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Seguindo as características apresentadas no tópico anterior, os museus são instituições que oferecem ao público a ENF. Segundo Julião (2006), as primeiras instituições museais que surgiram no Brasil datam do século XIX, sendo o primeiro deles fruto de uma iniciativa de D. João VI.

Já os museus dedicados a ciência e tecnologia aparecem pela primeira vez nos últimos anos da década de 1970, reflexo do processo de abertura política do país. Mas foi durante a década de 1980 que receberam maior destaque e seu auge se dá na década de 1990 Valente (2008).

Neste contexto, dentro da literatura não há uma definição consensual do que seja um museu, mas em acordo com a Lei Nº 11.904, de 14 de janeiro de 2009, o museu é caracterizado da seguinte forma:

“Consideram-se museus, para os efeitos desta Lei, as instituições sem fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam, interpretam e expõem, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação, contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico, artístico, científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento”. (BRASIL, 2009)

Por conta das atribuições de um museu, tais como: conservar, investigar, comunicar, interpretar e expor, são diversas as possibilidades, atividades e intencionalidades associadas a este tipo de instituição. Não é possível analisar de forma estruturada e rígida as particularidades sem uma caracterização que diferencie os museais por trabalhos realizados, temas abordados, utilização dos acervos, estratégias de divulgação, popularização e ensino de ciências. Então buscamos na literatura caracterizações que superassem a definição proposta na Lei. Segundo Marandino (2006), nos últimos anos, a pesquisa relacionada às temáticas culturais e educacionais em museus, está muito próximo de tornar-se um campo de produção de conhecimento, devido a intensificação das produções na área. Além da afirmação, a autora propôs caracterizar os trabalhos em dois enfoques: enfoque educacional e o enfoque comunicacional. O objetivo principal da caracterização foi o de discutir algumas perspectivas da pesquisa educacional realizada nos museus de ciências de acordo com as referências teóricas utilizadas.

Neste interim, o enfoque educacional refere-se às pesquisas que focam principalmente na aprendizagem, práticas educativas dentro de museus, transformação dos saberes por parte dos monitores e cultura museal. O enfoque comunicacional compreende os estudos do público e das avaliações de exposição. Outra caracterização proposta na literatura é a desenvolvida por Montpetit (1998) que propõe três enfoques: o epistemológico, o histórico e o ontológico,

levando em conta as formas como os temas são abordados, o valor estipulado aos objetos que compõem o cenário museal e a natureza das coleções,

O enfoque epistemológico é caracterizado pela experiência, um museu onde o foco central reside na experimentação por parte do visitante. Geralmente estes museus tiveram origens em espaços dedicados à pesquisa, como observatórios, salas de anatomia, laboratórios, institutos e outros. Neste tipo de museu o processo de construção de ciência se dá por meio da aproximação da realidade dos pesquisadores e seus métodos.

Quando se trata de um museu de enfoque histórico os artefatos são o centro da instituição. Dentro desta categoria estão os museus que utilizam, maquinários, peças e aparatos em geral para explicar a trajetória da sociedade tradicional e industrial, tais como museus da história nacional, etnográficos e história da ciência e da técnica. A narrativa, a demonstração do funcionamento de determinadas peças e o aspecto visual agradável evidenciam o processo educativo proposto por estas instituições.

Já o enfoque ontológico tem como foco principal as instituições que dispõem de coleções vivas. Aqui se enquadram zoológicos, jardins botânicos e alguns projetos de preservação de espécies tanto do reino animal, como do vegetal. São percebidas tradicionalmente dois tipos de uso nestes espaços: auxiliar no trabalho de pesquisadores e profissionais, dando oportunidade de elaborar e verificar teorias e mostra ao visitante exemplares vivos da fauna e flora.

Ainda é possível adotar a caracterização proposta por Cazelli, et al, (2003) que considera a interatividade como elemento importante na caracterização dos museus. Considerando a interatividade os museus seriam divididos em três gerações: os de primeira geração, onde o a ênfase é na classificação e apresentação de conceitos científicos por parte de monitores, os de segunda geração, onde existe a participação do visitante de maneira individual por meio de experimentos e os de terceira geração que privilegiam a interação entre os visitantes e os profissionais do museu.

Por fim é importante também caracterizar os museus de ciência por meio do tipo de estratégia é utilizada para o acesso ao conhecimento científico; alfabetização,

2.3.1. Caracterização de museus de ciências por acesso ao conhecimento científico

Devido à grande diversidade de instituições museais dedicadas à ciência e tecnologia, faz-se importante também caracterizar os museus por meio do tipo de estratégia que é utilizada para o acesso ao conhecimento científico; se por meio da

alfabetização, da divulgação ou da popularização. Baseando-se na revisão do

conceitual acerca dos conceitos de popularização, alfabetização e divulgação científica proposta por Germano e Kulesza (2007), emerge a possibilidade de criar uma nova maneira de caracterizar os museus de ciências, agora de acordo com o tipo de intervenção proposta pela instituição.

