A abordagem sobre outros espaços existentes na cidade, neste estudo, parte do entendimento dos mesmos como locais de ação e de experimentação pela criança, capaz de despertar sentimentos e que, de alguma forma, interferem no seu ir e vir, apresentando-se como uma realidade diferente para aqueles em que as escolhas são permitidas ou restringidas. A organização social do espaço não pode ser desconsiderada, pois tem relação direta com a ocupação pelos sujeitos participantes da pesquisa.
Percebe-se que o desenvolvimento das cidades e a reestruturação do espaço impactam sobre hábitos, comportamentos e sentimentos dos sujeitos. Giddens (2009), ao se reportar às teorias de urbanismo de David Harvey e Manuel Castells, explicita que o ambiente é criado segundo mudanças políticas e econômicas, permanentemente reestruturado segundo necessidades de instalações de grandes empresas e centros de desenvolvimento que evidenciam o interesse específico de determinado grupo e que suas características "[...] exprimem lutas e conflitos entre os diferentes grupos na sociedade" (Giddens, op. cit., p. 579). A cidade tem crescido para que, economicamente, se viva melhor, porém é importante pensar nos impactos que isso proporciona àqueles que nela vivem.
A mobilidade urbana está diretamente relacionada à organização espacial da cidade, que tem vinculação com valores defendidos pela sociedade e é influenciada economicamente pelas decisões tomadas por aqueles detentores de poderes políticos. Demonstra como as cidades evoluem e para que fins as modificações são planejadas e realizadas. Ao analisar as práticas de espaço, Certeau (2009) reflete a respeito da cidade, do seu planejamento, afirmando ser necessário pensar a pluralidade do real, dando efetividade a esse aspecto plural, via articulações entre pensamento e ação. Complementa afirmando que a cidade, em termos de organização funcionalista que privilegia o progresso, na perspectiva temporal, "[...] faz esquecer a sua condição de possibilidade, o próprio espaço, que passa a ser o não pensado de uma tecnologia científica e política" (Certeau, op. cit., p. 161). As práticas de espaço revelam "maneiras de fazer" na cidade, revelam uma espacialidade.
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Francesco Tonucci (2010)62 afirma perceber a cidade organizada para uma parcela da população apenas, que não inclui as crianças. Como o tráfego de carros cresce com o desenvolvimento das cidades, o trânsito automobilístico não favorece a exploração das ruas a pé ou por meios de transporte como bicicleta, skate e patins, por exemplo, para qualquer grupo de transeuntes, em especial as crianças. Para o autor, as cidades estão sendo (re)construídas para que "os carros vivam melhor". A essa situação, parece que as ruas só se justificam quando da função de acesso aos diferentes espaços, ou às diferentes ilhas, para usar o termo empregado por Zeiher (2003).
O ser criança na cidade é, portanto, um desafio. As situações vividas pelas crianças retratam a forma como elas compreendem a organização espacial urbana, o crescimento do trânsito e, dada a sua análise, os argumentos e justificativas denotam as lógicas infantis de entendimento e compreensão do mundo e as escolhas no ir e vir. Certeau (2009, p. 163) coloca-nos que "os processos do caminhar podem reportar-se em mapas urbanos de maneira a transcrever-lhes os traços (aqui densos, ali mais leves) e as trajetórias (passando por aqui e não por lá)". Zeke, a caminho de sua casa, comentava sobre os deslocamentos escola-casa-escola, as escolhas feitas e os riscos que encontrava, como apresentado na nota de campo:
Zeke: Pra Cosette eu ia de van, porque eu não estava acostumado a
andar sozinho, aí minha mãe falou que... Ano passado eu já comecei a andar, ir à padaria, na banca (de jornal). Agora eu to indo pro João XXIII sozinho. Até que é mais perto o João XXIII, né!?. (Comparou a distância de sua casa com a escola Cosette de Alencar e com o Colégio de Aplicação João XXIII).
Eliete: E você falou que não estava acostumado. Você não se sentia
preparado?
Zeke: Não, porque... às vezes... esse ano mesmo eu quase fui
atropelado ali na Olegário.
Eliete: É mesmo?
Zeke: Tava atravessando. Tava o sinal verde. Eliete: Aham, verde para você ou paro carro? Zeke: Pra mim
Eliete: Aham.
