Chapitre 2 : revue littéraire
5. Description et analyse des résultats
5.2.5 Instagram – Parks Canada
E não é outro o sentido das formosas horas que costumo passar nas galerias, já dormindo pacificamente, já vigiando de bom grado, nestas galerias que foram calculadas exatamente para mim, para poder esticar-me satisfeito ou brincar como uma criança, ou jazer sonhadoramente, ou adormecer feliz. E as pequenas praças, todas perfeitamente conhecidas e que, apesar de sua completa igualdade, posso diferenciar entre si de olhos fechados pela simples curvatura de suas paredes, cercam-me amistosas e cálidas, como um ninho de ave. E tudo, tudo, silencioso e vazio.
Franz Kafka – A construção
Investigar um tema incomum implica na busca de soluções metodológicas alternativas ou mesmo em abordagens marcadas pelas próprias características do objeto. Todos os gêneros de aficionismo são, por definição, constituídos por especialistas. O termo “especialista”, nesses casos, encontra-se fracamente relacionado a um conhecimento técnico-profissional, regulamentarmente reconhecido por alguma instituição. Muito além disso, a especialização de um colecionador ou de um fã tem sua origem em coisas muito mais profundas que aquelas usualmente presentes nas práticas de um profissional. Destituída de qualquer finalidade utilitária, sua prática encontra-se ligada a um desejo apaixonado de ter, saber, ajuntar e ordenar a maior quantidade possível de objetos e informações relacionadas a um mesmo tema. Tal distinção entre o gosto apaixonado de um fã ou colecionador e a racionalidade prática de um especialista parece coincidir com o fato de só muito raramente um colecionador ou fã trabalhar ou viver daquilo que, paradoxalmente, mais entende. Desse modo, os aficionados por ônibus raramente poderão ser encontrados no setor de transporte rodoviário de passageiros, os colecionadores de carros normalmente não são também mecânicos ou donos de concessionárias, fãs de grupos musicais normalmente não são músicos, etc. Dentre os quinze entrevistados apenas um vivia, efetivamente, por conta daquilo que o capacitava seu conhecimento de fã (trabalhando como cover do ídolo pop Elvis Presley).
A distância existente entre a ocupação ordinária do aficionado e sua condição de especialista em determinado assunto faz com que o mesmo tome o universo profissional daqueles que, efetivamente, vivem e trabalham com o tema como um mundo mais completo, interessante e prazeroso que o seu próprio. Não é preciso observar que esta admiração se encontra estreitamente ligada à idealização do próprio objeto, ou mais exatamente dizendo, à escolha deliberada de um espaço definido nessas condições. Se em alguns casos essa admiração permanece sendo um vago desejo, em outros poderá adquirir um contorno nitidamente vicário. Não raro alguns grupos ou membros de clubes ambientalizam seus encontros de acordo com um padrão estético correspondente. A esse respeito, os encontros promovidos pela Frota Estelar Brasil fornecem ótimo exemplo pelo espaço lúdico que abrem aos seus participantes, que podem, livremente e sem nenhum constrangimento, se vestirem com o mesmo uniforme dos heróis da série, portarem réplicas de suas armas, comprarem ou usarem uma orelha de Vulcano,92 etc. No caso do Clube dos Amigos do Western alguns dos encontros, normalmente dedicados à troca de material e exibição de filmes, são também oportunidade para seus sócios se vestirem como cowboys. Tal caráter vicário poderia ainda ser encontrado numa curiosa modalidade de aficionismo, na qual fãs de músicos conhecidos reproduzem “imaginariamente” as performances de seus ídolos:
Guitarristas ou não terão a sua chance de mostrar o que sabem empunhando uma guitarra imaginária. Acontece em São Paulo, de 4 a 6 de novembro, a partir das 18h00, na futura unidade do SESC na rua 24 de maio (prédio da antiga Mesbla), ao lado da famosa Galeria do Rock, o Primeiro Encontro de Air Guitar no Brasil – evento que acontece em diversos países.
