A fim de avaliar a distribuição da biodiversidade ao longo da APA Aldeia- Beberibe, dados secundários sobre a biodiversidade de aves (THEL, 2010), morcegos (LUNA, 2010), pequenos mamíferos não-voadores (pequenos roedores e marsupiais com peso inferior a 1kg) (AZEVÊDO, 2011) e plantas arbóreas (espécies lenhosas com Diâmetro à Altura do Peito ≥ 3 cm) (FERREIRA, 2011; SOUZA, 2011) foram compilados.
Para a captura das aves, assim como para a captura dos morcegos, os autores utilizaram redes de neblina. Já para a captura dos pequenos mamíferos não- voadores foram utilizadas armadilhas tipo Sherman, dispostas aos pares e a cerca de 10 metros uma da outra, ao longo de transectos. E para a flora arbórea foram alocados dois transectos perpendiculares à borda do fragmento florestal, sendo que em cada transecto foram dispostas parcelas de 50 x 5 m a diferentes distâncias da borda (0m, 50m, 100m, 150m, 200m, 300m e 400m quando possível). Os dados dos quatro grupos taxonômicos foram compilados para 12 trechos de floresta ao longo da PE-027 em Aldeia (os trechos escolhidos foram aqueles que continham dados de pelo menos três dos quatro grupos biológicos em questão) (Figura 7). O esforço amostral variou entre os diferentes trechos, sendo de 243 à 586 horas.rede para as aves, de 108 à 428 horas.rede para os morcegos, de 226 à 428 armadilhas/noite para os pequenos mamíferos não-voadores e para a flora arbórea de 3 à 6 parcelas. Para mais detalhes sobre a coleta das espécies dos diferentes grupos ver autores citados acima.
Figura 7 - Localização geográfica dos 12 trechos florestais (pontos amarelos) estudados com os principais remanescentes florestais (em verde) e recursos hídricos (em azul) na APA Aldeia-Beberibe, Pernambuco1
Fonte: Shape IBGE / Des. Gráf.: Ygor Cristiano (2015).
Os dados utilizados foram o número de espécies de cada um dos trechos, bem como o número de espécies endêmicas, sua origem em relação ao Brasil (nativa ou exótica) e/ou o grau de ameaça (segundo a classificação da IUCN). Para uniformizar o esforço amostral, de modo que os níveis de biodiversidade das diferentes áreas
1 Coordenadas Geográficas (UTM – 25M): GS: W281809 S9118280; Cer: W279440 S9116420; RA: W280058 S 9116142; Ter: W281262 S 9120070; FM: W279455 S9116874; HG: W277829 S9119604; MC: 277931 S9121527; RF: W277932 S91121384; Bel: W279170 S9123226; BA: W274309 S9123927; SC: W273384 S9124692; RT: W276924 S9127582. Os trechos estudados foram tratados por siglas para manter anônima a identidade dos proprietários. Os trechos “FM”, “RF” e “BA” são condomínios horizontais.
pudessem ser comparados, estimou-se o número de espécies em cada área, considerando um mesmo esforço amostral para o grupo taxonômico em questão. Isto foi feito através de uma regra de três simples, resumida pela fórmula:
NEestimado = NEobservado x EApadrão / EArealizado
Onde NE é o número de espécies de um dado grupo taxonômico em uma dada área e EA é o esforço amostral. O EApadrão foi aquele mais frequente entre as
diferentes áreas de estudo.
A partir destes dados foi gerado um mapa de distribuição da biodiversidade dos diferentes grupos, através do Programa ArcGis 10.1, associando-se a cada valor de biodiversidade encontrado sua respectiva coordenada geográfica, de modo a se identificar as áreas que mais contribuem com os serviços ambientais oferecidos pela manutenção desta biodiversidade. Neste estudo utilizamos os níveis de diversidade de espécies como indicadoras de áreas com maior potencial para contribuir com uma maior variedade de serviços ambientais e, portanto, devem ser priorizadas para o recebimento de incentivos para sua manutenção.
Para a coleta das informações foram realizadas entrevistas semiestruturadas (ver entrevista no Apêndice A) que incluíram perguntas sobre a estimativa da disposição a pagar (DAP) para contribuir com a manutenção das florestas da APA e da disposição a receber como compensação pela manutenção das florestas de suas propriedades. Portanto, este não é um trabalho usual de valoração da biodiversidade e sim a valoração do quantitativo que o proprietário considera pertinente receber para compensá-lo por seus gastos para manter áreas de florestas pela qual paga impostos, mas que não atende suas necessidades básicas e nem lhe dá retorno econômico.
Além disso, a entrevista também incluiu questões sobre o perfil do entrevistado, tais como sexo, idade, grau de escolaridade, ocupação, renda familiar entre outras. Assim como também questões relacionadas à percepção ambiental dos proprietários. No decorrer da aplicação das entrevistas foi exposto o conceito de serviços ambientais, no intuito de oferecer informações adequadas sobre o que está sendo valorado, e ainda, depois de cada entrevista foi entregue ao proprietário um relatório com a lista das espécies identificadas em sua área, com informações sobre sua ecologia e biologia.
