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Parafraseando Manuel Correia de Andrade (1997), Josué de Castro foi uma figura marcante de cientista, de professor, de homem público e de parlamentar que teve grande influência na vida nacional e grande projeção internacional nos anos decorridos entre 1930 e 1974. Além disso, o referido “médico-geógrafo” dedicou o melhor do seu tempo chamando a atenção para os problemas da fome e da miséria que assolavam o mundo (ANDRADE, 1997). As pesquisas e estudos a respeito da situação alimentar e da fome no Brasil, foram determinantes para que Josué de Castro escrevesse o seu principal livro, publicado no ano de 1946: Geografia da Fome. Nessa obra, o autor trata do problema da fome no território brasileiro, o “tema proibido” tão negligenciado pelos estudiosos. Dessa maneira, pela primeira vez, foi discutido o quão relevante é a problemática da fome para compreensão do estágio de subdesenvolvimento de um país.

Utilizando de uma metodologia eminentemente geográfica, Josué de Castro denunciou a situação de fome em que vivia a maioria da população brasileira, a partir da análise de suas características físico-naturais e sociais (ANDRADE, 1997). Assim, objetivando individualizar as características alimentares, e consequentemente, as carências apresentadas pela população, Josué de Castro propôs a regionalização do Brasil em cinco áreas alimentares: Amazônia, Nordeste Açucareiro, Sertão Nordestino, Centro-Oeste e Extremo Sul. A figura 6, organizada pelo próprio Josué de Castro, ilustra com maior ênfase como ficou definida tal divisão, bem como os principais alimentos encontrados em cada região.

Como mostra a figura anterior, os principais alimentos básicos presentes nas cinco regiões compreendem culturas como a do feijão, milho, batata e mandioca. Em relação a esta última, observa-se que a farinha, principal derivado da mandioca, é predominante tanto na Região Amazônica quanto na Região do Nordeste Açucareiro. Em ambas regiões, conforme Castro (1984), se estabeleceu uma cultura primitiva de certos produtos de alimentação, e a mandioca está inserida nesse aspecto.

Considerando a realidade da Região do Nordeste Açucareiro, o consumo significativo de farinha de mandioca provocou uma série de carências alimentares decorrentes da falta de ferro e de sódio, atingindo, sobretudo, as crianças pobres e mal alimentadas que “comiam terra”, fato apontado como um vício, mas que era, na verdade, uma defesa do organismo (ANDRADE, 2003). O mesmo conjunto de problemas também era comum na Região do Sertão Nordestino e ainda mais agravado, em decorrência dos períodos de seca. Para Castro (2003b, p.130)

Esse quadro tão sombrio da economia do Nordeste frequentemente passou a impressão de que a região, com sua conjuntura geoeconômica desfavorável, não podia ser recuperada. Nada mais falso, mais desprovido de qualquer fundamento científico do que essa interpretação apressada e pessimista da economia nordestina.

Fonte: ANDRADE, 1997.

Josué de Castro tinha bastante clareza de que a fome e a pobreza no Nordeste não eram consequências das condições naturais da região como muitos afirmavam e/ou acreditavam, associando principalmente à seca. O autor compreendia que o período de colonização, o sistema de monocultura e o predomínio das grandes propriedades rurais nas mãos de uma minoria, muito explicavam os problemas enfrentados pelos nordestinos, estando no processo de formação socioespacial do Brasil, a gênese de muitos dos problemas sociais ainda hoje existentes no país.

Desse modo, diante das dificuldades desencadeadas pela fome na região mencionada, a ajuda de órgãos técnicos como a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), foi de grande importância na tentativa de mudar a realidade de pobreza tão marcante na época. Além disso, foi organizado, sob a iniciativa de Josué de Castro, um plano de combate à fome, por intermédio da Associação Mundial de Luta Contra a Fome (Ascofam), entidade criada em 1957, pelo “médico-geógrafo” e pelo Abade Pierre, da França. Concentrando suas ações no Nordeste, a Ascofam distribuiu suas atividades entre os setores de informação e de execução de projetos capazes de provocar as reações sociais indispensáveis para a transformação da economia regional (CASTRO, 2003b). A Associação Mundial de Luta Contra a Fome também

executou estudos e pesquisas sobre a estrutura agrária do Nordeste e sua repercussão, tendo em vista a situação econômica e alimentar da região. Ela própria estabeleceu, com base em seus estudos, um plano econômico de reforma agrária regional, compreendendo o cálculo dos investimentos necessários. Organizou diversos seminários sobre os problemas regionais, entre os quais destaca-se o seminário sobre as endemias rurais e a subalimentação, realizado em 1958, com a participação de competentes especialistas (CASTRO, 2003b, p. 131).

