SENS FINAL
4. L’exposition Zones de confluence dans la biennale Villette Numérique
4.2. Les installations numériques exposées dans Zones de confluence
O estudo de Ryff (1989a) aquando do seu desenvolvimento, além de outros propósitos, pretendeu colmatar algumas das lacunas existentes na literatura acerca do funcionamento psicológico positivo e complementar a abordagem do bem‐estar subjectivo unicamente delimitado pelo equilíbrio afectivo e satisfação com a vida (Andrews & Withey, 1976; Bradburn, 1969; Campbell, 1981; Diener, 1984; Diener et al., 1985a, 1985b; Wilson, 1967). Neste ponto, compreende‐se, então, que a autora não pretendeu ignorar os estudos e modelos já existentes, mas sim, apresentar uma concepção alternativa sustentada na integração de diversos domínios teóricos previamente formulados.
A investigação inicial centrada no desenvolvimento do modelo teórico e validação das EBEP (Ryff, 1989a, 1989b, 1989c) providenciou suporte para a validade convergente e divergente em relação a outras escalas previamente validadas. Além disto, a análise factorial efectuada permitiu compreender a agregação das dimensões de bem‐estar do modelo PWB no que concerne a outros índices de bem‐estar. Assim, o primeiro factor obtido incluiu grande parte dos índices já existentes (e.g. satisfação com a vida, equilíbrio afectivo, moral e auto‐estima) e as dimensões aceitação de si e domínio do meio; o segundo factor envolveu as dimensões objectivos na vida, crescimento pessoal e relações positivas com os outros; por fim, emergiu o terceiro factor que englobou a autonomia e outras duas escalas de auto‐controlo. Esta matriz multifactorial que sustentou a importância
conceptual e empírica das dimensões de bem‐estar propostas neste estudo foi replicada ulteriormente através de uma análise factorial confirmatória, em que um dos modelos que revelou índices de adequação satisfatórios permitia a carga factorial da aceitação de si e do domínio do meio no factor bem‐estar subjectivo, reduzindo assim a covariância entre o modelo SWB e PWB (Keyes et al., 2002, p. 1014). Desta forma, verifica‐se que as dimensões de bem‐estar acima referenciadas aproximam‐se da delimitação do bem‐estar emocional (hedonismo), pelo que as restantes (crescimento pessoal, objectivos na vida, autonomia e relações positivas com os outros) reflectem aspectos do bem‐estar menosprezados na literatura (eudaimonia), contribuindo para um conhecimento mais abrangente do funcionamento psicológico positivo (Compton, 2001; Compton et al., 1996; Keyes et al., 2002; Ryff, 1989a, 1989b, 1995; Ryff & Keyes, 1995; Ryff & Singer, 1996, 1998a, 1998b; Waterman, 1993).
Inerente à dinâmica psicológica, um dos construtos usualmente propostos para a promoção
do bem‐estar é o de “atenção vigilante” (mindfulness). Usualmente, traduz‐se num estado de atitude conscienciosa do esquema corporal e percepções/cognições vigentes no dado momento em que ocorre, i.e., o indivíduo demonstra elevados níveis de vigilância (awareness) e atenção (attention) na realidade e experiência fenomenológica presente (Brown & Ryan, 2003; Ryan & Brown, 2003). Este conceito surge em oposição ao de mindless que é caracterizado por uma “ausência” de um processamento activo/intencional de informação intra‐individual e contextual. O estudo supra‐citado de K. Brown e R. Ryan desenvolveu uma escala de “atenção vigilante” e através de análises correlacionais permitiu verificar associações moderadas e positivas (coeficientes de correlação entre 0.28 e 0.68) com as escalas autonomia, domínio do meio e relações positivas com os outros do modelo de Ryff (1989a, 1989b). Dado que os itens da escala criada “…does not contain well‐being
related content” (Brown & Ryan, 2003, p. 833), os resultados obtidos sugeriram uma relação inclusiva
e abrangente entre as dimensões estudadas, afirmando a importância da promoção do bem‐estar psicológico ocorrer de modo contínuo, proactivo e através de elevados níveis de consciência intra‐ individual e situacional (Fava & Ruini, 2003).