Air Guitar é baseado em performances individuais em que os participantes, com uma guitarra imaginária – igual os solos que você ousava dublar em seu quarto de adolescente – vestem-se à caráter, dão saltos e fazem caretas simulando solos de guitarra de suas bandas preferidas, em performances que fariam inveja a seus ídolos. Fora do Brasil, em países como a Inglaterra, Nova Zelândia, Austrália e Estados Unidos o Air Guitar é cultuadíssimo, e acompanhado por um grande público, dispondo inclusive de campos de treinamento onde os candidatos podem aprimorar sua técnica.
86 Em Star Trek, os habitantes do planeta Vulcano – cujo mais conhecido
representante seria o Oficial de Ciência Spock – possuíam orelhas ponteagudas, entre outros traços distintivos.
Criado em 1995, o Air Guitar foi realizado pela primeira vez no Lift Club, em Brighton, Inglaterra, um bar em que alguns jovens acharam que seria interessante ver quem fazia o melhor solo de “guitarra no ar”. De lá para cá, os festivais têm se tornado cada vez maiores a cada ano.
Nesta realização, em que o SESC conta com o apoio dos realizadores oficiais do Air Guitar em outros países, o evento é uma mostra não-competitiva.93 Além dos participantes que “tocarão” seus solos preferidos, o evento encerra-se diariamente com um pequeno show de um grande – e real – guitarrista. No dia 4 participa o guitarrista Rafael Bittencourt, da banda Angra. No dia 5 o guitarrista Luís Carlini apresenta-se com seu trio. Eduardo Ardanuy, da banda Dr. Sin, fecha a mostra de Air Guitar. O evento contará com a apresentação do músico e VJ Thunderbird, que promete realizar também uma animada performance de Air Guitar.94
Casos como esses, em que a entrada no mundo idealmente perfeito do tema cultuado se manifesta por meio de um comportamento vicário, podem ser considerados, menos que um sinal de excentricidade, desenvolvimento de um princípio geral que parece nortear as práticas de muitos colecionadores e fãs. A observação de um fã de seriados a respeito de serem esses antigos episódios “o melhor lugar para ir quando as coisas vão mal”, “para esquecer tudo e se sentir melhor”, parece confirmar esse ponto de vista. Por questões de oportunidade e conveniência, cowboys, trekkers e praticantes de “air
guitar” se transformam e se transferem parcialmente para mundos nos
quais, de forma semelhante, também desejariam viver outros aficionados: trabalhar na linha de montagem de alguns veículos, dirigir um ônibus, ser contratado como designer de forte apaches, etc. É possível suspeitar que, paradoxalmente, esse desejo de viver num mundo totalmente diverso daquele ordinariamente vivido pelo aficionado é tão mais satisfatório quanto
93 Apesar de não competitiva, uma reportagem a respeito do evento indicaria mais
tarde um dos destaques: “Jimmy Hendrix, Pete Towshend, Jimmy Page, Angus Young. Além de bons músicos, esses guitarristas fizeram sucesso pelo modo de tocar. Um espetáculo à parte. Fã desses astros do rock, o vendedor de discos Ivonildo nunca aprendeu a tocar guitarra. No entanto, quando o instrumento é imaginário... (...) ‘Eu nunca tinha ouvido falar disso, cara, me disseram que tem até um campeão mundial’, diz Tomati, guitarrista co Sexteto do Jô. ‘Não existe a parte lógica de realmente tocar certo. É só o carisma do cara contagiar a galera sem mesmo ter uma guitarra na mão’, afirma Rafael Bittencourt, guitarrista do grupo Angra. E quem arrebentou e contagiou o público foi o vendedor Ivonildo. Depois de 25 anos dedilhando cordas imaginárias no anonimato, recebeu aplausos de verdade”. Disponível em: <http://www.jornalhoje. globo.com/>. Acesso em 14 nov. 2002.
94 Guitarra no ar no SESC 24 de maio. Disponível em: <http://www.sescsp.org.br
maiores são os conhecimentos do mesmo em relação ao tema. Não, por certo, um saber técnico e profissional a respeito desses temas, mas sim um conhecimento profundo, capaz de imprimir aos mesmos um sentido incomum e particular. Em outros termos, menos num sentido de “tecnicamente” esgotar as possibilidades do tema que, inversamente, lhe ampliar seu significado e suas as dimensões.