62
O Professor Francesco Tonucci proferiu, em 18 de março de 2010, uma conferência denominada "La città dei bambini con le sue caratteristiche politiche e sociali", promovida pelo Instituto de Educação da Universidade do Minho (Portugal), que teve como foco a discussão sobre a criança na cidade, em especial a sua autonomia nesse contexto, considerando a experiência realizada no Projeto "A Cidade das Crianças" (La città dei bambini), Tonucci (2006) que propõe uma nova filosofia de governo da cidade.
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Zeke: Aí... Sabe aquele Captiva, Chevrolet grandão? Eliete: Sei
Zeke: Então, o carro devia ter visto. Carro muito grande né, aí eu
estava passando na hora que fechou o sinal pra mim, eu já estava no meio do caminho, entrando pra segunda fileira de carro. Aí ele já avançou o sinal. Quase que me atropelou.
Eliete: Nossa, você levou muito susto? Zeke: Aham (interjeição afirmativa).
(Nota de Campo: C. A. João XXIII, 28 de junho de 2011)
Seguimos caminhando pelas ruas do bairro e Zeke falava sobre os deslocamentos realizados a sós em locais próximos à sua casa, até que, em determinado momento, ele interrompeu o assunto e comentou que teríamos que atravessar a rua. Interessante perceber que a fala, a entonação adotada, parecia mais um alerta do que uma comunicação apenas. Ao continuarmos o assunto, pude compreender como Zeke analisa o seu cotidiano e conduz suas ações, o que pode ser elucidado com as imagens de 58 a 60.
Zeke: Eu sempre fico em casa, minha mãe me leva em tudo, todos os
lugares. É… Na casa da minha madrinha mesmo, eu sempre fico, às vezes venho sozinho até aqui entregar coisas que a minha mãe pede, ou minha madrinha pede para eu vir buscar aqui, levar lá pra casa também. A gente vai atravessar aqui, tá professora!?.
Eliete: Tá. Você vai atravessar aqui fora da faixa? Zeke: Eu prefiro.
Eliete: Por que você prefere?
Zeke: Porque na faixa é mais perigoso.
Eliete: Por que na faixa é mais perigoso? Achei interessante isso! Zeke: Eu acho.
Eliete: Mas, por quê?
Zeke: Porque você tá no meio do sinal, igual eu te falei, tá no meio do
sinal o carro arranca assim, de repente.
Eliete: Aham.
Zeke: E aqueles caras que não param atrás da faixa, param em cima
da faixa?
Eliete: Mas você acha que aqui eles vão te ver? Enquanto você estiver
passando fora da faixa?
Zeke: Não, eu passo correndo.
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Outras crianças, quando comentam sobre a transgressão às regras existentes no espaço urbano, apontam desafios por elas vividos nas ruas de seus bairros, semelhantes aos de Zeke, como apresentado na discussão do grupo focal que segue:
Ladion: Olha aqui, eu já, sabe porquê? Porque lá [...] lá no meu bairro
não tem faixa, aí não dá para atravessar na faixa, fica difícil. Tem um lá do outro lado e outra lá do outro, e não tem uma no meio. (Ele gesticulou para mostrar a distância entre as faixas) Se a gente que ir na loja em frente, não tem uma faixa ali, tem que ter intermediária e nisso aí fica difícil. Ninguém vai lá.
Caã Kity: eu já descumpri por que, lá em Matias não tem faixa e nem
sinal.
Ladion: Não?
Caã Kity: Não. Aí eu já descobri e eu atravesso lá assim: na hora que
dá tempo, sempre que tiver um espacinho entre dois carros e que dá tempo eu atravesso lá.
