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Na Monografia (Andresen, 2001), a autora, a seguir a uma cronologia dos trabalhos realizados por Francisco Caldeira Cabral, apresenta uma listagem de “Written works by Francisco Caldeira Cabral”. A tradução direta e literal para português – trabalhos escritos – traduz verdadeiramente o que são estes textos que acabámos de trabalhar. Estamos perante uma obra de arquitetura paisagista, obra escrita de valor e representativa do início desta profissão em Portugal.

No fim desta investigação, gostaríamos de tecer algumas notas finais sobre a obra escrita de Francisco Caldeira Cabral que foi o tema desta dissertação.

O legado escrito é composto por trabalhos escritos muito diversos, de grande atualidade, representativos do despertar da consciência para a conservação da natureza e defesa da paisagem, com uma visão humanista e universal, repetitivos nos seus conteúdos e de importância fundacional para a arquitetura paisagista. De seguida, iremos desenvolver cada uma destas afirmações.

a) A diversidade da obra escrita de Francisco Caldeira Cabral

Os trabalhos escritos estudados são muito diversos, o que provoca alguma hesitação na sua sistematização, mas é simultaneamente essa diversidade uma das suas riquezas. Estamos a falar de um longo período de tempo, de 58 anos de trabalhos escritos, o que resulta numa grande diversidade, quer do tipo de texto, como vimos no capítulo 2, quer do conteúdo, como vimos no capítulo 3. Francisco Caldeira Cabral conseguiu abranger, com conhecimento profundo, as várias dimensões da sua profissão, nomeadamente o projeto nos seus inúmeros aspectos, o ordenamento do território, a conservação da natureza e a gestão dos recursos naturais e culturais. Estes assuntos foram, por ele, estudados e apresentados, quer nos aspetos mais gerais e teóricos, quer nos aspetos mais técnicos e pormenorizados.

Como vimos, podemos consultar um texto de uma aula cujo assunto é o problema da rega em Portugal (sem data), um parecer sobre o Parque Natural da Arrábida (1971), uma comunicação sobre o papel do Jardim Zoológico na difusão de conceitos fundamentais de defesa do ambiente (1973), uma exposição ao ministério da educação sobre o curso de arquitetura paisagista no ISA (1941), uma apresentação sobre o significado da recuperação de sítios e jardins históricos (1988), ou uma conferência sobre

a instalação de novas indústrias em “Paisagem Urbana” (1963). Comunicações apresentadas em vários sítios do mundo, nomeadamente Japão, Alemanha, Espanha, Inglaterra, EUA e Israel.

É interessante verificar que esta abrangência e pormenor, características do legado escrito, são também duas das características que defendia para a profissão - “É uma arte muito subtil, com uma técnica muito apurada e que se apoia numa ciência muito vasta” (“Conversa sobre arquitectura paisagista”, 1966) - ou seja, com visão ampla e capacidade de síntese, mas baseada em dados concretos científicos e detalhadamente estudados.

b) A actualidade (ou modernidade) da obra escrita de Francisco Caldeira Cabral

Salvo pequenas exceções, os textos mantêm grande atualidade e muitas das ideias estão antes do seu tempo, pois já tratava de questões que estão hoje na mesa do debate, como, por exemplo, as hortas urbanas, a necessidade de se voltar à agricultura mais variada, o uso excessivo de químicos nos animais e nas plantas e as suas consequências nefastas no ambiente e no homem, ou a importância de pensar nas gerações vindouras, o que hoje se chamaria a solidariedade entre gerações. E mais exemplos há, como a importância da participação nos projetos e nos planos, muito referida nos textos sobre ensino e profissão, algo que hoje se procura realizar através de várias tentativas no planeamento do território. Ou como a proposta de renovação do jardim português com base nas suas características tradicionais, muitas das vezes de expressiva sustentabilidade, ou a defesa dos espaços verdes como um sistema contínuo na cidade, ou a interdependência entre todos os fatores que influem na paisagem. É também de realçar que nunca refere a palavra sustentabilidade, mas refere a seguinte expressão - “sustento atual e futuro” - que significa a mesma coisa.

c) O contributo da obra escrita de Francisco Caldeira Cabral para o despertar da consciência da proteção e conservação da natureza e da paisagem

Na continuidade do que dissemos anteriormente, Francisco Caldeira Cabral foi, como verificámos, um pionoreiro da arquitetura paisagista, da proteção da natureza e da defesa e promoção da paisagem.

Mas um destaque especial é exigido para a ideia do continuum naturale que influenciou toda uma concretização de conteúdos legais desde das políticas públicas nomeadamente

no domínio da Conservação da Natureza, do Ordenamento do Território e do Ambiente em Portugal, como sejam as Áreas Protegidas (Decreto-Lei nº 613/76), a Reserva Ecológica Nacional (Decreto-Lei nº321/83), a Reserva Agrícola Nacional (Decreto-Lei nº 451/82), e a Lei de Bases do Ambiente (Lei n.º 11/87).

Não poderíamos também deixar de referir o forte envolvimento de Francisco Caldeira Cabral em associações de protecção e conservação da natureza e da paisagem, nomeadamente na Liga para a Protecção da Natureza e na Sociedade de Geografia de Lisboa.

d) A visão humanista e universal

Da leitura atenta dos textos de Francisco Caldeira Cabral, salta à vista um grande conhecimento da natureza humana. Visível, por exemplo, num texto onde refere como se deve abordar a mudança de mentalidades das pessoas que trabalham na função pública, ou noutro em que explica como se deve conversar com o cliente de um projeto de jardim privado. Noutro texto ainda refere as virtudes exigidas para o trabalho de grupo, que tanto defendeu, que dizia serem a simplicidade, a humildade, a generosidade e a coragem para voltar atrás quantas vezes for necessário.