Ao apontar como traço característico de todo colecionador a atitude de “estar sempre em luta contra a impossibilidade da tarefa”,95 Philipp Blom termina indicando o caráter romântico, também por ele percebido, presente em qualquer projeto de coleção. Se a atenção concentrada sobre determinado tema exige o uso de uma racionalidade bastante objetiva – esquecendo todo o resto, aproximando de forma obsessiva meios e fins, etc –, por outro, dada a “impossibilidade de realização da tarefa”, relacionada à dificuldade de adquirir e preservar objetos “colecionáveis” – autenticidade, raridade, estado de conservação, etc – o campo das coleções se sustentará em função da passionalidade dos próprios aficionados. Apenas assim, acreditando que um jipe não é apenas um carro, que um forte apache não é apenas um brinquedo, etc, haveria possibilidade de fazer destes e de tantos outros mais objetos e temas o centro de gravidade da vida de tantos colecionadores e fãs. Lidando com objetos retirados da circulação econômica e revestidos de valor simbólico, a prática de um aficionado se reveste de uma lógica contrária à do mercado, da ciência, ou da arte (ainda que possa se utilizar de todos eles para efeito de construir a singularidade do objeto ou personalidade em questão): partindo desses campos, a principal justificativa – que apenas impropriamente poderia ser chamada de interesse – do ato de colecionar parece se resumir ao esforço de superar a contingência de um esforço, fim último da própria coleção. Não por acaso, e ainda segundo Philip Blom, “o objeto mais precioso de uma coleção vem a ser o objeto seguinte”.96
Pesquisar um universo composto por especialistas obriga o pesquisador a adquirir, entre outras coisas, certo grau de especialização em áreas bastante distintas. O conhecimento que cada aficionado possui em relação ao seu tema pressupõe um diálogo qualificado com outra parte. De modo diverso
95 BLOM, Philipp. Ter e manter. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 196. 96 BLOM, op. cit., pp. 181 e 182.
daquilo que ocorre em outros campos (no meio acadêmico, nas artes, na administração pública, etc) os extensos conhecimentos acumulados por cada fã ou colecionador são normalmente trocados à margem de qualquer instituição específica (os aficionados por ônibus não mantêm qualquer vínculo com nenhum orgão público específico; colecionadores de automóveis com as respectivas montadoras, etc). Freqüentemente esse conhecimento é trocado entre aficionados que se conheceram através de publicações específicas ou, mais recentemente, por meio da internet. Aparentemente boa parte do vigor desses grupos se encontra relacionado precisamente ao caráter espontâneo, voluntário e não-institucional de suas práticas. Por conta dessas características e da própria sociabilidade que se estabelece entre o conjunto de seus integrantes é, por assim dizer, natural que o entusiasmo e a dedicação do aficionado pelo tema ou objeto em questão cresçam e se mantenham sempre vivos. Em sentido inverso, raramente uma instituição fornece estímulos suficientes a um de seus especialistas (um bibliotecário, um motorista profissional, um operador de áudio, etc) a ponto do mesmo se transformar num aficionado.
Dentro deste contexto, o contato entre pesquisador e cada um dos entrevistados encontrava-se condicionado ao domínio, por ambas as partes, de um estoque comum de conhecimento. Extremamente variado, o universo dos colecionadores e aficionados em geral parece provar que tudo no mundo pode vir a ser objeto de devoção. Diante dessas proporções, uma ou duas perguntas bastante evidentes: porque exatamente isso e não qualquer elemento de todo o resto? O que faz disso algo tão especial? Num sentido metafísico, tal pergunta possuía talvez uma única resposta: de a especialidade do objeto se relacionar à forma como o entrevistado imaginou ser capaz de superar as contingências de sua própria vida. Em termos menos imprecisos e de acordo com uma racionalidade completamente evidente para qualquer aficionado, o fato de que nada havia de mais interessante que aquele objeto ou tema. Principalmente pelo evidente motivo de que aquele objeto, idéia ou tema possuía algo de absolutamente notável e extraordinário. Ainda que a compreensão profunda desta verdade só possa ser verdadeiramente compartilhada com outro iniciado ou, em termos relativos, com alguém – um pesquisador, por exemplo – que, mesmo sendo
um descrente, demonstra compreender o sentido da doutrina e de seus rituais.