Reconhecendo a obesidade como uma das doenças com maior índice de prevalência actual
(USDHHS, 1998), uma das preocupações dos investigadores foi a ocorrência de processos de estigmatização a indivíduos obesos, considerando que o processo de estigma quanto à obesidade inclui as acções dos indivíduos e membros de instituições sociais que denigrem e excluem, assim
como, as reacções de pessoas com elevados níveis de obesidade. Utilizando os dados provenientes do MIDUS que incluiu a forma das EBEP de 18 itens, Carr e Friedman (2005) analisaram a influência de atitudes discriminantes para com o indivíduo obeso e possíveis relações com suas autopercepções negativas, baseando‐se no princípio de que membros de um dado grupo social que sejam estigmatizados tendem a percepcionarem‐se negativamente e incorporam essas atitudes negativas no seu auto‐conceito. Dos dados analisados emergiram dois resultados fulcrais. O primeiro demonstrou que os indivíduos com maiores níveis de obesidade (avaliada pelo índice de massa corporal) revelaram menores níveis de aceitação de si em comparação com os indivíduos com peso normal, sendo essa discrepância atribuída a crenças de relações interpessoais incorrectas e nefastas devido ao peso e/ou aparência física. O segundo resultado corroborou o anterior numa perspectiva global, salientando que esses mesmos indivíduos percepcionam maiores níveis de discriminação social nos demais domínios de vida (geral, interpessoal e laboral). Perante estes efeitos, os autores do estudo salientaram que a promoção da saúde pública referente à obesidade deve igualmente contemplar uma preocupação quanto aos indivíduos que efectuam práticas discriminatórias, na medida em que podem inferir na minimização dos aspectos volitivos dos indivíduos obesos para emagrecerem.
Reorientando o objecto de estudo para uma abordagem intra‐individual, Ryff (1989b) aquando da sua formulação inicial do modelo PWB alertou para o facto de algumas das dimensões do bem‐estar estarem relacionadas com algumas das características da personalidade: “…openness
to experience, for example, is a key characteristic of the fully functioning person” (p. 1071). Contudo,
conceptualmente, a personalidade e o bem‐estar representam construtos distintos, pelo que os traços de personalidade usualmente descrevem as propensões individuais para com um padrão estável de comportamentos e pensamentos, ao contrário do bem‐estar que se espera que se altere em refutação às práticas desenvolvimentistas e eventos da vida através de um processo individual avaliativo – i.e., o bem‐estar representa um estado psicológico expressamente pretendido (Schmutte & Ryff, 1997). Assim, a personalidade refere‐se às diferenças individuais dos pensamentos, sentimentos e comportamentos verificados de um modo consistente, pelo que essas discrepâncias influenciam o modo como os indivíduos solucionam e adaptam‐se a qualquer desafio de vida. Idêntica à investigação acerca do bem‐estar, verifica‐se que a pesquisa acerca da influência da personalidade nas reacções afectivas aos eventos de vida tem‐se centrado consistentemente numa
abordagem negativa, quer seja em termos das transições de vida, quer seja pela dimensão afectiva estudada, menosprezando, assim, os aspectos da personalidade inerentes à saúde mental positiva (Kling, Ryff, Love & Essex, 2003).
Dada a investigação anterior ter‐se centrado primordialmente nas experiências de vida e influência dos aspectos demográficos na determinação do bem‐estar (Heidrich & Ryff, 1993; Ryff & Essex, 1992; Ryff et al., 1994), Schmutte e Ryff (1997) pretenderam analisar as relações entre a personalidade e o bem‐estar psicológico em 225 indivíduos adultos, recorrendo para o efeito ao NEO‐PI‐R e às EBEP. Os dados obtidos permitiram perceber que a relação entre os cinco traços de personalidade analisados e as seis dimensões de bem‐estar psicológico é algo complexa, na medida em que se obtiveram correlatos distintos entre estas variáveis, mesmo após o controlo do conteúdo afectivo e similitude nocional dos itens. As autoras constataram que a aceitação de si, domínio do meio e objectivos na vida correlacionaram‐se com o neuroticismo, extroversão e conscienciosidade; o crescimento pessoal relacionou‐se com a abertura à experiência e extroversão; as relações positivas com os outros associaram‐se à amabilidade e extroversão; e, a autonomia correlacionou‐se com o neuroticismo. Tal como se verificou para as dimensões do bem‐estar subjectivo (e.g. DeNeve & Cooper, 1998), os traços de personalidade extroversão e neuroticismo emergiram como os mais importantes e consistentes predictores do modelo PWB, pelo que, todavia, Schmutte e Ryff (1997) sugeriram que globalmente, “…these dimensions of psychological well‐being are distinct from, yet
meaningfully influenced by personality” (p. 557). Mais ainda, o presente estudo demonstrou a
importância de considerar o bem‐estar enquanto dimensão multidimensional na investigação com os traços de personalidade, ao contrário do sugerido por Costa, McCrae e Zonderman (1987).
