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INFRACTION EN MATIÈRE DE DUMPING SOCIAL SUR LE CONTRAT

Partimos da hipótese de que estamos diante de uma configuração familiar onde se diz presente aquilo que Rochex (1995) denomina “tríplice autorização”. Apontamos a seguir os indícios e as pistas que permitem uma melhor visibilidade desse fenômeno.

Por um lado, a história de Seu Hélio é farta de elementos que permitem concluir que ele valoriza o conhecimento em geral e, em particular, o escolar. Um desses elementos é a incisiva demonstração de seu desejo de ter estudado. Ele conta que foi o que mais aprendeu entre os irmãos e que, num determinado momento, chegou a pedir ao pai para que providenciasse a continuidade de seus estudos: “meu pai, nós somo 9 irmão..., me forma!” Segundo Seu Hélio, o pai, alegando que isso poderia significar uma distinção entre irmãos e, portanto, motivo de disputas, negou-se a esse pedido. Ele ainda insistiu com o pai no propósito de estudar, nos seguintes termos: ”então faz assim, pergunta qual que quer formar, bota o outro que quer, mas não tira eu não! Que seja doutor, que seja padre, me coloca que eu vou ser!” Ele insistiu também na idéia de que tem ainda hoje muita vontade de estudar, principalmente questões ligadas com a matemática. Um tanto quanto irrealista, declara que, se tivesse vindo direto do Rio de Janeiro, da roça, para Belo Horizonte, há 30 anos atrás, “talvez fosse um formado

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qualquer, um doutor, um advogado qualquer”. Ao final da entrevista, Seu Hélio fala de “um curso de televisão” que fizera por correspondência, quando ainda trabalhava no Colégio Abgard Renault. Este cursinho, que teve duração de um mês, lhe conferiu “o único diploma que eu tenho na minha vida!”.

Num outro contexto da entrevista, quando expressava seu orgulho de ter filhas que estudaram, ele enfatiza essa valorização dos estudos, dizendo que “uma pessoa que não estuda, é uma coitada”. Além disso, ele queixa-se dos filhos que não estudaram; lamenta- se de ter se sacrificado em vão no Colégio Abgard Renault, tentando que todos eles tivessem condições de estudar. Um depoimento seu a esse respeito, constitui, a nosso ver, uma outra forma de expressão da importância que ele atribui `a escola:

“[No Colégio Abgard Renault] (...) eu enfrentava... aquelas tempestade de noite, aquelas trovoada... com um balde na mão, rodo na outra, pano, tirano aqueles risco de carteira. Eu lava 12 banheiros, varria 30 salas e ainda varria um pátio de 4000 metros. Isso eu tinha que dar conta antes do amanhecer. O suor pingava. E muitas veis... eu tive uma úlcera; tinha noite que eu tinha que tirar aqueles minuto pra dor folgar um muncado, pra poder trabaiá. Mas tudo

pensano assim, eu quero vê meus fio formado, ao menos com o 1º grau. Mas não quiseram!” (grifo nosso).

Estudar significa para Seu Hélio ter conhecimento. “O conhecimento é o maior caminho” e (ou, porque? ) possibilita “ser alguma coisa na vida”, afirma. No seu entendimento, o conhecimento abre horizontes e competências para a ação. Nesse sentido, ele lembra da chance que teve de trabalhar no armazém, porque era hábil em cálculos matemáticos e de ajudar a construir uma casa, porque sabia “ler plantas”.

Finalmente, uma outra pista que ele nos fornece de sua valorização da escola, é seu reconhecimento da cultura legítima. No início e ao final da entrevista, ele pede desculpas por não dominar a língua culta. “Vai sair muita coisa errada... meio errada... o meu português não é bão”, desculpa-se no início; ao final, “eu queria pedir desculpas... o bom português!?”

Por outro lado, percebemos que Seu Hélio tem muito apreço por sua história. Ele manifestou, por exemplo, do princípio ao final da entrevista, uma preocupação com a

garantia da gravação da mesma. Quando Vera chegou à sala onde se realizava a entrevista, ele pede: “chega mais perto dela pra gravar”. Esse dado, comparado a outros, pode parecer de relevância menor, mas nos sugere que ele desejava que sua história fosse registrada; ele fazia questão, ainda, que essa história fosse identificada como sendo

sua: “pode por meu nome e endereço”. Uma imensa disponibilidade para contar sua

própria história, foi uma tônica do encontro com Seu Hélio. Imaginamos que, se fosse possível, ele discorreria horas intermináveis sobre ela. A respeito de um comentário de Catarina, ao final da entrevista, de que ele estaria gostando de ser entrevistado, Seu Hélio retruca: “o que a gente tem...(...) de passar pro outro; não tem vergonha de dizer o que foi”.

