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2.3 Description des composants

2.3.3 Informations communes à plusieurs types de blocs

Para a aplicação da segunda intervenção, trouxe um conto da Nigéria que trata de OKPIJA, uma princesa africana. Utilizei essa história para dar continuidade ao estudo acerca

da realeza negra africana com as crianças. Com essa atividade, tinha intenção, primeiramente, de apresentar à classe um conto o qual se reportava a uma realeza do continente africano, algo até então desconhecido por elas. Em segundo lugar, desejava que a turma fizesse uso de argila para produzir imagens das cenas desse conto e também das suas concepções acerca da realeza africana. Queria também que a turma utilizasse outra forma de linguagem que não apenas a fala para expressar suas idéias e, por fim, pretendia observar como a classe iria portar-se ao ter que manusear a argila, devido a sua tonalidade escura, e se haveria ou não algum tipo de resistência quanto a esse contato e, por conseguinte, à produção de esculturas de cor escura.

Para essa experiência, dividi a turma em dois grupos e realizei o momento sem a presença da professora. Tomei essa decisão, primeiro, porque queria acompanhar com mais atenção suas reações e/ou manifestações quanto à história e as produções artísticas relativas à mesma. Segundo, porque teria oportunidade de saber dos/as estudantes se tinham conhecimento de práticas racistas em sala de aula ou em outros espaços da escola. De fato, como suspeitava, as crianças confirmaram a existência de racismo entre os colegas de sala, diferentemente do que havia sido dito na presença da docente.

Essa atividade foi dividida em três momentos. Num primeiro, pedi que os/as estudantes ficassem sentados, fechassem os olhos e tentassem imaginar as cenas do conto que iria narrar. Para desenvolver esse momento, inspirei-me na Sociopoética, que é um método de pesquisa e aprendizagem que tem dentre seus objetivos impedir “o corte da cabeça do resto do corpo, da intuição, da sensualidade e da sexualidade e a separação entre conhecimento e aprendizagem” (GAUTHIER, 1999, p. 53 apud SOARES & PETIT, 2001). Observei que grande parte das crianças participou desse momento de relaxamento, ao passo que outras, entretanto, ficaram de olhos abertos, sorriam e até observavam aqueles colegas que estavam concentrados na atividade.

Ao finalizar a narrativa do conto nigeriano, lancei algumas indagações ao grupo com o intuito de perceber, primeiramente, o que haviam entendido acerca do conto e se haviam percebido que essa história dava-se no continente africano, pois o mesmo não apresenta a África como local da história, mas fazia referências a deusas africanas em momentos nos quais dizia que “havia uma princesa de extraordinária beleza chamada Okpija. Sua pele era tão macia quanto a lã. Seus olhos brilhavam como dois diamantes. Era tão bonita que as deusas africanas a invejavam, pois ela recebia muitos elogios e era galanteada por todos os homens”. Somente no final do conto é que o autor cita a África, dizendo que “até hoje, nessa região da África, existe uma espécie de peixe que dizem serem os descendentes de Okpija, pois possuem características parecidas com as de seres humanos, como dentes e

glândulas que lembram o formato de seios”. (IKECHUKWU, 2006, p. 31-38). Quando indaguei sobre o local da história, a grande maioria das crianças indicou a África, mas houve quem citasse a Amazônia, resposta não aceita pelos demais alunos/as.

Em um segundo momento, solicitei então que usassem a argila para representar a história, esclarecendo que poderiam fazer qualquer imagem que se referisse à História de Okpija. Nesse momento, observei que a grande maioria da turma ficou incomodada em ter que tocar a argila. Diziam não quererem sujar as mãos, pois a mesma era escura e feia, e que não conseguiriam construir os personagens da história. Disse-lhes então que antes de voltarem à sala de aula todos/as iriam lavar as mãos, o que pareceu tranqüilizá-los, mas também houve quem não manifestou rejeição à argila e logo deu início à produção de esculturas. À medida que alguns estudantes construíam os personagens, outros logo passaram a observar, de modo que começaram a elogiar as produções dos colegas e até chamavam minha atenção para que eu olhasse. Por sua vez, outros diziam que as esculturas eram feias, o que motivou alguns desentendimentos entre eles/as.

Em alguns momentos, tive que intervir ao perceber esses conflitos entre a turma, de modo que argumentava que não havia nenhuma disputa ou concurso para eleger o mais bonito e que me interessava em ver que tipo de produções artísticas eles/as eram capazes de realizar. No entanto, percebi que a estética é um tema presente no cotidiano daquelas crianças, fazendo mesmo com que alguns estudantes deixassem de participar de certas atividades que envolviam produções artísticas. Durante as atividades os/as estudantes perguntavam-me: “Tia, tá bonito?”. Todavia, acredito que, devido à tonalidade escura da argila, alguns estudantes tenham-na associado à pele negra e tenham resistido à produção de imagens escuras.

Num terceiro momento, observou-se que, dos 22 estudantes que participaram do anterior, apenas 08 produziram esculturas. Os demais argumentaram que não sabiam fazer o que fora proposto ou, mesmo quando faziam, manifestavam que estes estavam feios e logo em seguida destruíam suas obras, sendo as seguintes imagens confeccionadas expostas ao grupo:

a) dos 05 personagens homens, 02 foram confeccionados com coroas e estavam sentados em tronos ao lado da princesa, pois, segundo seus autores/as, ao casar-se com uma princesa tornavam-se príncipes;

Figura 18 – Príncipe 1 Figura 19 – Príncipe 2 Figura 20 – Príncipe 3

Figura 21 – Príncipe 4

b) das 03 princesas produzidas, 01 portava coroa, mas todas elas possuem cabelos longos, sendo que uma delas estava sentada num trono;

Figura 24 – A princesa 2.

c) Ainda foram produzidas imagens dos três peixes representando os três homens e uma cabana, que, segundo seu autor, serviu para que descansarem durante a viagem.

Figura 25 – Os três peixes. Figura 26 – A cabana.

Esse conto nigeriano teve sua publicação em 2006 por Ikechukwu na obra Oluoma. No entanto, como tinha intenção de que as crianças manifestassem suas concepções sobre o ser negro decidi não mostrá-la, pois tive receio que as imagens pudessem induzi-las ao tentar reproduzir imagens semelhantes às que teriam tido acesso.

4.3.1. Algumas análises.

Havia uma excessiva preocupação por parte das crianças quanto à estética; repetia- se a referência da realeza eurocêntrica quanto ao uso de coroas, tronos e mulheres com cabelos lisos; rejeitavam o contato com a argila sob a alegação de que esta é escura. As crianças não rejeitaram a existência da realeza africana.