(Grupo Focal 2: C. A. João XXIII, 28 de novembro de 2011)
Dessas experiências, percebe-se que ser criança na contemporaneidade, nesse caso na cidade, é uma grande aventura, ou melhor, um grande desafio. As cidades crescem, a movimentação nas ruas acompanha esse crescimento, porém as finalidades desse desenvolvimento nem sempre focam o bem estar da sociedade. O trânsito aumenta e os carros encontram mais espaços, mais vias; e as pessoas, incluindo as crianças, organizam-se conforme a cidade se apresenta, como afirmam Rissotto e Tonucci (1999). Sobre essa temática, Qvortrup (2010a) faz uma reflexão e pondera ser possível visualizar
Imagens 58 e 59: As ruas vividas pelo Zeke
Foto Eliete
Imagem 60: Zeke no portão do seu prédio
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[...] como a infância tem ocupado cada vez menos espaço ao longo do tempo; por essa razão, a sua categoria estrutural está quase literalmente minimizada. Os fatores responsáveis por isso, ou, talvez por melhor dizer, de acordo com essas mudanças demográficas, são todos os que, em outras circunstâncias, influenciarão a infância, como, por exemplo, crescimento econômico, industrialização, urbanização, aumento na qualidade da saúde, secularização, individualização, educação, privatização da família, e outros. Como resultado, a infância tem tornado-se menor – tanto em nível familiar quanto social. A atitude tem tornado-se mais sentimentalista, mais protetora, pelo menos em nível familiar. (Qvortrup, op. cit., p. 641)
Percebe-se, então, que as crianças não exploram as ruas como se espera. Essa situação tem implicações não interessantes para a sociedade e, obviamente, para o grupo considerado. Assim, Tonucci (2010) destaca duas implicações desse contexto para a infância: a saúde e a formação das crianças.
No primeiro caso, a saúde, ele observa o problema da obesidade infantil crescente em grupos cujo estilo de vida não é ativo em termos de movimentos relacionados às atividades cotidianas. As crianças crescem em locais fechados e os deslocamentos entre os diversos espaços para o cumprimento de suas atividades diárias normalmente é feito utilizando-se de algum meio passivo de transporte. Essa reflexão encontra apoio nos estudos de Neto (1999; 2000), ao discutir rotinas e tempos livres das crianças em suas atividades cotidianas.
Em termos de formação, segundo ponto destacado pelo autor, acredita que as crianças não estão sendo preparadas para enfrentarem o dia-a-dia na cidade, uma vez que são privadas de experiências importantes e de escolhas na vida cotidiana. Sobre isso, ele faz referência à ausência de autonomia da mobilidade da criança na cidade, situação também abordada por Neto (2000), em seus estudos há pouco mencionados.
O ambiente urbano é frequentado pela criança em função da sua organização espacial e temporal. Zeiher (2003) retrata estudos realizados sobre rotinas de crianças e seus deslocamentos cotidianos entre as ilhas, que podem ser entendidas como o espaço da casa, da escola, dos parques infantis, entre outros, em função da necessidade das atividades diárias, na expectativa de conhecer como as crianças vivem esses deslocamentos. Embora existam rotinas semelhantes – rotinas de lugares – para
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diferentes crianças, cada uma possui um espaço de vida individual temporalizado, seja ele centralizado em um ou outro local ou fragmentado em diversos locais.
É importante destacar que a autora afirma que as formas de insularização dos espaços de vida individual das crianças variam em função da dimensão temporal, tanto em termos cronológicos atrelados à idade da criança, quanto em termos de tempo- hora do dia e do espaço ocupado, no sentido da proximidade ou não dos locais frequentados. Outro aspecto que interfere na forma de usar ou aceder aos espaços está no maior ou menor controle que os pais/responsáveis, em especial, exercem sobre a rotina das crianças significando menor ou maior possibilidade de decisão pela criança respectivamente. Essa organização pode ser entendida como modelagem da vida cotidiana. Uma modelagem que sugere condutas muitas vezes ignoradas ou ludibriadas pela criança na sua relação com o espaço, nesse caso urbano.
Se as ruas passam a ser vistas como via para aceder a espaços, o que nem sempre acontece com a criança sozinha, uma reflexão interessante acerca da criança e da cidade de forma inter-relacionada é feita por Tonucci (2009). O autor afirma que as crianças perderam a cidade e a cidade perdeu com a ausência das crianças em suas ruas e espaços. Para o autor, criança nas ruas sugere cidade mais segura, uma vez que as pessoas se preocupam com sua presença e agem de forma diferenciada.