Um outro dado que parece relevante para refletir sobre a relação de Seu Hélio com suas origens, é sua relação com os parentes “ricos”, e/ou formados, os juizes. Parece que ele não disputa importância com esses parentes, mas relaciona-se com eles, orientado por um importante sentimento de simetria, ainda que admita ter vivido uma história diferente da deles e afirme-se como “humilde”. Um possível indicador dessa nossa afirmação, é o fato do pai de Catarina não se ter silenciado sobre a existência deles, mas, ao contrário, ter falado dela e com orgulho. A atitude desses parentes em relação a ele, parece ser também marcada pela comunhão de alguns traços. Referindo-se a um primo que é juiz, ele comenta: “esse meu primo, ele vem aqui, ele senta comigo, se for preciso, ele come aqui comigo. Ele não esqueceu do ritmo”.

Em suma, embora desejasse muitíssimo ter estudado e ter construído uma vida melhor, temos fortes indicadores para concluir que Seu Hélio não carrega ressentimentos porisso, não tem sentimento de inferioridade. Esse fato não diminui sua dignidade. Os parâmetros com os quais se avalia, são os de seus próprios passos, aqueles que foram possíveis ser dados.

Nesse sentido, supomos também que ele não disputa espaço e importância com a filha que estudou, embora reconheça a distância que se estabeleceu entre os eles em decorrência desse fato. No início da entrevista, Seu Hélio, provavelmente preocupado com “a verdade” do que diria, alertou-nos para as possíveis “contradições” entre sua fala e a de Catarina, o que nos instiga a afirmar a existência de seu reconhecimento de que

eles vêm o mundo de modo diferente:

“A gente lembra de umas coisa, lembra d’um jeito, e ela, se for repetir, vai sair meio diferente. (...) as veis a gente falou um sentido, ela já vem com uma contradição diferente, uma parte desmentido um muncadinho aquilo que a gente falou”.

Catarina realizou seu sonho de estudar e, simbolicamente, ele a autoriza a fazê-lo. Num dos momentos da entrevista em que houve debate entre ela e o pai, a propósito do tema da ascensão social, Catarina afirma, perguntando (ou, pergunta, pedindo permissão): “se se tem um bom estudo, pode ter um bom emprego!?” Ao que Seu Hélio responde: “pode, pode, se ele estuda é pra isso!”

Temos como hipótese que Catarina também se autoriza, do ponto de vista simbólico, a emancipar-se cultural e socialmente de seus pais e irmãos. Em primeiro lugar, porque ela se sente autorizada para tal empreendimento. Ela percebe que isso é valor para sua família e, sobretudo, para o pai. As aulas de matemática que Seu Hélio dava na roça, constituem-se, a nosso ver, como um importante modelo afetivo de valorização dos estudos e, mais especificamente, da profissão de professor. Em segundo lugar, ela própria também não se envergonha de suas origens, embora tenha, com uma autodeterminação inabalável, lutado no sentido de não reproduzí-las. Catarina transita desembaraçadamente entre o ponto de partida, que ela tem como apoio, como âncora afetiva, e o ponto de chegada, o que tornou-se. A respeito de seu estilo de linguagem, por exemplo, ela comenta, sem manifestação de afastamento ou vergonha: “a gente muda muito, mas... a essência... parece que o jeitão da gente ainda permanece”. Sua relação de proximidade com os moradores do bairro, parece também apontar nessa direção. Sentimos que há também nos outros irmãos, um vínculo importante com as origens. Chamou-nos a atenção, por exemplo, o comentário de Vera, uma jovem de 20 anos, sobre o jeito de ser da família, grosseiro, sem polimento: “a gente não pode nunca deixar de ser a pessoa que a gente é”.

Se Catarina enfrentou fortes batalhas para chegar onde chegou, sua luta foi facilitada no campo das relações intersubjetivas familiares. Ela lutou contra a reprodução

da miséria, tanto material, quanto cultural, e, em grande medida, foi vitoriosa, mas não vivenciou esse processo como transgressão, ou como ruptura.

Referências importantes para além do círculo familiar e oportunidades bem

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