Zone 1 : Elle se manifeste par une couche blanche sous la surface rectifiée après une attaque
III.4.1 Simulations numériques préliminaires
III.4.1.3 Influence du type de chargement
“Rito da Paz” Saravá, A-i-é, Abá.
A Paz d’Aquele, que é Nossa Paz! A Paz, que o Povo fará!
Saravá A-i-ê Abá!
A louca esperança de ver todo irmão caindo na dança da vida, cantando vencida toda escravidão! Vai ser abolida a paz da Abolição que agora temos. E contra a paz cedida, A Paz conquistada teremos!!! Saravá,
Do novo Quilombo de amanhã, A-i-ê dessa festa de todos, que virá!
(A maneira de um Pregão)
- Aos treze de maio de mil-oitocentos-e-oitenta-e-oito, nos deram apenas decreto em palavras.
Mas a Liberdade vamos conquistá-la!!! (Coro-cantado) A-i-ê,
A paz d’Aquele, que é nossa Paz!
Abá,
a Paz do povo fará!
Palmares das lutas da Libertação. Palmeiras da Páscoa da Ressurreição Saravá- Aiê, Abá!!!
A canção “Rito da Paz”, o texto da “Marcha Final (De banzo e de esperança)” e o texto de “Comunhão” (presentes no encarte da Missa) inserem-se em uma poética que apresenta a esperança como foco principal: A espera da verdadeira libertação, da vitória contra a escravidão, da paz conquistada, da certeza de que se viverá na “terra de Aruanda”, onde não haverá desigualdade racial e social.
Na canção “Rito da Paz”, os versos suscitam a esperança do negro de poder viver em partilha e o quilombo é o “espaço” onde espera-se viver essa liberdade fraterna. Para Nascimento, “[...] o movimento quilombista está longe de haver esgotado seu papel histórico. Está tão vivo hoje quanto no passado, pois as situações das camadas negras continuam as mesmas, com pequenas alterações de superfície” (NASCIMENTO, 1980, p. 258). Suas palavras nos fazem refletir sobre quão atual e contemporâneo é o texto-musical da Missa dos Quilombos.
A referida canção é um samba em andamento muito rápido e inicia-se com melodias muito rítmicas que acompanham as batidas da percussão.
_____________________________________________________________________________ ___________________Ai__ê_____________________________________________________ ___________________________A________________________________________________ _____________________________________________________________________________ _____Sa____ra__vá__________________bá________________________________________
O verso acima é uma saudação que, segundo Prandi (2001), significa salve (Saravá), Aiê: “terra mundo dos homens” ou outro nome para o orixá Onilé – que é um orixá feminino denominado como “Dona da Terra”. E Abá relaciona-se com “Pai de muitas Nações”. Desse modo, podemos refletir que, nesse verso curto e rítmico, há uma saudação plena de significados que faz referência à terra esperada na qual se encontrará a verdadeira paz e liberdade.
Nos versos abaixo, as melodias seguem em um ritmo muito rápido e quase falado e ainda que a haja um encaminhamento melódico, o ritmo é muito marcado. Na poesia reafirma-se o desejo da paz de Deus e da paz entre os homens.
_____________________________________________________________________________ _________________________________________________________do__________________ ______________________________________________________________po_____________ _____________________________________________________________________________ ________d’A___que_le__que________________paz____A____paz_____________vo_____rá _____________________________________________________________________________ ___________________________é_nos_sa______________________________________fa___ ____paz______________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ A___________________________________________________________________________
Diagrama 16: Representação do segundo e terceiro verso da canção
Posteriormente, nas melodias conseguintes (quarta e quinta estrofes, após o refrão), ainda com o ritmo bem marcado, o texto apresenta a esperança em celebrar a verdadeira vitória da escravidão e da abolição da “paz da abolição”. Há uma crítica contundente nesse momento da canção e nos versos que se seguirão contra a abolição e a liberdade que não foi concedida de fato. Os referidos versos associam a conquista da Paz, da Liberdade e da Vitória, à “dança dos irmãos” e à “festa de todos” no Quilombo, lugar de encontro e de conquista da esperança.
A seguir há uma brusca interrupção das melodias rítmicas e um solista canta uma melodia lenta e melancólica cuja letra remete a data da abolição e reafirma a crítica à liberdade que foi “decretada apenas em palavras” e na qual o negro deverá conquistar.
Por meio dos diagramas apresentados abaixo podemos observar três linhas melódicas que decrescem no final de suas frases reiterando o caráter melancólico e crítico do texto-poético.