Assim, um fã do seriado “Jornada nas Estrelas” admitirá que seu interesse pela série se relaciona nostalgicamente com o tempo em que costumava assistir aos episódios, assim como também será capaz de demonstrar, por meio de uma argumentação técnica e racionalizada, os incontáveis detalhes e antecipações científicas aí presentes. Um colecionador de forte apaches dirá algo semelhante em relação ao início de seu interesse; e, da mesma forma, descreverá os muitos detalhes envolvidos na fabricação desses brinquedos: os primeiros modelos, as empresas que os fabricavam, aquelas que ainda os fabricam, o público que ainda os compram, etc. Entre os aficionados por ônibus, aspectos técnicos relacionados aos veículos apresentam-se centrais: três ou quatro eixos, carroceria em alumínio ou aço, trechos servidos pela empresa, etc. Coleções muito particulares, como as casinhas de porcelana oferecidas em vôos intercontinentais da companhia holandesa KLM, podem ilustrar esses casos de “justificação técnica”:
Ainda hoje um mimo reservado aos passageiros da World Business Class – fusão das classes primeira e executiva – as miniaturas não ficam à venda dentro do avião. A graça de possuí-las está em fazer um vôo intercontinental, pré-requisito para ter o direito de escolha depois do café da manhã. Escolha essa, diga-se de passagem, nada fácil. Todas são feitas com a porcelana de Delft, adorável cidadezinha holandesa que fez fama pelo mundo com o capricho de seus artesãos. Mas cada uma guarda um significado diferente. A de número 47 (todas são numeradas), por exemplo, reproduz o esconderijo da família Frank durante a ocupação nazista, num episódio que daria origem ao diário de Anne, traduzido em mais de 50 idiomas. O fascínio dessas lembrancinhas reside justamente no passeio pela história que é possível fazer através delas. No prazer de ter na palma da mão a casa e o ateliê do pintor Rembrant, em Amsterdã, e imaginar o dia-a-dia da dançarina tida como espiã Mata-Hari, perscrutando as ruas de Haia através de enormes janelas.97
Da mesma forma que “o fascínio dessas lembrancinhas” não parece residir apenas “no passeio pela história que é possível fazer através delas”,98
97 BOCCIA, Sandra. Liliput. Estampa, São Paulo, nº 12, pp. 50 e 51, out. 2002. 98 Mesmo porque, nesse caso em particular, haveriam alternativas muito menos
também todas as outras justificações do porquê da escolha desse objeto e não qualquer outro terminam sendo sempre uma explicação incompleta a respeito dos motivos pelos quais se torna necessária a aquisição de mais e mais ítens relacionados a um mesmo assunto. Algo semelhante parece ocorrer no campo do consumo convencional, no qual, ainda que muitas vezes os apelos da publicidade chamem a atenção para características científicas e técnicas dos produtos – “agora com mais vitaminas”, “freios ABS”, “efeito surround”, etc – estes terminam sendo freqüentemente adquiridos por motivos estéticos e emocionais. Em relação ao consumo monotemático de colecionadores e fãs, poucos entrevistados mencionaram de forma clara a predominância desta dimensão subjetiva na construção “técnica” de suas escolhas, ainda que alguns tenham chegado a admitir, mais rapidamente que outros, a centralidade de fatores emocionais como motivação das mesmas. Assim, ainda que um fã de seriados americanos dos anos 60 e 70 descreva esses episódios em termos de sua qualidade técnica ou seu caráter inovador, concluirá que a melhor característica dos mesmos vem a ser a possibilidade que lhe oferecem de, em momentos em que as coisas não estão bem, uma possibilidade de fuga, de “desligar o mundo” revendo alguns episódios. Ou ainda o fã de filmes de faroeste, capaz de descrever com enorme riqueza de detalhes filmes e participação dos atores do gênero, comparando a superioridade da produção dos filmes do período (décadas de 40 e 50) com criações recentes, concluindo, porém, que os motivos fundamentais de sua escolha se relacionam ao tempo em que assistia a esses filmes e ao modo como todos eles terminaram sendo a ilustração desse período de sua vida.
