A análise tática surgiu para auxiliar os profissionais envolvidos no fenômeno futebol. Para Hughes e Franks (1997) as informações advindas da análise dos comportamentos de jogadores e equipes são fundamentais no aprendizado e no desempenho esportivo por parte dos jogadores e treinadores.
Sobre esse tema Garganta (2001, p.39) afirma:
Por isso, o conhecimento a cerca da proficiência com que os jogadores e as equipas realizam as diferentes tarefas tem-se revelado fundamental para aferir a congruência da sua prestação em relação aos modelos de jogo e de treino preconizados.
Sendo assim, os treinadores e investigadores estão buscando esclarecimentos a cerca do desempenho dita diferencial dos jogadores e das equipes, com o intuito de identificarem padrões que elucidem o rendimento desportivo e de como os conteúdos dos modelos de jogo e treino induzem ou não a eficácia e a eficiência das equipes e dos
23 jogadores de futebol. (GARGANTA, 2001).
Para Garganta (2001) a tendência da análise desportiva é de configurar modelos de jogo a partir de análise de base de dados quantitativas e qualitativas que permitam definir táticas eficazes para a vitória. Sendo o jogo um ambiente de elevada complexidade e aleatoriedade faz-se necessário uma definição adequada de seus procedimentos e propósitos.
Mesmo sendo uma ferramenta fundamental para o entendimento do jogo a análise tática ainda é vista com certa resistência por alguns profissionais envolvidos com o fenômeno como afirma Garganta (2001, p. 45):
Não obstante a análise do jogo possa disponibilizar informação importante, permanece ainda certa resistência à sua utilização, baseada na visão tradicional de que os treinadores experientes podem observar um jogo sem qualquer sistema de apoio à observação, e que retêm com precisão os elementos críticos do jogo.
Com o entendimento do jogo através da análise do mesmo é possível manipular a estrutura formal e funcional do jogo. Essas alterações são fundamentais, pois permitem adequar a complexidade das atividades aos níveis de conhecimento e desempenho dos atletas. (HOLT, STREAN, BENGOECHEA, 2002; LEE, WARD, 2009).
25
3 MATERIAIS E MÉTODOS
Esta pesquisa terá como base uma abordagem qualitativa, onde os dados serão coletados através de análises descritivas e interpretativas. (THOMAS, NELSON, 2007).
Foram analisados 6 jogos entre as equipes do Real Madrid e do Barcelona no ano de 2012. Esses confrontos ocorreram no Campeonato Espanhol, Super Copa da Espanha e Copa do Rei. Foram escolhidas tais equipes pelos motivos apresentados nos objetivos do estudo.
Para análise foi feito o download dos vídeos dos 6 jogos através da plataforma Wyscout. Os vídeos foram analisados diversas vezes para a obtenção de todos os dados necessários.
A análise inicial foi feita em cima do modelo de jogo da cada uma das equipes da seguinte maneira:
a) Princípios Operacionais (Ataque, Defesa, Transição Ofensiva e Defensiva). b) Princípios Estruturais (Ataque, Defesa).
c) Esquema Tático
Todos os itens acima conforme apresentados nas referências bibliográficas. Para coleta dos dados do modelo de jogo foi observado o esquema tático e cada um dos Princípios Operacionais e Estruturais Predominantes a cada 15 minutos de jogo de cada uma das equipes de maneira separada, ao final da partida foi determinado a partir desses dados quais princípios predominantes compõe o modelo de jogo de cada uma das equipes.
Para definição dos Princípios Operacionais (Ataque, Defesa, Transição Ofensiva e Transição Defensiva) foram observadas as regras de ação individuais e coletivas da equipe em cada um dos momentos do jogo conforme apresentado no referencial teórico.
Para análise dos Princípios Estruturais (Ataque e Defesa) foi utilizado o campograma a seguir:
26
Figura 1 – Campograma
Para análise de cada um dos Princípios Estruturais forma utilizados procedimentos próprios conforme apresentados a seguir.
Os princípios de ataque foram avaliados quando equipe estava com bola e a sequência ofensiva chegou até o campo de ataque (Zonas 4, 5 e 6). Tais princípios foram avaliados da seguinte maneira:
Amplitude – Foi considerado que a equipe tinha amplitude quando os dois corredores laterais (Direito e Esquerdo) eram ocupados por jogadores da equipe com posse de bola simultaneamente no campo de ataque (Zonas 4, 5 ou 6).
Penetração – Foi considerado quando jogador do ataque progrediu sem bola em direção ao espaço nas costas da ultima linha de defesa adversária com possibilidade de recebimento de um passe.
Profundidade – Foi considerado quando jogador do ataque sem bola obrigou a defesa adversária a ocupar uma zona mais próxima ao seu gol (defendido pela equipe adversária).
27
Mobilidade – Foi considerado quando 3 ou mais jogadores trocaram de quadrante simultaneamente criando novas linhas de passe.
Apoio – Foi considerado quando portador da bola possuía linhas de passe em seu quadrante ou nos quadrantes subjacentes.
Ultrapassagem – Foi considerado quando portador da bola fez um passe para frente e logo após progrediu sem bola criando uma linha de passe para frente para o novo portador da bola.