Esta visão humanista também é expressa noutro sentido: referimo-nos ao que Francisco Caldeira Cabral, principalmente nos textos sobre o ensino e a profissão, refere como a importância do arquiteto paisagista desenvolver a consciência de que está ao serviço dos outros e ao serviço do bem comum da humanidade.

E dizemos universal porque o legado escrito foi proferido e está publicado em diversos países do mundo, não podendo esquecer o número de textos ligados ao seu papel na IFLA. Por outro lado, as viagens que fez, na procura da compreensão da paisagem, permitiram-lhe que o seu legado escrito fosse “ilustrado” de exemplos, não só de Portugal, da sua região, mas de vários cantos do mundo.

e) A repetição de conteúdos na obra escrita de Francisco Caldeira Cabral Tal como já foi referido anteriormente, pretendeu-se, no anexo III, analisar esta questão da sobreposição de conteúdos dos diferentes textos. É uma questão fundamental porque, quando se pretender publicar o legado, surgirão com certeza as seguintes perguntas: Qual o texto que se publica ou se divulga? Todos ou só alguns? E dentro de cada temática, qual deles?

Não podemos esquecer que Fundamentos da Arquitectura Paisagista (1993) é um livro composto por uma seleção de textos organizados por diferentes temáticas e aí também já estava presente esta questão da repetição de conteúdos entre textos diferentes. Francisco Caldeira Cabral não construiu, com base nos textos soltos, um novo texto sobre cada temática. Esta poderia ter sido uma hipótese na altura (não sabemos) e também pode ser hoje, mas não poderíamos deixar de salientar que realmente não o fez. De facto, cada texto tem a sua particularidade, um parágrafo especial, um exemplo diferente, uma citação.

f) A relevância da obra escrita de Francisco Caldeira Cabral ou a importância da sua divulgação

A definição de trave-mestra é “grande tronco ou madeiro retilíneo, grosso e comprido, usado para sustentar partes elevadas de uma construção (Dicionário do Português Atual, Houaiss, Círculo de Leitores, 1ª edição, agosto de 2011). Fazendo a analogia para o legado escrito de Francisco Caldeira Cabral podemos dizer que estes textos inéditos ou dispersos por diversas publicações são (ou fazem parte) de uma “trave-mestra” para a disciplina da arquitetura paisagista. A síntese das ideias mestras é reveladora deste elemento estrutural, que apesar de em parte ser desconhecido, ou invisível, está presente na teoria e na prática da arquitetura paisagista atual.

Como proposta final, afirmamos que é impreterível que este legado seja divulgado e que tem todas as condições para o ser. Julgamos que a melhor maneira de o fazer será a divulgação de todo o legado escrito de Francisco Caldeira Cabral através de um sítio na Internet e a publicação cuidada de vários textos considerados mais relevantes das ideias mestras ao encontro da proposta construída no âmbito desta investigação e que temos vindo a apresentar.

Com esta investigação, descobrimos a necessidade de vários trabalhos futuros, como já se foi apontando ao longo da dissertação, nomeadamente a integração das memórias descritivas dos projetos e da correspondência de Francisco Caldeira Cabral, como uma fonte de informação riquíssima das suas ideias e, também, a pesquisa dos textos originais e das suas imagens.

Referências bibliográficas

- AA.VV, Francisco Caldeira Cabral – Memórias do mestre no centenário do seu nascimento, Coordenação João Reis Gomes, Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas, 2009.

- AA.VV, Prof. Francisco Caldeira Cabral 1908-1992, Coordenação António Adriano, Comissão Municipal de Toponímia da Câmara Municipal de Lisboa, 2008.

- AA.VV, Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian, Francisco Caldeira Cabral e a primeira geração de arquitectos paisagistas (1940-1970), Coordenação Teresa Andresen, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

- Anagnostopoulos George L., Dorn Hans, Downing Michael F., Rodel Heiner, IFLA Past, Present, Future, International Federation of Landscape Architects, 2000.

- Andresen, Teresa; Francisco Caldeira Cabral, Surrey, UK, Landscape Design Trust Monograph Series, 2001.

- Andresen, Teresa, Camara, Teresa B., Carvalho, Luís G., Lugares da Arquitectura Portuguesa 1940-1970, (pp. 144-313), Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian, Francisco Caldeira Cabral e a primeira geração de arquitectos paisagistas (1940-1970), Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

- Andresen, Teresa, Três Décadas de Arquitectura Paisagista em Portugal: 1940-1970, (pp. 18-97), Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian, Francisco Caldeira Cabral e a primeira geração de arquitectos paisagistas (1940-1970), Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

- Cabral, Francisco Caldeira, Fundamentos da Arquitectura Paisagista, ICN, Lisboa, 2ª edição, 2003.

- Cabral, Francisco Caldeira, Telles, Gonçalo Ribeiro, A Árvore em Portugal, Assírio & Alvim, Lisboa, 2ª edição, 1999.

Sítios electrónicos

www.apap.pt www.lpn.pt

http://proffranciscocaldeiracabral.portaldojardim.com/ www.socgeografialisboa.pt

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