As linguagens utilizadas sugerem sentidos (in)desejados e (im)previsíveis. O que é lido, somente o título ou toda a postagem, inclusive os comentários? Como foi explorado na subseção 5.1.1 os seguidores possuem níveis de alfabetização científica e tecnológica e interesses variados. De modo geral, os extratos de postagens revelam que “privilegiam” a linguagem não verbal. O engajamento emocional, mais frequente e expresso por meio de curtidas e emoticons, reflete a supremacia da linguagem não verbal e parece se justificar pela sua capacidade sensibilizadora ou de chamar atenção. A linguagem verbal é menos frequente e se aproxima da coloquial, como exemplificam os extratos de postagens, isto é, as figuras desta seção de resultados. Contudo, profissionais graduados e pós-graduados em geral prezam pelo formalismo científico, pela precisão dos termos.
Para Bakhtin (2006, 1997), a linguagem é ação no mundo, tanto que a circulação das vozes está submetida ao poder. O sujeito não escolhe a própria linguagem, pois se constitui na relação com outros indivíduos e coisas, atravessado por diferentes usos da linguagem. Se constitui entre linguagens. Cabe destacar aqueles enunciados que se inserem compulsoriamente em cada postagem na plataforma Facebook. Tanto que se têm o desafio de entender como os usuários se constituem via associações ubíquas mediadas por esses objetos, uma vez que nesses processos ampliam-se suas ações. Mesmo que a divulgação científica objetive alcançar o maior número de leitores possível, um requisito importante dessa atividade de comunicação, como parte das ciências, é o uso de terminologias específicas, como se pode observar nas figuras 31, 32 e 33, por exemplo.
Na postagem da figura 31, o discurso institucional procura promover aplicações das radiações, a partir de serviços prestados pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), instituição parceira, também vinculada a CNEN. Na vertente bakhtiniana, os enunciados verbais dessa postagem expressam características dessas instituições, isto é, seus “signos ideológicos”, como sua “cultura”, sua “coletividade” e seus “valores”. Quando se
pensa em radiações, por exemplo, parece não haver uma fronteira clara entre sentidos e significado. Tanto que o título da postagem é genérico, mas como a fonte é o Co-60, pode-se deduzir que se trata de raios gama, cujo poder de penetração na matéria é alto; e esse radioisótopo sofre esse tipo de decaimento.
Figura 31 - Exemplo de Linguagem usada por Estudantes, Profissionais e outros Seguidores na Página do CIN.
No penúltimo comentário, um seguidor dessa página além de marcar outro, usa signos que sugerem admiração ou surpresa. Seria o êxtase de quem passou a entender algo novo? O sentido imediato parece estar relacionado a dicotomia benefícios/malefícios associados às radiações nucleares.
No último comentário, um estudante usa uma animação, em que um repórter, um porta voz da divulgação científica é ladeado por um modelo atômico estereotipado, contendo o símbolo do comunismo em seu centro. Como se sabe as radiações possuem origem atômica, podendo ser emitidas pelo núcleo ou não. E embaixo pode-se associar o enunciado “aplicações de radiação [...]” a acidente nuclear. Essa face do engajamento comportamental parece ser uma tentativa de “satanizar” a energia nuclear associando-a ao comunismo e a acidente nuclear. A resposta cômica e com tom de deboche do estudante revela outras ideologias: o uso da energia nuclear a serviço de interesses políticos; e isso chama atenção para o papel dos governos nessas questões.