Dentre os projetos realizados pela Ascofam, o mais importante consistiu em utilizar o principal alimento de base no regime regional, que era a farinha de mandioca. Esta, de acordo com Castro (1984) é muito inferior, tanto em seu teor proteico, como mineral e vitamínico, quando comparada a outros alimentos, para tanto, buscou-se uma alternativa que melhorasse o seu valor nutricional. Dessa forma, a partir da adição de proteínas e de sais minerais foi realizado o enriquecimento artificial da farinha de mandioca, transformando um alimento exclusivamente à base de hidrocarbonatos e calorias, num produto rico em aminoácidos, sais minerais e vitaminas (CASTRO, 2003b).

Para a transformação da farinha de mandioca, de forma econômica e prática, a partir do seu enriquecimento, foram instaladas três usinas pilotos em pontos diferentes do Nordeste brasileiro com o intuito de combater as carências alimentares da região. Na cidade de Surubim-PE, na época considerada um dos maiores núcleos de pelagra endêmica, uma experiência de apenas um ano com a farinha enriquecida proporcionou um resultado bastante satisfatório, uma vez que a doença carencial desapareceu-se praticamente da referida cidade.

A experiência inédita em Surubim-PE ocorreu da seguinte forma: no período de dezembro de 1958 a dezembro de 1959, um quilo da farinha enriquecida era distribuído semanalmente para cada morador. O médico José Nivaldo Barbosa, da cidade de Surubim-PE, era o responsável por entregar a farinha em domicílio, elaborando fichários com observações semanais sobre cada um dos pacientes. O fato teve repercussão mundial, fora divulgado em revistas de medicina e tornou-se um exemplo pioneiro de uma tendência hoje disseminada pelo mundo que é o enriquecimento nutricional de alimentos.

Segundo Castro (2003b), a Ascofam tinha interesse em apresentar os resultados da experiência de Surubim-PE a outras instituições nacionais e internacionais interessadas na adoção de técnicas de cooperação capazes de promover o desenvolvimento de comunidades desse gênero. O autor considerava que esse era o principal projeto realizado pela Ascofam no mundo.

Além do enriquecimento da farinha de mandioca com base na farinha de soja desengordurada e de uma mistura de sais e vitaminas, a Ascofam estudou a possibilidade de um processo ainda mais prático e racional com as raízes da planta, que consistia em uma farinha tirada das próprias folhas da mandioca, que contém em torno de 20% de proteínas e detém um alto teor de betacaroteno (provitamina A).

É interessante ressaltar que, após o golpe militar de 1964, o processo de enriquecimento da farinha idealizado por Josué de Castro foi perdendo fôlego, agravando-se ainda mais com um problema de natureza técnica que consistia na estocagem da farinha, uma vez que o alimento não suportava longos períodos em armazenamento e, se não fosse consumido logo, era estragado por gorgulhos, uma espécie de pequenos besouros que atacam alguns produtos agrícolas. No entanto, acredita-se que tal problema poderia encontrar solução, caso o desenvolvimento da pesquisa tivesse sido levado adiante.

É inegável que, como fundador da Ascofam e tamanha sensibilidade às causas humanas, Josué de Castro sempre esteve à frente de projetos cujo objetivo era promover o desenvolvimento humano, e porque também não dizer socioespacial, das áreas ameaçadas e assoladas pela fome. O uso da farinha de mandioca para amenizar as carências nutricionais do

Nordeste, e assim, combater à desnutrição, foi estudado e idealizado por um intelectual e homem público que vivenciou de fato a realidade de miséria na qual se encontravam muitas famílias brasileiras.

3.2 A FORMAÇÃO TERRITORIAL E A PRODUÇÃO DE MANDIOCA NO RIO

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