_____________________________________________________________________________ _____tre_ze______mai_o______mil_oi______cen_tos______oi__ten_____________________ _____________________________________________________________________________ ____________de________de___________to_________e______________ta___eo__________ ____________________________________________________________________oi_______ _____________________________________________________________________________ aos_____________________________________________________________________to____ _____________________________________________________________________________ _____de__________de___cre______em____________________________________________ _____________________________________________________________________________ nos_______ram_____________to__________pa_____________________________________ _____________________________________________________________________________ _____________________________________________la______________________________ ____________________________________________________a________________________ _____________________________________________________________________________ __________________________________________________________vras_______________ _____________________________________________________________________________ ______________________da_________va_________con______________________________ ____mas_______li____________de______mos____________quis_______________________ _____________________________________________________________________________ __________a_____ber__________________________________________tá_______________ __________________________________________________________________a__________ _____________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________la__
Diagramas 17, 18 e 19: Representação dos versos melódicos lentos da canção
Em seguida, a canção segue com o ritmo de samba em andamento muito rápido e depois do refrão repete suas saudações na espera da “Páscoa da Ressurreição” e da libertação por meio de Palmares.
A canção “Comunhão” é uma peça instrumental, de ritmo opanijé, que, segundo Lopes (2004), é um “ritmo especial para as danças de Omolu-Obaluaiê. Parece traduzir um pedido para que o orixá abrande sua ferocidade; em iorubá, significa antropófago, canibal” (LOPES apud Canton, 2010, 138), porém apresenta um texto para ser recitado juntamente com a execução da música. Seu texto refere-se ao Corpo e Sangue de Cristo, que irá alimentar a “Esperança de Aruanda”, que um dia virá. Segundo Canton, a terra de Aruanda relaciona-se com a “Morada mítica dos Orixás e entidades superiores da umbanda” (CANTON, 2010, p. 159). Portanto, é a terra esperada para a conquista da liberdade e igualdade.
Ademais, a frase presente no texto da comunhão “Ara wara kosi mi fara”, que, segundo Teixeira (1997), significa “Todos unidos num mesmo Corpo. Nada no mundo nos vencerá” reafirma a comunhão com Cristo e a luta pela vitória.
A última música do álbum, “Marcha de Banzo e de Esperança”, semelhante a “Comunhão” é instrumental. Vale observar que no encarte há um texto que sugere que seja recitado no momento da execução da “Marcha”, porém, na gravação do álbum, ao som desta música gravou-se a oração de Dom Hélder Câmara intitulada “Invocação à Mariama” que o bispo recitou na Celebração de Recife.
A fala de Dom Hélder é acompanhada por um fundo musical (a melodia da Marcha Final) cantado por um coro que repete sem cessar uma melodia melancólica, plena de “banzo e de esperança”. O banzo, segundo Canton (2010), refere-se a uma nostalgia com depressão profunda e, no texto, esse termo relaciona-se com a saudade de algo que ainda não foi conquistado. Saudade que ora é banzo, ora é esperança: de liberdade, de Aruanda, de Deus.
A música a qual suscita essa melancolia enriquece-se com a oração de Dom Hélder que aproxima Maria do Povo Negro e, por meio dela, pede a Deus pela continuidade da luta, da busca pela justiça, pela diminuição da desigualdade social, pelo fim da guerra e para que aquele momento não acabasse ali: que o envolvimento provocado por meio daquela obra e da Eucaristia perpetuasse para a continuidade da verdadeira luta da liberdade e da igualdade social e racial.
Por meio dessas reflexões podemos constatar que a Missa dos Quilombos representa uma poética que integra história, memória, crítica social sem perder a esperança religiosa e mística que vem de encontro com as religiões de origem africana e cristã. Sua música enriquece os textos-poéticos e acentua sua mensagem de união entre as religiões e ainda suscita um questionamento mais profundo por meio do envolvimento do espectador com as canções e textos.
Para além disso, pudemos averiguar que as composições da Missa seguem as duas tradições religiosas. A cristã por meio do destaque a melodia e do ritual litúrgico e a africana mediante a valorização do ritmo e a utilização dos instrumentos de percussão. Essa breve observação dialoga com as palavras de Tatit quanto às origens do canto brasileiro: “[...] do lado português, os hinos católicos de celebração e catequese, mais melódicos que rítmicos, ressoando o canto gregoriano do medievo europeu [...]” (TATIT, 2004, p. 20). E ainda: “Com a chegada dos africanos [...] a percussão e a dança foram gradativamente reforçadas pela “dicção negra” que escapava pelas frestas da
servidão escravista [...]”. (TATIT, 2004, p. 21). Por meio destas afirmações podemos confirmar que, em geral, a música brasileira e a Missa são compostas principalmente por canções que seguem o padrão da fusão do ritmo africano a melodia europeia.
Seguindo esse pensamento apresentaremos reflexões sobre algumas apresentações da Obra no intuito de aprofundarmos a respeito da importância de sua
performance para a disseminação de sua mensagem de caráter político social e racial.
Imagem 1: “Ofertório”. Encenado pela Companhia Ensaio Aberto. Foto extraída do livro Ensaio Aberto, 2012.