Esse posicionamento deve ser entendido e pensado com certa relatividade, pois muitos problemas sociais presentes no cotidiano das cidades exigem iniciativas políticas para sua solução, o que têm contribuído para o aumento de controle dos pais/responsáveis sobre os filhos fora dos espaços considerados seguros, como a casa, a escola, o shopping entre outros. Formas protetivas de controle para com as crianças sempre existiram, porém com a nova configuração social, outros mecanismos passam a constituir tal proteção. Para Bauman (2001),
A diferença entre o passado afetuosamente lembrado e sua réplica atualizada é o que a comunidade das memórias da infância de Halzedon obtinha usando os olhos, línguas e mãos, casualmente e sem muito pensar, no Heritage Park é confiado a câmeras de TV ocultas e dúzias de seguranças armados verificando senhas nos portões e discretamente (ou ostensivamente, se necessário) patrulhando ruas. (Bauman, op. cit., p. 109)
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As diferentes formas de violência são exemplos de riscos identificados e que têm contribuído para a cultura do medo. A respeito disso, o referido autor, quando reflete sobre a cidade a partir de uma abordagem acerca do tempo e do espaço, apresenta modificações na sociedade atual presentes em situações vividas pelas crianças participantes do estudo. Sobre o risco e a insegurança existentes em espaços públicos, afirma que o "[...] o espectro arrepiante e apavorante das ´ruas inseguras` mantém as pessoas longe dos espaços públicos e as afasta da busca da arte e das habilidades necessárias para compartilhar a vida pública" (Bauman, op. cit., p. 110). O autor critica a excessiva proteção aos indivíduos pelo poder público, cujas ações não têm contribuído para garantir-lhes a segurança e permitir a exploração deste espaço, mas sim cerceado a sua liberdade, uma vez que os mesmos são confinados em locais cercados que dificultam interações imprevistas. Essa situação evidencia uma incoerência entre os interesses das crianças, dos pais/responsáveis e da sociedade. As crianças pedem liberdade e autonomia, enquanto os pais/responsáveis e a sociedade pedem mais controle e segurança, com possibilidade de alcance pela tecnologia (uso de câmeras de filmagem, GPS etc.) e pelo policiamento na cidade, entre outras formas, como apresentado.
A relação dos pais/responsáveis com as crianças no que se refere à sua autonomia da mobilidade, o seu ir e vir na cidade, é marcada pelas situações apresentadas. Qvortrup (2010a) contribui:
[...] os desenvolvimentos estruturais impactam a infância de maneira diferente, quer seja em nível familiar ou social. Podemos argumentar que as relações entre as crianças e seus pais têm tornado-se mais próximas, afetivas e protetoras, enquanto que em nível social elas têm sido entendidas em termos de negligência ou indiferença estrutural, para usar a frase do sociólogo alemão Kaufmann (2005). (Qvortrup, op. cit., p. 641)
Em termos de formação da criança, Tonucci (2009) e Rissotto e Tonucci (1999) defendem uma cidade que não seja demasiado segura no sentido de permitir haver surpresas. Como a vida social é dinâmica, caso as crianças explorem as ruas, elas estarão sujeitas a aspectos inusitados. Defende também que seja possível a criança se esconder nos espaços ou subir em árvores, quando da utilização dos parques, por
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exemplo. Sobre isso, ele se opõe aos parques formatados em que a criança é induzida a determinada forma de exploração, inibindo sua criatividade e livre ação. Conclui afirmando que isso não permite à criança crescer no imprevisto.
Em termos de gestão, destaca a necessidade de escutar a criança, capaz de expressar seus interesses e necessidades, além do fato de os adultos poderem aprender com as mesmas por serem distintas e, consequentemente, por conceberem a cidade de uma forma diferente daquela pensada pelos adultos. Esse aspecto se associa à ideia de participação infantil, abordada no estudo, materializada pela direito de a criança exercer a sua competência política, dando-lhe a possibilidade de se expressar, exercendo a cidadania. Sobre isso Tomás e Soares (2004) afirmam ser necessário entender que as crianças têm que ter direitos civis e políticos, como garantido aos adultos:
[...] as crianças também são seres sociais, actores sociais e a valorização da sua acção e voz é imprescindível na demanda e concretização dos referidos direitos civis e políticos. Passa ainda pela indispensabilidade de considerar as crianças como actores sociais competentes, obviamente com competências diferentes das dos adultos, mas que não são indiscutivelmente incompetentes: os processos de relações, negociações, confrontos que desenvolvem entre elas e com os adultos, são bem reveladores da referida competência e da legitimidade da sua acção nas esferas privada e pública dos seus quotidianos. (Tomás & Soares, op. cit., p. 359)
Escutar as crianças permite que seus desejos, interesses e necessidades sejam pensados e, se possível, contemplados. As vivências de uma criança são reveladoras dessa realidade. VP, ao comentar sobre a dificuldade e o desconforto de jogar bola na rua em função do perigo representado pelos carros e dos buracos no asfalto, mostra a diminuição de espaço explorado pela criança na cidade, bem como as estratégias adotadas para dar significado ao uso do espaço, enfrentar os riscos e viver o tempo da infância. O fato de VP e seus colegas apresentarem uma postura crítica, de ator social, pode ser percebida quando eles criam estratégias para o uso do espaço e questionam a realidade. Ele disse que existe um lote com um pouco de mato, mas com espaço suficiente para brincar com os amigos, situado próximo à sua residência. Para utilizarem o espaço, as crianças negociaram com o proprietário, ainda que essa
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negociação lhes custasse o exercício físico de capina do lote, como será melhor detalhado em capítulo à frente. Soma-se a isso o fato de as crianças se inquietarem com essa realidade e questionarem a não existência de um local em que pudessem negociar somente as regras do jogo com seus pares. A normalidade e a linearidade que levam à cegueira do cotidiano (Pais, 2010) são contrariadas nessa passagem, que propõe fuga à alienação, deixando a reflexividade impositiva em prol da reflexividade transformadora.