O papel do pesquisador nesse contexto encontra-se posicionado entre dois limites, igualmente indesejáveis: por um lado, não ser simplesmente um estranho, observando e descrevendo o universo pesquisado sob o ponto de vista de um não aficionado. Por outro, não incorporar a condição do outro; perdendo, desta forma, o caráter relacional e relativo do objeto. Do ponto de vista do trabalho etnográfico, os mundos habitados por colecionadores e fãs possuem características que os tornam muito particulares. Constituem-se em espaços que operam num sentido diverso da lógica capitalista, retirando da circulação econômica objetos que passarão a ter um valor de uso peculiar e específico. Ainda que o dinheiro e algum eventual lucro cumpram aí
sentidos determinados, estão longe de possuírem um sentido fundamental. Algo, aliás, muito semelhante àquilo que Clifford Geertz observa a respeito dos aficionados por brigas de galo em Bali:
Isso não significa, é preciso afirmar uma vez mais, que o dinheiro não conta ou que o balinês não está mais preocupado em perder quinhentos ringgits do que quinze. Seria absurda tal conclusão. É justamente porque o dinheiro importa, nessa sociedade altamente imaterial, e importa muito, que quanto maior o risco, maior a quantidade de outras coisas que se arriscam, tais como orgulho, pose, uma falta de paixão, masculinidade e, embora o risco seja momentâneo, ele é público, ao mesmo tempo. Nas brigas de galos absorventes, um proprietário e seus colaboradores e, numa extensão menor, porém real, como veremos, seus apostadores por fora, colocam seu dinheiro onde está seu status.99
Em contraposição, tais objetos se constituem, para cada um dos aficionados, naquilo que há de mais importante no mundo; ou, no mínimo, naquilo que lhes parece mais relevante e merecedor de seus maiores esforços. Tais características, terminam imprimindo um alto grau de passionalidade às práticas de colecionadores e fãs. Em outras palavras, produzindo uma racionalidade muitíssimo diversa daquela presente nas respectivas “versões de mercado” dos mesmos objetos e temas: donos de sebos, lojas de discos, revendas de automóveis, lojas de brinquedos, etc. Terminam também fornecendo os contornos metodológicos utilizados em sua abordagem, à medida em que a percepção da pesquisa deveria estar mais atenta à característica sensibilidade que envolve essas práticas que a um esforço de lhes extrair um sentido convencional. Algo próximo daquilo que Clifford Geertz percebeu:
Situar-nos, um negócio enervante que só é bem- sucedido parcialmente, eis no que consiste a pesquisa etnográfica como experiência pessoal. Tentar formular a base na qual se imagina, sempre excessivamente, estar- se situado, eis no que consiste o texto antropológico como empreendimento científico. Não estamos procurando, pelo menos eu não estou, tornar-nos nativos ou copiá-los. Somente os românticos ou os espiões poderiam achar isso bom. O que procuramos, no sentido mais amplo do termo, que compreende
99 GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara,
muito mais do que simplesmente falar, é conversar com eles, o que é muito mais difícil, e não apenas com estranhos, do que se reconhece habitualmente. (...)100
Efetivamente o processo de entrevistas sempre pressupôs, por parte do pesquisador, a aquisição de um conhecimento suficientemente específico de cada um dos temas. É caso de observar que, até mesmo por conta da perspectiva utilizada, tais tarefas estiveram sempre muito longe de poderem ser consideradas árduas. Ou seja, o estudo prévio do tema de cada entrevista era sempre feito de um ponto de vista (que também era o do aficionado) que tomasse o objeto ou personalidade em questão como algo excepcionalmente interessante, fascinantemente complexo, incomumente belo, etc. Melhor dizendo, utilizando a perspectiva de descobrir o porquê daquele tema vir a ser objeto de uma coleção ou de organização de um fã- clube. Nesse sentido, descobrir tais motivações implicava freqüentemente percebê-las como sendo, de fato e sob esse ponto de vista, coisas realmente muito interessantes.
Nesses termos e paradoxalmente, a dificuldade maior não foi a de encontrar sentido na organização de uma coleção em torno de determinado objeto (ou de um fã-clube em torno de determinado ídolo) mas sim o oposto disso, de