com maior significado experimental, mas sem um sentimentalismo excessivo pelo vernáculo. Além disso, como uma resposta arquitetônica adequada a um determinado lugar, ele adotou o reconhecimento da construção regional e vernácula, por causa do respeito às condições de luz, vento e temperatura. O Regionalismo Crítico propõe a noção de que os projetos especificamente aclimatados são estética e ecologicamente bem sucedidos, e oferecem resistência às forças homogeneizantes do capitalismo moderno (NESBITT, 1996).

Com a reflexão do “Regionalismo Crítico”, expressão emprestada dos teóricos Alexander Tzonis e Liane Lefaivre, Frampton pretende ressaltar a forma de trabalhar de alguns arquitetos que buscam, de certo modo, uma arquitetura que reflita o lugar (paisagem e cultura) no qual está inserida, sem no entanto cair num romantismo “kitsch”. Lembrando

ainda que, na atualidade, a cultura de massa e da informação excessiva tende a funcionar como predadora dos costumes locais. O regionalismo crítico, propõe a valorização da diversidade cultural, opondo-se à tendência da dominação da comunicação eletrônica, que visa a substituição da experiência pela informação. (NESBITT, 1996).

Não significa que Frampton rejeite os avanços tecnológicos modernistas, mas sim a sua generalização exagerada na escala mundial que foi, entre outros motivos, possibilitada pelo o uso indiscriminado dos sistemas de ar-condicionado. Para ele é necessário que haja uma “filtragem crítica”, não só dos recursos tecnológicos como também de re- interpretações de elementos provenientes de outras culturas, de modo que a arquitetura regionalista deve enfatizar a cultura contemporânea voltada para o lugar através do respeito ao clima, à topografia12, à malha viária, à paisagem natural e a uma tectônica que considere a mão-de-obra, materiais e técnicas construtivas locais, permitindo que os ambientes assim construídos sejam experimentados por seus usuários em todos os sentidos.

Reforçando que a padronização do abrigo nega a identidade e a expressão locais. Frampton também se preocupa com a manipulação do consumidor (“sedução em massa”) e o problema da arquitetura concebida e percebida como moda (“formas individualistas de narcisismo”) ou cenografia. Sua crítica reflete sobre uma arquitetura alternativa e autêntica baseada na compreensão de dois aspectos essenciais da arquitetura: o lugar e a tectônica. Ele objetiva “re-localizar” a arquitetura sem prescrever uma estratégia específica. Assim, um trabalho exemplar da arquitetura seria aquele que “evoca a essência do lugar junto com a inevitável materialidade do edifício” (NESBITT, 1996. p. 468).

Idéias sobre “construir o ambiente”, creditadas a Vittorio Gregotti e as evidências nos trabalhos de Louis Kahn e Alvar Aalto, são a parte central do regionalismo crítico. A versão da teoria de Frampton publicada no Perspecta cita vários arquitetos e trabalhos que embasam a defesa do “regionalismo crítico”:

ƒ Vittorio Gregotti – sua tese é a de que as edificações “constroem o lugar”. Em “O território da arquitetura” de 1966, ele analisa o trabalho de Botta, cujas casas denotam

12 O compromisso com a valorização da topografia esbarra num contraste aguçado com a idéia do estilo internacional de um sítio limpo e plano (FRAMPTON, 1997).

uma sensibilidade doméstica, ao mesmo tempo moderna e tradicional, e com uma capacidade de se harmonizar com a natureza. “Declaram-se como formas primárias, colocadas contra a topografia e o céu” (GREGOTTI, 1996; apud FRAMPTON, 1997, p. 392).

ƒ Tadao Ando – seu pensamento é bem parecido com o chamado “regionalismo crítico”. Isto fica mais evidente na tensão que ele percebe como um elemento predominante da modernização universal e as individualidades da cultura local - tradicional. Ele propõe que o vocabulário e as técnicas modernistas sejam usadas de modo a atender as exigências locais, mantendo e até mesmo recuperando a sua intimidade com a natureza e sua cultura. Referindo-se a Le Corbusier e Louis Kahn, ele enfatiza a luz como um elemento revelador da forma e dos detalhes, sem porém descartar a percepção da obra pelos outros sentidos.