Posturas como essa retratam a criança na perspectiva sociológica (Sarmento, 2004), em que é reconhecida como criativa, um ser produtor de cultura e nela inserida, cidadã de direitos que subverte a lógica de funcionamento do cotidiano, no sentido de inventá-lo ao seu jeito, segundo suas possibilidades. As concepções de criança e infância, no estudo adotadas, não são tomadas como se a realidade fosse universal. Como dito, são concepções circunscritas temporal e espacialmente, que apresentam particularidades, não sendo aplicáveis necessariamente a outras realidades.
Conforme mostrado pelas crianças e manifestado por seus desejos, o espaço na cidade é escasso para esse grupo e não tem sido pensado em função das suas especificidades. De qualquer forma, criar espaços específicos para a criança, como parques infantis, por exemplo, não contribui para sua autonomia e usufruto efetivo no ambiente urbano. Pode, inclusive, ser entendido como possibilidade de exclusão da criança da cidade, das ruas, da interação com outros grupos, significando o seu confinamento em determinadas ilhas decorrentes da segregação geográfica do ambiente urbano (Zeiher, 2001; 2003). Disso, um questionamento pode ser feito: se há espaços específicos para a criança, o que significam os demais espaços existentes na cidade para esse grupo?
É importante que a cidade seja um espaço a ser vivido pela criança onde ela possa experimentar situações, interagir com outros grupos, reconhecer a diversidade de fatos, fazer suas escolhas, ser um transeunte que constrói, também, a história da cidade.
134 Síntese
Este capítulo trouxe reflexões sobre criança, infância e culturas da infância numa perspectiva sociológica, considerando a escola e outros espaços de experiência, vividos por esse grupo, em um contexto específico do seu cotidiano.
Embora a criança tenha sempre existido, a ideia de infância é construída na Modernidade. A invisibilidade da infância e da criança na cena social é percebida em pesquisas científicas que, até final do Século XX, tinham amparo epistemológico em áreas de conhecimento como a psicologia e a psicanálise. Mesmo em muitos estudos com enfoque sociológico, buscava-se a socialização das crianças numa perspectiva de pesquisa sobre e não com a criança.
Na Sociologia da Infância, criança, ser peculiar pela sua alteridade e ser social pela pertença a determinado grupo, é construtora de cultura e reflete marcas de sua geração e de seu contexto sócio-econômico e histórico. Isso supera a visão da criança como um ser que vive uma fase individual da vida, necessária para o seu amadurecimento sexual, motor e cognitivo e que a prepara para a vida adulta: um ser que nada sabe e que é dependente, ou seja, o devir criança.
A infância, entendida como construção social, uma categoria estrutural da sociedade, permanente, é influenciada por aspectos políticos, sociais e econômicos. É, portanto, reconhecida como um período de vida peculiar e que está à prova da dinamicidade da vida social, diferentemente da visão apoiada na vertente pautada na psicologia, por exemplo.
Com relação às culturas de infância, entendem-se como os modos sistematizados de significados atribuídos ao mundo, de ação intencional, e são distintos daqueles atribuídos pelos adultos. Seu modo de agir, ou seja, sua ação, deve