Sendo assim, um museu focado na alfabetização científica tem suas ações voltadas predominantemente a capacidade de compreender, expressar opinião e ler sobre assuntos científicos (GERMANO e KULESZA, 2007, p.13). Tal instituição é idealizada muito próximo ao modelo formal de ensino, as exposições e atividades de monitores acabam por reforçar as experiências vivenciadas no espaço escolar, não só em estratégias, mas também na abordagem dos conceitos científicos. É comum que este tipo de museu tenha o público prioritário, em alguns casos o único, instituições formais de ensino. Sua dinâmica é direcionada a recepção dos grupos escolares, quase que não desenvolvendo ações para aproximar-se do público em geral. Estes estabelecimentos possuem outras características que reforçam o foco na alfabetização científica, tais como: ter a exposição alicerçada em uma área do saber específica, horário de funcionamento, (preparado para atender instituições de ensino, não funcionando em fins de semana) e um protocolo bem estabelecido para visitações de instituições de ensino. Normalmente estes museus estão subordinados a outras instituições, tais como universidades, centros de pesquisa, autarquias e empresas privadas. Devido a influência de ações governamentais um museu focado na alfabetização científica pode desempenhar atividades de divulgação, porém é comum que logo após o encerramento das “ações externas” o museu retorne a suas atividades de alfabetização científica.

Um museu onde o conhecimento científico é abordado por meio da divulgação

científica, tem a sua proposta tornar conhecido, transmitir, difundir o conhecimento

científico (GERMANO e KULESZA, 2007, p.14). Diferente da alfabetização científica, a divulgação ancora-se na possibilidade de aproximar o mundo científico dos “outros

mundos” que não o mundo da educação formal. Dentro da dinâmica museal a prioridade é atrair o público em geral, expor a ciência diferente da oferecida em sala de aula e presente no cotidiano. Existe um esforço destas instituições em realizar ações que apresentem suas exposições ao grande público, como por exemplo, a criação de datas temáticas, eventos, horários mais amplos e uma maior diversidade em suas exposições e buscando conectá-las aos temas atuais. A abordagem da divulgação científica difere principalmente das outras duas por conta da busca pela presença do público nas exposições.

A intervenção pautada na popularização da ciência dentro de um museu de ciências tem como foco o diálogo horizontal, que se dá entre diferentes “em torno de questões simples do cotidiano, até avançar para uma compreensão metódica e mais elaborada da realidade” (GERMANO e KULESZA, 2007, p. 21). Este tipo de museu está incorporado a dinâmica do local onde está inserido e utiliza-se da transposição das ideias contidas em textos científicos para a realidade popular, Mueller (2002). Museus de ciências com a abordagem da popularização, geralmente surgem de espaços que já tiveram em algum momento influência da produção de ciência e (ou) tecnologia, tais como; Fábricas, observatórios, casarões, associações. Por estar inserido num contexto local, o museu tem como principal missão conservar e transmitir a tradição científica e (ou) tecnológica da comunidade através de expressões constituídas na própria localidade. A ciência é transmitida respeitando a vida cotidiana e os saberes dos indivíduos. São observações astronômicas num antigo observatório contando a história do local e apresentando constelações e planetas conhecidos pelo público, ou a antiga associação de pescadores apresentando uma peça teatral que fala das fases da lua, marés e “bons ventos”, um antigo engenho realizando uma caminhada num resquício de mata atlântica. Os museus de popularização da ciência utilizam-se frequentemente da arte e cultura como ferramenta de aproximação e reforço de identidade com seu público.

Em seguida elaboramos um quadro (Quadro 2) com a caracterização referente aos museus de ciência por acesso ao conhecimento científico.

Quadro 2. Caracterização de museus de ciências por acesso ao conhecimento científico Características Alfabetização Científica Divulgação Científica Popularização da Ciência

1. Proposta Compreender, expressar opinião e

ler sobre assuntos científicos. Tornar conhecido, transmitir, difundir o conhecimento científico. O diálogo horizontal, conservar e transmitir a tradição científica e (ou) tecnológica da comunidade 2. Abordagem Transmissão de conteúdo. Conteúdo observável e participativo. Negociada e centrada no visitante.

3. Horário Coincidente com o horário escolar. Horário ampliado independente do horário escolar. Horário conveniente com o do público local. 4. Intencionalidade da aprendizagem

Explicita. Explicita Implícita

5. Localização Em instituições tais como universidades, centros de pesquisa, autarquias e empresas privadas Planejada e adequadas para receber o público em geral. Espaços que já tiveram em algum momento influência da produção de ciência e (ou) tecnologia, tais como; Fábricas, observatórios, casarões, associações 6. Grupos que visitam Homogêneo Homogêneo e Heterogêneo Heterogêneo 7. Perfil da exposição Área específica do saber científico. Áreas diversas do saber científico. Área específica do saber científico. Fonte: o autor (2017)

As caracterizações apresentadas neste tópico contemplam parte considerável dos museus de ciências que funcionam atualmente, mas é importante evidenciar que os museus estão em frequente mudança e podem terminar por apresentar características inovadoras, que por sua vez necessitem de novas caracterizações. Outro fator a ser considerando dentro da atividade museal é o papel social do museu e suas transformações ao longo do tempo.

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