O público alvo foram homens e/ou mulheres, acima de 18 anos, que são proprietários de terra com remanescentes florestais ao longo da Estrada de Aldeia (PE-027) entre os Km 5 e 20, localizados nas proximidades dos 12 trechos citados anteriormente (raio de 500m). O tipo de amostragem utilizado foi a não-probabilística com uma abordagem de amostra em “bola de neve” (snowball sample). Uma amostragem não-probabilística é quando a probabilidade de alguns ou de todos os elementos da população de pertencer à amostra é desconhecida (MASSUKADO- NAKATANI, 2009 apud OLIVEIRA; ALMEIDA; BARBOSA, 2012). Ou seja, os indivíduos são selecionados sem conhecer a verdadeira probabilidade de sua seleção. Este tipo de amostragem é normalmente utilizada quando há uma inacessibilidade a todos os elementos da população (GONÇALVES, 2009). Já a abordagem em “bola de neve” é caracterizada quando um grupo inicial é escolhido por acessibilidade, e cada membro desse grupo identifica outros que pertençam à mesma população de interesse, esse processo pode ser repetido várias vezes, levando ao efeito “bola de neve” (LEVINE, 2008).
O método de valoração utilizado foi o Método de Valoração Contingente (MVC). Este método está inserido dentro dos métodos de preferência revelada, e baseia-se nas preferências individuais dos usuários dos recursos naturais em questão (MOTA et al., 2010). Este método utiliza dois indicadores de valor, a disposição a pagar (DAP) e a disposição a receber, que respectivamente são, o quanto os indivíduos estariam dispostos a pagar pela manutenção de determinado serviço e/ou melhoria da qualidade ambiental, e quanto esses mesmos indivíduos estariam dispostos a receber por sua perda (MOTA et al., 2010; MOTTA, 2006). No entanto, para este estudo, modificamos o conceito da disposição a receber, pois não estamos relacionando-o à perda do serviço ambiental, mas sim ao valor necessário para estimular o proprietário a continuar a mantê-lo, bem como compensá-lo por este investimento. Ou seja, esse valor seria um reconhecimento e uma compensação ao proprietário por manter a floresta e seus serviços ambientais, importantes para o coletivo, mas não uma indenização pela perda desta floresta. Acreditamos que da forma como usado aqui, este conceito contribui mais para os propósitos da conservação dos recursos naturais, além de ser mais condizente com a realidade, pois a ausência de uma floresta não pode ser compensada por um valor em dinheiro como supõe o conceito usual do termo ‘disposição a receber’. Por isso a partir deste
momento, vamos nos referir a disposição a receber, como disposição a receber como compensação pela manutenção das florestas (DARF).
A percepção ambiental foi analisada em função da análise de conteúdo das informações concedidas nas entrevistas. Bardin (2009) se refere a essa técnica como um conjunto de instrumentos metodológicos, em constante aperfeiçoamento, que se aplicam a discursos diversificados, servindo para expor o que está oculto no texto mediante a decodificação da mensagem. Para o tratamento dos resultados e a interpretação deste estudo, foram identificadas categorias de respostas que foram enumeradas de acordo com sua frequência, ou seja, para cada pergunta realizada, observou-se as diferentes respostas, e estas foram agrupadas à medida que foram sendo repetidas. Assim, a importância de uma categoria de resposta aumenta com o aumento de sua frequência de aparição.
Para avaliar se a percepção dos proprietários sobre os valores em dinheiro da DAP são correlacionados aos níveis de biodiversidade, foi feito um teste não paramétrico de correlação de Spearman. Nossa hipótese consiste que as pessoas que usufruem de áreas de florestas mais preservadas estariam mais sensíveis à importância dessas florestas e, portanto, mais propensas a pagar pela conservação das mesmas. Estamos assumindo que os maiores níveis de biodiversidade são indicadores de áreas mais bem preservadas e que, portanto devem fornecer mais e melhores serviços ambientais. Nesse caso, utilizamos a riqueza de espécies de aves, pois este grupo é considerado na literatura específica um bom indicador e também por ser o único com dados para todos os trechos estudados.
O mesmo teste foi feito correlacionando a DARF com os níveis de biodiversidade de aves, como também, correlacionando a DARF com a DAP. A ocorrência ou não destas correlações foi avaliada a fim de investigar possíveis variáveis que podem atuar na percepção do proprietário e influenciar nos valores que o mesmo atribui como justos para pagar ou receber para a continuidade da manutenção das florestas.
O Coeficiente de Correlação de Spearman, rs, é um valor numérico que varia
de 1 a -1, onde valores próximos a -1 indicam uma correlação negativa entre as variáveis, valores próximos a 0 indicam falta de correlação e valores próximos a 1 indicam uma correlação positiva. Esse coeficiente é especialmente utilizado para
uma amostra com N pequeno (STEIMACHER, 2010). A correlação foi considerada significativa para valores de p<0,05.
Para contextualizar os valores da DAP e DARF com valores de despesas para a manutenção da propriedade, estimamos os valores relativos de ambas como uma porcentagem dos Impostos Territoriais (IPTU e ITR) e da energia elétrica. As análises estatísticas foram feitas através do programa BioEstat 5.3 (AYRES et al., 2011).
CAPÍTULO 3: PERCEPÇÃO, VALORAÇÃO, MAPEAMENTO DA