Para realizar as análises dos textos que compõem o corpus, utilizo primordialmente três diferentes modelos analíticos que, apesar de distintos, julgo complementares entre si. Todos os modelos utilizados baseiam-se em uma visão crítica da linguagem e da ciência da linguagem; e a escolha de três modelos diferentes justifica-se pelo enriquecimento que, em conjunto, eles oferecem em termos de respostas e em termos de possibilidades de interpretação.
O primeiro modelo é oferecido por Fairclough (2003), que sustenta que os textos de forma geral são divididos em três significados interconectados, porém passíveis de distinção para fins analíticos. São eles: o significado acional, o significado representacional e o significado ideacional. O significado acional, segundo Fairclough (2003), compreende uma faceta do discurso nas práticas sociais. Ou seja, uma das formas por meio da qual o discurso opera é através do agir. Desta forma, o discurso é ação, agimos por meio dele constantemente. Já no caso do significado representacional, o discurso figura como forma de representação. Diferentes pessoas, portanto, representam diferentes ‘visões’ de mundo em consonância com a posição que ocupam em determinada sociedade. Por fim, o significado ideacional refere-se ao modo de ser, a como os indivíduos constituem suas identidades sociais ou individuais.
Optei pela abordagem analítica de Fairclough (2003) por acreditar que a recontextualização5 proposta por ele agrega valor às análises, que além do enfoque linguístico são ampliadas para abranger o enfoque social. Com isso, acredito ser possível melhor compreender a estruturação social a partir da análise de textos resultantes de eventos discursivos particulares, a rede de práticas que se relacionam e eles, a fim de lançar luz sobre relações desiguais de poder (representação preconceituosa de pessoas em situação de pobreza, legitimação do uso da violência e ressignificação da violência como algo risível).
5 O método de pesquisa social qualitativa que utilizo para analisar os dados está de acordo com a proposta de
Fairclough (2003), que, ao se basear na Linguística Sistêmico-Funcional (funcionalismo hallidayano), reorganizou-o a fim de abordar o discurso a partir dos três tipos de significados.
Nesta pesquisa, o foco da investigação está centrado no significado representacional. É nosso intuito explorar a representação dos atores sociais -- agressor e
vítima; investigar a representação da motivação de cada ato de violência e verificar como
são representados os próprios atos de violência enquanto eventos sociais, buscando sempre por padrões de representação. O fato de o significado representacional ser meu foco de análise não implica que os significados acional e identificacional serão excluídos da análise, uma vez que os três significados atuam simultaneamente de forma dialética.
O segundo modelo encontra-se proposto em Van Leeuwen (2008), e é denominado
inventário socio-semântico. Nesse modelo são elencadas categorias específicas para análise
de representação discursiva de práticas sociais, por meio de operações linguísticas específicas. Considero útil a contribuição do modelo de van Leeuwen, pois de certa forma ele aprofunda, em termos analíticos, o debate acerca da questão da representação em Fairclough (2003).
O último, mas nem de longe o menos importante dos modelos, é o de Thompson (2009), no qual se propõem cinco modos gerais através dos quais a ideologia pode operar, explicitando algumas maneiras de como o sentido pode servir para estabelecer e sustentar relações de dominação. Esse modelo torna-se útil, pois permite analisar como formas simbólicas são transmitidas de modo estratégico e velado, o que contribui para a análise das ideologias subjacentes aos textos analisados, imbricadas nas representações de atores e eventos sociais, conforme poderemos perceber no capítulo analítico.
Os dois primeiros modelos constituem ferramentas para análise linguística de textos; das representações de atores sociais e eventos sociais (ou “ações sociais” nos termos de van Leeuwen) dentro da prática discursiva investigada, que é a representação preconceituosa de pessoas em situação de pobreza texturizada nas notícias policiais da seção Boletim de Ocorrência do Maskate. O último modelo servirá de ferramenta para análise dos modos de operação específicos das ideologias subjacentes.
Apesar de oriundo de uma perspectiva plural quanto à variedade de modelos, numa espécie de triangulação analítica, as categorias que nortearam esta pesquisa são coerentes pela complementaridade que cada diferente perspectiva agrega à análise e pela consonância teórica que sedimenta o conjunto dos três modelos analíticos.
Ao iniciar este trabalho, meu foco era a questão da representação. Entretanto, optei por incluir categorias que dizem respeito aos significados acional e identificacional elaborados em Fairclough (2003). O acréscimo desses significados (e respectivas categorias) justifica-se por dois motivos.
O primeiro deles refere-se ao imperativo de traçar o perfil da publicação e da seção analisada, de forma a delimitar as características gerais do jornal e do gênero investigado. Para isso, julguei pertinente a análise (ainda que não aprofundada) do significado acional em termos de como os textos do Boletim de Ocorrência convergem e divergem do potencial genérico notícia policial. Por isso a inclusão da categoria estrutura genérica.
O segundo motivo está relacionado ao fato de que leituras preliminares dos dados sinalizaram para uma recorrência de modalizações e avaliações no que diz respeito às representações de atores e eventos. É nesse contexto, das representações, que pretendemos realizar a ponte entre os significados representacional e identificacional, de forma a mapear o quanto o autor se compromete com as representações que elabora e como ele avalia os atores e as ações representadas nos textos.