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Dans le document by Greg Harvey (Page 109-112)

Ao longo da obra, o narrador, a par das intrigas principais, relata o quotidiano dos elementos das seis famílias, colocando na voz de alguns deles o questionamento sobre a vida e a condição humana. Para estas reflexões, o maior contributo sairá dos diálogos entre Abel

Nogueira e o sapateiro Silvestre. Depois de fazerem uma breve resenha das suas histórias de vida, Silvestre comenta a importância da experiência e refere que “a vida tem muitos tentáculos [...] e por mais que se cortem, há sempre um que fica e esse acaba por agarrar.” e Abel acrescenta que tem “a sensação que a vida está por detrás de uma cortina a rir às gargalhadas dos nossos esforços para conhecê-la” (CLA, 106). Este é o ponto de partida para outras conversas. Abel, o jovem que guia a sua vida com ideais de liberdade e recusa deixar- se prender pelos tentáculos da existência, vê em Silvestre a projeção do homem que virá a ser no futuro. Por outro lado, o sapateiro encontra no seu inquilino as características e os sonhos que nortearam a sua juventude. Os seus diálogos quase diários colocam em evidência a necessidade de questionamento sobre o sentido da vida e dos valores que a suportam. A preocupação central destas duas personagens seria a própria existência humana e a importância do Homem nas decisões que toma, construindo um novo mundo que entraria em choque com a tradição.

As conversas fluem e, dias mais tarde, a propósito dos livros de Abel e do seu questionamento sobre a utilidade dos mesmos, Silvestre refere: “Penso que fez bem em lê- los... Quantos levam a vida sem descobrir que são inúteis? No meu entender, só pode ser verdadeiramente útil quem já sentiu que era inútil. Pelo menos, não corre tanto risco de voltar a sê-lo...” (CLA, 223), referindo que, mesmo quando os atos são inúteis, eles transportam alguma aprendizagem. Mais adiante, novamente a experiência de vida é focada metaforicamente:

“Só quero dizer que aquilo que cada um de nós tiver de ser na vida, não o será pelas palavras que ouve nem pelos conselhos que recebe. Teremos de receber na própria carne a cicatriz que nos transforma em verdadeiros homens. Depois é agir.”

(CLA, 223) No excerto acima evidencia-se a severidade da experiência. O recurso aos nomes “carne” e “cicatriz” sublinha ainda mais a crueza dos atos que levam à aquisição dessa mesma experiência.

No último capítulo, quando se despede dos seus senhorios, Abel faz uma última reflexão:

“A vida é uma luta de feras, a todas as horas e em todos os lugares. É o «salve-se quem puder», e nada mais. O amor é o pregão dos fracos, o ódio é a arma dos fortes. Ódio aos rivais, aos concorrentes, aos candidatos ao mesmo bocado de pão ou de terra, ou ao mesmo poço de petróleo. O amor só serve para chacota ou para dar oportunidade aos fortes de se deliciarem

com as fraquezas dos fracos. A existência dos fracos é vantajosa como recreio, serve de válvula de escape.”

(CLA, 319) O “rapaz” conclui, assim, que a felicidade e o bem-estar do homem não dependem apenas dele. As influências exteriores assumem uma enorme importância, ultrapassando, por vezes, a vontade dos homens, tal como aconteceu a Abel que, depois de ser vítima de uma injustiça - a carta difamatória de Caetano - se vê obrigado a mudar o rumo da sua vida, embora não tivesse sido essa a sua escolha.

Nesse mesmo diálogo, Silvestre afirma que “O Homem, com H grande, como às vezes leio nos jornais, é uma mentira, uma mentira que serve de capa a todas as vilanias. Toda a gente quer salvar o Homem, ninguém quer saber dos homens.” (CLA, 321), reforçando a ideia da existência de uma suposta inquietação geral com a humanidade em detrimento do homem enquanto indivíduo e elemento de uma sociedade. É a preocupação com o bem comum que leva a que a individualidade de cada um seja deixada para trás. A esta afirmação segue-se o diálogo já referido aquando da análise dos aspetos paratextuais:

“- Vivemos entre os homens, ajudemos os homens. - E o que faz o senhor para isso?