Recorrendo a outro instrumento de avaliação da personalidade (Tridimensional Personality
Questionnaire), Ruini et al. (2003) analisaram a relação do bem‐estar com os traços de personalidade
(dependência de recompensa, evitamento de dano e procura de novidades) e o distress psicológico. Utilizando para o efeito uma amostra de 450 indivíduos italianos (idades compreendidas entre os 18 e os 85 anos), os autores verificaram através da análise factorial exploratória que as dimensões do modelo PWB agregaram‐se num factor distinto do distress e personalidade, à excepção da autonomia, crescimento pessoal e relações positivas que igualmente saturaram significativamente no factor das dimensões da personalidade procura de novidades (novelty seeking) e dependência de recompensa (reward dependence). Outro resultado digno de saliência foi a baixa e negativa
correlação entre as escalas de distress e o bem‐estar, o que mais uma vez reforça a posição de que não é conceptual, nem metodologicamente correcto, assumir o bem‐estar psicológico enquanto ausência de distress. Na medida em que as dimensões do modelo PWB carregaram num factor diferente dos traços de personalidade, os autores sugeriram que as variáveis do bem‐estar psicológico representam uma predisposição alusiva ao óptimo funcionamento positivo, i.e., as componentes do bem‐estar reflectem avaliações subjectivas do indivíduo e da sua vida e não unicamente uma referência a característica peculiares e pessoais da personalidade.
Embora alguns autores contemplem a auto‐estima como um dos predictores mais
importantes do bem‐estar (e.g. Diener, 1984) e o modelo PWB seja constituído por uma dimensão que possuir um elevado grau de semelhança teórico‐conceptual (aceitação de si), as análises correlacionais e factoriais entre estas medidas de avaliação da saúde mental revelam que ambas dimensões evidenciam características comuns (r=0.68) ao nível do bem‐estar subjectivo, que todavia deixam de existir aquando da contemplação das características de crescimento pessoal existentes no modelo PWB (Compton et al., 1996) 19. Compton (2001) aprofundou os objectivos do estudo anterior acrescentando‐lhe dimensões de natureza religiosa e analisando o bem‐estar psicológico através das suas dimensões, o que possibilitou perceber o tipo de relação diferenciado entre estas e a auto‐ estima. A análise factorial do conjunto de medidas permitiu identificar que a auto‐estima agregou‐se conjuntamente com as dimensões aceitação de si, objectivos na vida e domínio do meio no primeiro factor, ao passo de que as restantes dimensões (autonomia, crescimento pessoal e relações positivas com os outros) saturaram significativamente em outros factores, indicando que as medidas prévias de bem‐estar limitavam‐se a avaliar a satisfação com a vida e a felicidade e negligenciavam facetas importantes do funcionamento psicológico e saúde mental (Novo, 2003; Waterman, 1993). Este conjunto de dados vai de encontro à análise correlacional e factorial de índices de bem‐estar efectuada por Ryff (1989b), tendo a auto‐estima demonstrado níveis mais elevados de correlação com a aceitação de si (r=0.62), domínio do meio (r=0.55) e objectivos na vida (r=0.49).
Um estudo que contribuiu para a compreensão da relação complexa entre a auto‐estima e o
modelo PWB foi o de Paradise e Kernis (2002), em que a auto‐estima não foi avaliada somente a
19
Convém referir que os autores do presente estudo incluíram as EBEP enquanto modo de análise do bem‐estar psicológico global, tendo este construto agregando‐se simultaneamente no primeiro (bem‐estar subjectivo) e segundo (crescimento pessoal) factor.
nível global, mas também a respeito da sua estabilidade (i.e., magnitude de alteração dos níveis de auto‐estima momentâneos/situacionais). Esta investigação permitiu identificar interacções entre o nível e a estabilidade da auto‐estima para as dimensões aceitação de si, relações positivas com os outros e crescimento pessoal. No global, indivíduos com maiores níveis de auto‐estima reportaram níveis superiores de autonomia, domínio do meio, objectivos na vida, aceitação de si, relações positivas e crescimento pessoal. Contudo, referente à estabilidade, pessoas com níveis mais estáveis de auto‐estima evidenciaram mais autonomia, domínio do meio e objectivos na vida, enquanto níveis mais instáveis de auto‐estima relacionaram‐se com menores valores de aceitação de si e relações positivas com os outros. Estes resultados parecem indiciar que “…stable high self‐esteems
have positive self‐feelings that are built upon solid foundations, that do not require continual validation or promotion, and that will be not questioned or threatened when presented with life’s inevitable adversities” (p. 358). Mais do que unicamente comparar níveis diferenciados de auto‐
estima, o presente estudo salienta existirem diferentes relações entre os aspectos do bem‐estar psicológico e a estabilidade da auto‐estima.
