As categorias discursivas como semântica (global, local e sequencial), estruturas como narrativas e escolhas lexicais dos atores sociais também nos dão pistas de como compreender o gerenciamento do conhecimento.
Quando um ator social está envolvido em uma interação, uma interpretação é criada em sua mente. Esse processo de construção de um modelo mental situacional é chamado de processo de compreensão a partir do qual surgem as proposições do discurso.
Tais proposições são provenientes de uma lista inicial criada no modelo mental, e se coerente, há automaticamente uma relação com aquele discurso. Há uma comparação incessante dos modelos mentais com a situação semântica.
Um exemplo do processo acima é quanto à habilidade de um ator social reproduzir um conhecimento de vocabulário. O uso de um termo lexical proposto demonstra a compreensão do discurso. Há uma seleção da informação relevante daquilo que foi apresentado e, portanto, uma construção mental do discurso. Obviamente que não devemos descartar a interface cognitiva que introduz diferenças individuais provenientes de experiências, preferências e intenções.
Van Dijk (2014) dedica um capítulo inteiro às categorias discursivas e seria tarefa impossível descrevê-las todas aqui. Elencamos, no quadro abaixo, algumas que consideramos mais relevantes.
Quadro 5: Categorias Discursivas
Expressões multimodais Sons: entonação, ritmo, velocidade. Gestos, olhar, postura corporal Visuais: cor, perspectiva, ângulos Sintaxe oracional Ordem e categoria das palavras
Estrutura funcional Pronomes
Predicados Argumentos Quantificadores Modalidade
Distribuição da informação (tópico, foco) Metáforas
Evidencialidade (fonte confiável) Implicaturas e pressuposições Semântica sequencial Referenciação e coerência Semântica global Descrições globais (polarização)
Macroestruturas: tópicos Enquadres
Estruturas Globais formais Estruturas narrativas Estruturas convencionais Estruturas Retóricas Sons e sentidos (aliterações) Estruturas pragmáticas Dêixis, indexicalidade, polidez
Estruturas conversacionais Análise epistêmica: quem tem acesso, direito, voz para contar.
Fonte: Quadro elaborado a partir da leitura de van Dijk (2014).
A sociedade da informação, repleta de novos meios de comunicação, traz uma nova linguagem que, no Ocidente, pode, em sua maioria, estar baseada no lucro. Apesar de todos poderem postar suas mensagens nas mídias sociais, as elites simbólicas também trabalham para estarem presente nas interações. No entanto, não sabemos ainda as consequências dessas relações sociais, apenas sabemos que as novas relações sociais estão se definindo em espaços virtuais e que essas estão se consolidando por meio daquilo que consumimos. A construção do modelo mental se dá, então, em experiências vividas não em espaços reais e sim em real-time (tempo real).
Gostaríamos de fazer uma ressalva quanto ao termo “Ocidente” que empregamos neste trabalho. Para isso apoiamo-nos no trabalho de Stuart Hall que explica que
o “Ocidente” é uma construção histórica e não geográfica. Por “ocidental” queremos dizer o tipo de sociedade que é desenvolvida, industrializada, urbanizada, capitalista, secular e moderna (HALL, 2000, p.186).36
Isso sugere que, ao longo do tempo, uma forma específica de modelos mentais e de uso de discurso foi se formando para criar um tipo de sistema de representação social do que vem a ser Ocidente. Há obviamente sociedades que poderiam ser representadas como ocidentais (Japão por exemplo), mas às quais nos referimos como orientais.
É evidente que essa representação polariza o discurso ideologicamente criando uma certa generalização adotada pelos grupos quando se analisa discursos sobre os mulçumanos, chineses, entre outros. Como explica Hall,
é exatamente o que o discurso faz. Representa coisas que de fato são diferenciadas (as culturas diferentes Europeias) como sendo homogêneas (o Ocidente). Afirma que essas diferentes culturas são unidas por uma coisa: que são diferentes do Resto (HALL, 2000, p.189). 37
Essa homogeneidade se expandiu junto ao Cristianismo que remonta ao Império Romano, e, apesar de o Ocidente ser composto por outros países incluído aqueles das Américas, que são dotados de extremas diferenças culturais, o Ocidente manteve raízes fortemente cristãs.
O discurso, a forma como é apresentado nos novos espaços anteriormente citados, constrói a memória discursiva que vai sendo sedimentada pelos enunciados. A aparente liberdade de escolha do sujeito é acobertada por relações opacas e difusas. O sujeito pode tornar-se passivo diante de tantos “Discursos” e perder-se diante da velocidade das informações.
36The “West” is a historical, not a geographical construct. By “western” we mean the type of society that
is developed, industrialized, urbanized, capitalist, secular, and modern.
37 This is what discourse does. It represents things which are in fact very differentiated (the different
European cultures) as homogeneous (the West). And it asserts that these different cultures are united by one thing: the fact that they are all different from the rest.
Existem infinitas formas de como interagir com o discurso. O discurso pode ser direcionado diretamente àquele que ouve, ao “recipiente”38 por meio de gestos, olhares e escolha lexical da segunda pessoa. Mas o “recipiente” pode também ter outras formas de se relacionar com o discurso nas quais a percepção, o conhecimento partilhado influencia diretamente na produção discursiva. Assim, um discurso veiculado pela internet, por exemplo, não necessariamente gera o resultado preterido pelo produtor, mas a própria prática dos participantes torna-se uma ferramenta de análise parcial, visto que temos acesso a comentários, vídeos, twits, etc.
Como as diferentes formas de discurso empregam estratégias multimodais, a ACD está cada vez mais vinculada a essa nova disciplina chamada por autores como van Leeuwen e Kress (2001, 2006) de Multimodalidade. Os vários modos compõem um discurso, desde a escrita, fonte, música, olhares, e outros signos incorporados como gestos, olhares e posição corporal que são estudados em seu conjunto na semiótica do discurso. Podemos dizer qual modo é mais importante para um discurso? Os recursos semióticos constroem significados de diferentes maneiras (re)contextualizando a situação comunicativa. Para van Dijk isso significa que,
o conhecimento pode ser adquirido, pressuposto e expressado em muitos dessas formas multimodais assim como podem influenciar diretamente a formação de modelos mentais multimodais que usuários de linguagem constroem quando compreendem um discurso (VAN DIJK, 2014, p. 15). Assim como van Dijk apoia-se em várias disciplinas para explicar sua abordagem, explicitando que não se trata de uma teoria, procuramos uma convergência entre as disciplinas em uma tentativa de encontrar uma abordagem que possa abarcar melhor a análise crítica do discurso de anúncios veiculados nos novos meios de comunicação e nos ajudar a relatar melhor o impacto dessas novas relações. Por isso dedicamos o próximos tópicos aos estudos da Multimodalidade e à Representação Social para demonstrar a construção de significado na relação verbo-visual.
38 Van Dijk, em sua última obra Discourse and Knowledge (2014) emprega o termo “recipientes” para aqueles envolvidos em interações de comunicações. Empregamos também sem fazer distinção entre atores sociais e participantes.