A Igreja Adventista do Sétimo dia tem sua origem no millerismo, movimento interdenominacional surgido no século XIX, com ênfase na verdade bíblica do segundo advento de Cristo à Terra. Os fundadores da Igreja se dedicaram ao estudo bíblico, tendo presente esta crença.
Em 1863 foi concluído o processo de organização da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em um congresso em Battle Creek, nos Estados Unidos, de 20 a 23 de maio. Com a presença de representantes de Associações e Igrejas Adventistas, foram estudados planos de organização. O evento teve como presidente John Byington e como secretário, Uriah Smith.
O despertar profético-religioso culminou com o histórico desapontamento de 22 de outubro de 1844, ocasião em que deveria ocorrer o retorno de Jesus Cristo, conforme anunciava Guilherme Miller. A segunda vinda de Jesus era o tema principal da mensagem que percorreu muitas igrejas. Alguns levaram a doutrina da segunda vinda ao extremo, chegando a fixar a data.
O movimento millerita foi assim denominado em decorrência do nome de um dos mais destacados pregadores americanos da vinda de Cristo, durante a primeira
parte do século XIX, Guilherme Miller, que teve formação religiosa batista em sua infância.
Seguindo o método de que a Bíblia interpreta-se a si mesma, isto é, uma passagem é explicada por outras, Miller desejava compreender a profecia de Daniel 8, 14: “até duas mil e trezentas tardes e manhãs, e o santuário será purificado”59.
Os capítulos 8 e 9 de Daniel apresentam duas visões que mencionam tempo. O capítulo 8 termina referindo-se um período de 2300 tardes e manhãs e a do capítulo 9 é conhecida como a visão das setenta semanas. O uso de textos bíblicos por Guilherme Miller em suas pregações contribuía para dar veracidade a sua mensagem e fascinava pelo uso de diversas partes justapostas de forma a fazerem um sentido na mensagem pretendida. No início, Miller pregava somente onde era convidado. As igrejas que o convidavam eram principalmente batistas e metodistas.
Entre 1840 e 1843, o movimento começa a se expandir e se organizar. A ajuda de Joshua Himes60, que se associa com Miller, é fundamental para tornar o movimento millerita conhecido e difundido por toda o nordeste dos Estados Unidos.
O período de 1843 e 1844 foi marcado por excitações e dificuldades. Pelos cálculos de Miller, a volta de Cristo ocorreria no ano judaico de 1843, o que seria entre março de 1843 e março de 1844. A data de 22 de outubro foi tomada do cerimonial do calendário judaico, que representava o dia da expiação e foi associado à volta de Cristo. 61
As pregações que eram feitas em igrejas, salões, teatros e tendas de lona agitaram o mundo religioso, começando pela Nova Inglaterra. Muitos aceitaram os ensinamentos de Miller, baseados na profecia de Daniel 8, 14 e pregavam a volta de Cristo para 22 de outubro de 1844.
Em carta datada de 11 de outubro de 1844, Guilherme Miller escreveu:
(...) penso nunca ter visto tanta fé entre nossos irmãos como a que é manifestada no sétimo mês. ‘Ele virá’, é a expressão comum. ‘Ele não tardará pela segunda vez’ é a resposta geral. Há um abandono do mundo, um
59 Dick EVERETT, Fundadores da Mensagem, p. 18-19.
60 Joshua HIMES era pastor e um dos líderes do movimento abolicionista em Massachusetts. Estava
acostumado à liderança de movimentos populares.
61 Para um estudo mais aprofundado ver: Haller E. S. SCHUNEMANN, Revista Semestral de Estudos
descaso às necessidades da vida, um exame geral do coração, confissão dos pecados, e profundo sentimento na oração para que Cristo venha. O preparo do coração, para encontrá-Lo, parece ser a tarefa de seu espírito agonizante. Há neste presente despertamento algo diferente de quanto eu até aqui tenha presenciado. Não há grande expressão de alegria: essa é, por assim dizer, reservada para uma ocasião futura, quando todo o Céu e toda a Terra se regozijarão juntamente com alegria indescritível e gloriosa. Não há aclamações, essas, também, são reservadas para as aclamações vindas dos Céus. Os cantores estão silenciosos; aguardam o momento de se unirem às hostes angélicas, ao coro celestial. Não se usam argumentos, nem deles há necessidade. Todos parecem estar convencidos de que têm a verdade. Não há choque de sentimentos; todos tem um mesmo coração e uma só mente. Nossas reuniões são todas ocupadas com orações e exortações sobre o amor e a obediência. A expressão geral é: ‘Aí vem o Esposo, saí-Lhe ao encontro’. Amém. Ora vem, Senhor Jesus.62
Nessa expectativa, muitos adeptos venderam seus bens e empregaram o dinheiro na ajuda aos pobres e no preparo de materiais de divulgação do evento.
O anoitecer do dia 22 de outubro de 1844 trouxe o mais chocante desapontamento. O movimento declinou, o fato deixou seqüelas e divisões entre os adeptos, que foram vítimas de humilhação e sarcasmo por terem vendidos suas propriedades. Eles não foram para o céu e também não tinham mais nada na terra. Além do próprio desapontamento, tiveram de enfrentar a crítica e o escárnio do mundo.
Preocupado com a possibilidade de extinção do movimento, Guilherme Miller tenta retomar as razões e a motivação da sua fé e consolar e incentivar outros para que fizessem o mesmo. Em 10 de novembro de 1844, Miller escreveu a um amigo, Sr. Joshua Himes:
Prezado irmão Himes: Tenho ansiosamente aguardado a bem-aventurada esperança, e isso na confiança de realizar as coisas gloriosas que Deus falou de Sião. Sim, e embora tenha sido desapontado, ainda não estou descoroçoado ou desanimado. Deus tem estado comigo em espírito, e me tem confortado. Tenho agora muito maior evidência de que creio na palavra de Deus. Embora rodeado de inimigos e de escarnecedores, meu espírito está, no entanto, perfeitamente calmo, em minha esperança na vinda de Cristo é tão firme como sempre. Fiz somente o que depois de anos de madura consideração achei ser meu solene dever executar. Se errei, foi do lado da caridade, do amor aos meus semelhantes, de minha convicção do dever para com Deus. Não podia consentir em prejudicar meus semelhantes, mesmo ante de que o evento não se desse no tempo determinado, pois
nosso Senhor ordena buscá-Lo, vigiar, esperá-lo e estar prontos. Assim, caso eu pudesse, de qualquer modo, e de acordo com a Palavra de Deus, persuadir os homens a crerem num Salvador crucificado, ressurreto e prestes a vir, julgava que isso exerceria certa influência sobre o bem-estar e a felicidade eterna dos tais. (...) “Irmãos, firmai-vos; a ninguém permitais tomar- vos a coroa. Fixei minha mente sobre outro tempo, e aqui quero ficar até que me dê mais luz – e esse é hoje, hoje e hoje, até que Ele venha, e eu veja Aquele por quem minha alma anela. 63