Compactação Ofensiva – Foi considerado quando equipe ocupava 3 zonas consecutivas do campo.
Os princípios de defesa foram avaliados quando equipes estavam sem bola e sequência ofensiva do adversário chegava até o campo de ataque:
Retardamento – Foi considerado quando marcador direto do portador da bola e os jogadores de defesa próximos tiveram ação sobre o mesmo sem a intenção do desarme a fim de evitar a progressão do adversário.
Cobertura – Foi considerado que havia cobertura quando entre o portador da bola e o gol havia mais do que um jogador da equipe de defesa.
Equilíbrio – Foi considerado quando havia jogadores da equipe de defesa em 3 ou 4 corredores atrás da linha da bola.
Basculação – Foi considerado quando jogadores se movimentavam de corredor lateral (direito para esquerdo ou esquerdo para direito) acompanhando a movimentação da bola sem perder o princípio do equilíbrio.
Recuperação – Foi considerado quando equipe sem bola passou a ocupar uma zona mais próxima ao seu gol defendido assim que adversário progredia no campo de jogo.
Compactação – Foi considerado quando equipe sem bola ocupava de 3 a 2 zonas consecutivas atrás da linha da bola.
Bloco – Foi considerado quando equipe se movimentava entre a zonas do campo (de 1 em direção à 5 ou de 5 em direção à 1) sem perder o princípio da compactação.
Direcionamento – Foi considerado quando equipe sem bola obrigava adversário a ir para quadrantes onde havia menos opções de passe sem progredir no campo de jogo.
28
Para definição do esquema tático foi observado à disposição espacial e a relação estabelecida entre jogadores da mesma linha de marcação. Foram definidos esquemas táticos com até 5 linhas (1 do goleiro mais 4 dos jogadores de linha) de cada um dos jogadores em suas devidas posições, conforme Figura 2:
Figura 2 - Jogadores analisados em suas posições para definição do esquema tático da equipe.
Na Figura 2 o Barcelona está posicionado no 1-4-3-3. O goleiro não aparece na figura por conta da filmagem. Os jogadores destacados em amarelo representam a linha de defesa, os destacados em azul a linha de meio campo e os destacados em vermelho da linha de ataque.
Cada uma das sequências ofensivas terminadas em finalização - arremate da bola com a intenção aparente da realização do gol – foram coletadas e analisadas separadamente (as sequências ofensivas originadas de faltas e escanteios cobrados de maneira direta, onde menos de 2 passes foram realizados foram excluídos da análise, pois o comportamento das equipes tem outras referências, específicas a esse momento do jogo). As sequências ofensivas terminadas em finalização são momentos determinantes dentro de uma partida, onde há a possibilidade iminente da alteração do placar. Nas sequências ofensivas foram observados os Princípios Operacionais (Ataque, Transição Ofensiva) e Princípios Estruturais (Ataque) da equipe que tem a bola na sequência ofensiva e os
29
Princípios Operacionais (Defesa, Transição Defensiva) e Princípios Estruturais (Defesa) da equipe que está sem a bola seguindo os mesmos procedimentos descritos acima em cada uma das sequências.
Em relação às sequencias ofensivas terminadas em finalização foram analisadas ainda os seguintes itens conforme adaptado de Leitão (2004):
a) Tempo de jogo decorrido b) Tempo de realização do ataque c) Forma de recuperação da bola
- Desarmes – “Forma direta de interrupção da progressão da jogada do adversário quando a bola está de posse do jogador adversário” (Leitão, 2004).
- Interceptações – “Forma de interrupção direta de passes, cruzamentos e/ou lançamentos da equipe adversária” (Leitão, 2004).
d) Número de passes em cada sequência ofensiva
- Passes – Incluindo passes, cruzamentos e lançamentos “Esses fundamentos são caracterizados pela transmissão da posse de bola entre dois jogadores da mesma equipe”. (Leitão, 2008).
e) Números de passes para o lado/trás e para frente em cada sequência ofensiva - Passes para Lado/Trás - Caracterizado pela transmissão da posse de bola entre dois jogadores da mesma equipe onde o jogador que recebe está mais longe ou a mesma distância do gol adversário do que o jogador que transmite a bola.
- Passes para Frente – Caracterizado pela transmissão da posse de bola entre dois jogadores da mesma equipe onde o jogador que recebe está mais próximo do gol adversário do que o jogador que transmite a bola.
f) Número de toques do jogador que finaliza g) Forma de Finalização
- Pé – Arremate com um dos pés (Direito ou Esquerdo) - Cabeça – Arremate com a cabeça
- Outra parte do corpo – Arremate com outra parte do corpo h) Local da Finalização
- Dentro da área – Dentro da Grande Área (Incluindo Pequena Área) - Fora da área – Fora da Grande Área
31
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Os jogos
O universo da pesquisa contemplou 6 jogos entre as equipes do Real Madrid e do Barcelona no ano de 2012, conforme apresentado no Quadro 3:
Quadro 3: Jogos das equipes do Real Madrid e Barcelona no ano de 2012
Jogo Competição Data Mandante Placar
(M x V) Visitante