Seguindo essa lógica, Nóvoa (2015) adverte que os discursos podem induzir comportamentos e prescrever atitudes supostamente rotuladas de “razoáveis” e “corretas”. Diante disso, é preciso ser vigilante e sensato para não adotar atitudes que possam ser consideradas discriminatórias em relação ao discurso de outrem e possivelmente interpretadas como uma forma de “violência simbólica”. Nunes (2014, p. 286, grifo nosso) defende que “[...] o Facebook pode ser caracterizado como espaço imoderado para a liberdade de expressão, como se transformar, ainda, num ambiente onde se pode emitir de maneira irresponsável ou pouco embasada pontos de vista acerca de assuntos polêmicos do cotidiano”. A postagem da figura 32 também corrobora com essa constatação. Reitera-se que os comentários retirados são de marcações de “amigos”. No segundo comentário, um técnico em radiologia enuncia “[...] abraçar um pouco mais os técnicos. [...]. Precisamos de uma cultura [...]”, e assim, faz associações conceituais entre profissionalidade, radiação e seus riscos, benefícios e malefícios. Com fundamento na TAS de Ausubel e na ADD é evidente que sua atribuição de sentido depende daquilo que se sabe (engajamento cognitivo). Ao buscar incluir- se em outra cultura (engajamento comportamental), a de Radioproteção mediada pelo IRD, esse usuário ancora-se na entidade “técnicos” que circula em sua estrutura cognitiva. Na arquitetura da TAR, o “objeto cultural”, evento promovido pelo IRD e ilustrado na figura 32, pode ser pensado como uma relação de discursos, que é reconstruída e modulada pelo nível ou tipo de linguagem usada pelos usuários. Então, atribuir sentidos a conteúdos de física das radiações significa (re)construí-los, alterar visão de mundo, o que não se reduz a um evento prazeroso, exige-se esforço e capacidades mínimas de abstração para compreendê-los ampla e
profundamente. Dessa forma, o sentido é expresso a partir do contexto. Comemorar a proteção radiológica é um construto cultural com a finalidade precípua de fornecer condições mais seguras possíveis para atividades que envolvam radiações ionizantes.
Figura 32 - Exemplo de Linguagem usada por Estudantes, Profissionais e outros Seguidores na Página do IRD.
Fonte: Página do IRD no Facebook, 2019.
Novamente de acordo com a TAR e a ADD, o IRD como elemento portador de memória, promove o entrelaçamento de diversos signos e eventos: “palestras educativas”; oferece visitas técnicas e diversas outras atividades que fomentam uma cultura de
radioproteção. Para tanto, deve-se entrar no site institucional e encaminhar um formulário com a(s) área(s) de interesse e data sugerida. Pode-se solicitar palestras de seus profissionais por meio de seu e-mail52; acessar seu site53, sua página no Facebook ou outras plataformas
citadas na subseção 1.3.2. Essas interfaces disponibilizadas e atividades parecem ter o intuito principal de popularizar a instituição e promover diferença na vida das pessoas, expressões de engajamento comportamental por parte da instituição.
Na sequência, a figura 33 reitera como a linguagem explicitada pelos usuários pode ser percebida como catalisadora de experiências variadas.
Figura 33 - Exemplo de Linguagem usada por Estudantes, Profissionais e outros Seguidores na Página do CONTER.
Fonte: Página do CONTER no Facebook, 2019.
Continuação da Figura 33 - Exemplo da Linguagem usada por Estudantes, Profissionais e outros Seguidores na Página do CONTER.
Fonte: Página do CONTER no Facebook, 2019.
Com exceção do primeiro comentário, todos os demais foram enunciados por profissionais identificados como técnicos e tecnólogos em radiologia. Ainda que haja informalidade, nota-se um tom de explicativo nos enunciados, posicionamentos críticos por meio de conhecimentos técnico-científicos, porém sem isenção de preconceitos. No quarto comentário: “não duvido nada de que foi um técnico de saúde bucal [...]”; e no caso do penúltimo, um seguidor afirma “[...] todos sabem que os tubos [...] não possui [sic] elementos radioativos. [...]”. Parece difícil se convencer dessa generalização absurda, tanto que alguém rebateu. Observa-se que numa aparente ressonância de engajamento esses usuários, tenderam a engendrar diálogos permeados por rótulos e agressões verbais. O engajamento cognitivo, forma como os conteúdos são lidos e compreendidos, e o comportamental caracterizado pela iniciativa desses seguidores, os promove a atores nesse processo de divulgação científica.
Nesse sentido, Vygotsky (1991) e Bakhtin (2006) apontam a importância da linguagem no desenvolvimento dos sujeitos à medida em que possibilita a expressão e organização do pensamento, e propicia a continuidade entre o que se convencionou chamar de simbólico e material. Nesse processo aqueles seguidores também atentaram para aspectos relevantes do ponto de vista do técnico-científico: os raios X são produzidos somente enquanto o equipamento estiver ligado e não depende de material radioativo.
A análise desse primeiro grupo de características dos conteúdos postados nas páginas institucionais no Facebook evidencia que os seguidores podem compartilhar signos e mensagens, mas não necessariamente sentidos considerados vitais, aqueles com intencionalidade educativa ou científica, até porque não falam só por si. Do imbricamento entre humanos (seguidores) e não humanos (páginas, Facebook etc.), um fala no/com/pelo outro, os seguidores são mobilizados por diversos discursos permeados por interesses e valores ideológicos.
5.2 Conteúdos Postados no âmbito da Física das Radiações nas Páginas do CIN,