ƒ Alexander Tzomis e Elaine Lefaivre (historiadora) – No artigo “O traçado e o caminho” (1981), apresentam uma reflexão sobre o regionalismo historicista na Grécia e o fascínio que ele exercia sobre a elite urbana. Segundo esses autores, o regionalismo surgiu na Grécia no final da década de 30, através da obra de Aris Kontantinidis, onde se pode identificar uma tensão entre a racionalidade universal (do concreto armado) e os elementos nativos como a pedra e o tijolo. O trabalho de Dimitris Pikionis também é destacado como um regionalismo de método empírico que pesquisa o local para atingir o concreto e real visando humanizar a arquitetura novamente. Para Tzonis e Lefaivre a fusão dialética entre os dois trabalhos citados refletiria o equilíbrio entre a cultura local e a civilização universal. Alex Tzonis afirma que o Regionalismo Crítico é uma ponte pela qual qualquer arquitetura humanística do futuro tem que passar, até mesmo se o caminho conduzir por uma direção completamente diferente.

ƒ Raimund Abraham – Arquiteto austríaco radicado em Nova York, cujos projetos buscam a ênfase na “criação do lugar”, nos aspectos topográficos da forma construída, na sensibilidade tectônica e na preocupação em expressar a essência genuína do local. ƒ Luis Barragán - Arquiteto mexicano com referência nas estâncias coloniais mexicanas,

buscando uma forma ligada à terra, composta por fontes, cursos de água, saturação de cor, etc. Contudo, sua obra continuou comprometida com a forma abstrata que tem caracterizado a arte do nosso tempo. Seus escritos, recordações do tempo em que vivia em um “pueblo”, chamam a atenção para a invasão da privacidade do

mundo moderno, através dos meios de comunicação: rádio, televisão, telefone e similares; que levaram-no a fechar cada vez mais os edifícios para o olhar público, resultando assim, no impedimento da entrada de luz e o contato com a natureza. ƒ Alvar Aalto o considera a topografia para conceber e estruturar seus edifícios, possui

sensibilidade com os materiais, possibilitando um melhor aproveitamento deles para a filtração e penetração de luz.

ƒ Louis Kahn o compromisso com a topografia e contraste com o Estilo Internacional. Preocupação em preservar as qualidades da vida urbana da cidade da Filadélfia , trabalhando a área central da cidade como uma fortaleza.

ƒ Gino Valle o reinterpretação do vernáculo italiano da Lombardia, Itália.

ƒ Mario Botta o adaptação do Racionalismo Moderno às especificidades dos lugares. Mario Botta ainda diz que as cidades históricas tendem a se preservar por meio de fragmentos ou no “revival” de modelos típicos da região. As casas de Botta são marcas na paisagem e possuem janelas que permitem a visão do entorno. As casas se impõem sobre a topografia, mas há uma harmonia com a natureza através da analogia das formas.

Segundo Frampton (1997), na América do Norte predomina a arquitetura comercial e a proliferação de formas altamente individualistas de narcisismo. Andrew Batey e Mark Mack, Napa Valley (Califórnia) e Harry Wolf, Forte Lauderdale Riverfront Plaza são exemplos de Regionalismo na América do Norte. Para o autor disseminação do regionalismo ocorre em vários países: Oscar Niemeyer e Alfonso Reidy (Brasil); Amancio Williams (Argentina); Carlos Raúl (Venezuela); Richard Neutra, Rudolph Schindler, Ken Welber e Irving Gill (Los Angeles/ EUA); William Wurster e Hamilton Harwell Harris (Califórnia).

O regionalismo crítico não traz uma receita a ser seguida, já que cada obra é uma resposta única, específica do lugar, diferindo, portanto de um estilo, não contando com elementos reconhecíveis ou pastiches e informações cenográficas.

Em meio aos debates internacionais e locais que questionavam e criticavam o “iternational style”, o “roteiro” proposto por Holanda (1976) foi elaborado à luz, não só do clima, como também do jeito de viver do povo nordestino. E sob a perspectiva sugerida por Frampton (1983), é possível entender tal proposta como “regionalismo crítico”, haja vista a ampla interface entre os discursos desses autores.

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