- Conserto-lhe os sapatos, já que nada mais posso fazer agora.”

(CLA, 321) Com a última afirmação, Silvestre anuncia o papel de cada homem deve ter na sociedade. É a ação individual que pode levar a um feito coletivo. A última conversa, uma espécie de despedida, acaba por conter uma súmula de todos os serões e de todas as reflexões entre Abel e Silvestre.

Apesar de todas estes diálogos e pensamentos reflexivos assumirem uma grande importância na obra, eles não são exclusivos do “filósofo sapateiro” e do “rapaz”. Também outras personagens assumem o papel de agitadores de consciências ao serem portadoras de ideias que, mais uma vez, colocam o leitor a questionar a existência humana, desta vez por via das irmãs Adriana e Isaura, que discutem os conceitos de “bom” e “mau”, na sequência da constatação dos gostos musicais da sua vizinha Maria Cláudia:

“Mas entendo que toda a gente devia ser capaz de separar o trigo do joio. O que é mau, de um lado; o que é bom, do outro.

Cândida, que retirava os pratos do armário, ousou contrapor:

— Não pode ser. O mal e o bem, o bom e o mau, andam sempre misturados. Nunca se é completamente bom ou completamente mau. Acho eu — acrescentou timidamente.

— Não é confusão, é a verdade. Há música boa e música má. Há pessoas boas e pessoas más. Há o bem e o mal. Qualquer pode escolher...

— Era bom, se assim fosse. Muitas vezes não se sabe escolher, não se aprendeu a escolher... — Diz é que há pessoas que só podem escolher o mal, porque são mal formadas por natureza! [...]

— Não sabes o que estás a dizer. Isso só pode acontecer quando as pessoas são doentes do espírito. Ora, nós estamos a falar de pessoas que, segundo o que dizes, podem escolher... Um doente assim não pode escolher!”

(CLA, 73)

As irmãs acabam por concluir que quem não aprecia as coisas belas da vida é, com certeza, doente, mal formado, uma vez que não teve a oportunidade de aprender a fazer as melhores escolhas.

Outra reflexão que se integra na temática da condição humana, sobre a felicidade e a oportunidade de a viver em pleno, surge da mente de Emílio que, ao acompanhar o seu filho doente, começa um diálogo que se transforma num longo monólogo:

“Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo.[...] quanto mais forte for o teu desejo de felicidade, mais infeliz serás.”

(CLA, 90). Emílio já aqui tinha sido anteriormente referenciado pela sua aproximação à personagem Ricardo Reis. Mais uma vez, a efemeridade da vida, com o estoicismo e epicurismo como pano de fundo, está na base deste pensamento do caixeiro-viajante.

José Saramago mostrou ao longo da sua vida, não só através da sua obra, mas também dos seus atos, a preocupação e o questionamento do mundo, sem amarras a conveniências ou consensos. Assim, a sua obra é marcada por uma constante preocupação com os conflitos humanos, conduzindo a várias reflexões sobre a condição humana e a sociedade.

Maria Alzira Seixo já havia afirmado, a propósito da obra Poemas Possíveis, em 1987, mais de uma década antes da obtenção do Prémio Nobel, que

“o sofrimento humano, o desengano, toda uma constelação temática da impossibilidade vão articular-se intimamente com a problemática liminar do encontro da arte, da invenção do sentido poético, do lampejo fugaz que pode fazer vibrar liricamente a palavra”.

(Seixo, 1987: 08) A obra Alabardas Albardas Espingardas Espingardas (2014), obra em que o escritor trabalhava antes de morrer, incompleta e publicada postumamente, foca a atenção numa fábrica de armamento e no seu funcionário Artur Paz Semedo que enfrenta uma luta moral.

Partindo do facto de nunca ter existido uma greve numa fábrica de armamento, o narrador conduz o leitor ao questionamento dos interesses ocultos por detrás dos conflitos internacionais. Confirma-se assim que, até ao momento da sua morte, nunca este autor deixou de questionar o mundo e, principalmente, a forma como os homens o tratavam e se tratavam.

Dans le document by Greg Harvey (Page 109-112)

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