2.1.3.4.5 Discrepância entre domínios de satisfação
A educação e a idade enquanto variáveis demográficas isoladas contemplam unicamente características específicas dos indivíduos em análise. Todavia, enquanto coordenadas das estruturas sociais que afectam a qualidade de vida das pessoas, estas variáveis mencionadas retratam‐se em diferentes abordagens de vida através das restrições e oportunidades sociais advindas (Keyes & Ryff, 1998). Na medida em que cada dimensão do modelo PWB indica os desafios que os indivíduos enfrentam à medida que visam viver em pleno e desenvolver as suas capacidades pessoais, a investigação tem procurado determinar as (possíveis) discrepâncias entre os domínios de avaliação pessoal (Robinson & Ryff, 1999; Ryff et al., 1994) e/ou situacional (Ryff & Heidrich, 1997). No primeiro domínio referenciado, os dados da valorização pessoal do sentimento de si em três momentos temporais (passado, presente e futuro) indicaram que, no global, as pessoas tendem a crer que serão mais felizes e estarão mais satisfeitas com vários aspectos das suas vidas no futuro, pelo que tal parece dever‐se ao desejo pela incerteza de acontecimentos e à possibilidade de viver novas experiências (Robinson & Ryff, 1999). Esta visão parece ocorrer em supremacia no grupo dos jovens adultos (18 a 24 anos) demonstrando estes uma perspectiva mais positiva/optimista e
alicerçada na abertura a diferentes situações; pelo contrário, os restantes grupos (adultos e idosos) demonstram que o avançar da idade acarreta sentimentos de continuidade que se traduzem em compromissos e papeis sociais mais estáveis.
Estas perspectivas parecem conjugar‐se em dois tipos globais de experiências de vida: aquelas que envolvem situações usualmente atípicas e não planificadas (experiências não‐ normativas) e aquelas subjugadas a transições típicas e planeadas da vida adulta (experiências normativas), constituindo o segundo domínio supradito. Esta dialéctica foi alvo de investigação por parte de Ryff e Heidrich (1997), tendo o último tipo de experiência sido diferenciado de acordo com os domínios de vida trabalho/escola, família/amigos e lazer. Mais uma vez, constataram‐se diferenças por idade, tendo o grupo de jovens adultos enfatizado a importância dos eventos não‐ normativos e experiências passadas de vida como factores que mais contribuíram para as variações de bem‐estar (especialmente as dimensões objectivos na vida e crescimento pessoal). Por outro lado, as relações com a família e amigos e as experiências de vida a nível laboral/escolar influenciaram, em maior magnitude, os níveis de bem‐estar psicológico dos indivíduos adultos e idosos, respectivamente. Estes efeitos de diminuição da variabilidade da influência dos domínios de vida nas percepções de bem‐estar vão de encontro aos resultados do estudo de Ryff (1991), em que se verificou que foram primordialmente as faixas etárias mais jovens que reportaram consideráveis melhorias nas suas autopercepções ao longo da vida, em oposição à estabilidade referenciada pelos idosos (de acordo com níveis de bem‐estar mencionados anteriormente). Assim, à medida que envelhecem, parece evidente que as pessoas atingem um maior nível de adequação entre as suas autopercepções actuais e ideais (futuras), pelo que a saúde mental positiva não inclui somente a percepção de níveis de funcionamento psicológico num dado presente, como também, a percepção de melhoria (ou manutenção) do bem‐estar passado e percepção similar relativa ao futuro.
Perante a análise das contingências e estruturas sociais, Singer, Ryff, Carr e Magee (1998) propuseram a utilização de uma estratégia metodológica de investigação centrada na delimitação das componentes essenciais de vida associadas à saúde mental. Retomando e “importando” a visão centrada na pessoa proposta por Rogers (1946, 1951, 1952), os autores mencionados anteriormente sugeriram o emprego de uma estratégia centrada na pessoa (person‐centered strategy), em que o indivíduo é entendido como a unidade de análise e as suas histórias de vida (análise narrativa) como processo de obtenção de dados (abordagem inclusiva das perspectivas de análise ideográfica e
nomotética). Desta forma, o objectivo de investigação foi conduzir uma pesquisa acerca da história de vida com base numa abordagem que não é unicamente restrita a estudos de caso, mas que é igualmente apropriada para uma análise de dados de amostras de grandes dimensões – a pessoa como unidade de análise num contexto de inquérito nomotético. Os principais resultados obtidos indicaram que, a posição de uma pessoa numa dada hierarquia sociocultural induz efeitos específicos na saúde mental, e que reacções apropriadas à adversidade (e.g. capacidade de resiliência) influenciam, favoravelmente, o modo de percepção/avaliação das experiências de vida.