Chapter 6 Summary and outlook
4. Influence de la rugosité de surface les résonances plasmoniques de NP d'aluminium
As lógicas da modernidade, substratos advindos das interações entre suas forças modernizadoras e o capitalismo, acabam por caracterizá-la, evidenciando o que melhor definiria o zeitgeist a que se refere. No caso da modernidade líquida, é particularmente importante tornar mais claros os componentes dessas lógicas em termos de valores relacionais, apontando quais aspectos do comportamento público e da materiali- dade urbana devem ser considerados para que seja plausível traçar suas inter-relações e como podem ser interpretados.
A esse conjunto de valores relacionais, contidos na maioria das vezes num universo de conhecimento tácito amplamente distribuído e co- nhecido, o sociólogo francês Pierre Bourdieu intitulou “espaço so- cial”. Tal como aqui é posto, corresponde a uma dimensão social que coloca em posições relacionais tudo aquilo que se conhece. Assim, a palavra “espaço” é importante para entender que tudo tem um lugar,
uma posição na malha que articula valores, que relaciona impressões, ideias e juízos – embora não corresponda à ideia de um lugar material, físico, geográfico. Para esse conceito, a palavra “espaço” assume um sentido metafórico, cuja melhor compreensão está no fato de que no espaço material, tudo que se dispõe, assim se faz em posições distintas. Explorando um pouco mais a metáfora, é possível dizer também que no espaço não só as posições das coisas são importantes por si só, mas na relação que têm umas com as outras. Afinal, é exatamente isso que vai, de forma efetiva, configurar o espaço.
Logo, isso que aqui se chama de “espaço social” está expresso não so- mente nas relações, mas também na materialidade urbana, nos edifí- cios, centros comerciais, ruas, praças e parques. É a forma como a con- figuração manifesta elementos sociais importantes – seja de classe, seja de gosto, seja de valor, sendo talvez as últimas duas consequências ori- ginárias de contingências da primeira. A cidade interage, sendo palco e sendo ator. Esse espaço social, mais figurativo do que tangível, é difícil de se perceber porque está incrustado nos tijolos ao mesmo tempo que ocupa os vazios da praça, das ruas e dos jardins. Um possível óbice para se entender essa ideia está no fato de que, em geral, segue camuflada por um discurso ideológico e, para a maioria das pessoas, parece ser naturali-
zada como mero julgamento particular.
É essencial apontar que o espaço social se caracteriza principalmente por definições originárias de estratificação social. Ou seja, de renda e classe – e, assim, é também submetido às lógicas e articulações da modernidade. A consequência disso se desenha na realidade percebida, concedendo elementos de identificação os mais diversos para que compreendamos
um pouco melhor um determinado local, suas edificações e os compor- tamentos que abriga.
A ideia de um espaço social de Bourdieu foi substancialmente elucida- da em breve texto que produziu. Logo de início escreve:
Como o espaço físico é definido pela exterioridade recíproca das partes, o espaço social é definido pela exclusão mútua (ou distinção) das posições que o constituem; isto é, como estrutura de justaposição de posições sociais. Os agentes sociais, e também as coisas – do modo como elas são apropriadas pelos agentes, e, portanto, constituídas como proprieda- des –, situam-se em um lugar do espaço social que pode ser caracterizado por sua posição relativa quan- to aos outros lugares (acima, abaixo, entre, etc.); e pela distância que o separa deles. (Bourdieu, 2013, p. 133)
Isso significa dizer que também as coisas – os muros, as fachadas, as ruas – carregam em si mesmos um sentido social particular que se manifesta para os indivíduos. É afirmar que a interação não se dá apenas entre as pessoas, mas também incorpora, nesse caso, as formas arquitetônicas e urbanísticas, seus significados e valores. Essa relação se dá à medida que as populações vivenciam um determinado espaço, seja no processo de construção da paisagem, seja na ocupação efetiva ou no afastamen- to muitas vezes provocado pelas estruturas e equipamentos presentes. De toda forma, o estabelecimento de interações acaba por depender de
como vão se estabelecer os contatos entre o espaço social materializado e aquele que permanece invisível, abstrato.
Deve-se destacar que o cerne da discussão que se espera tornar claro é que o espaço social tem profundas ligações com a definição do espaço público. Isso ocorreria fundamentalmente pelas formas e pelo habitus39
,
que são importantes na compreensão de três dos cinco componentes da civilidade. O que impõe fronteiras pouco acessíveis, implodindo a acessibilidade? Quais aspectos caracterizam a busca por apaziguamen- to? Quais as características que vestidas, incorporadas, faladas ou por- tadas lançam por terra a indiferença? Ao fim e ao cabo, o espaço social está profundamente conectado às atitudes em relação ao outro no que tange o espaço construído e, ao mesmo tempo, a como – e o que – o que está construído comunica e interage com os seres sociais.
O espaço social, espaço abstrato constituído pelo conjunto dos subespaços ou dos campos (campo econômico, campo intelectual etc.), dos quais cada um deve sua estrutura à distribuição desigual de uma espécie particular de capital, pode ser apreen-
39 “Habitus” é um conceito traçado por Pierre Bourdieu que, em poucas pala- vras, diz respeito a um sistema gerador e, simultaneamente, de classificação de práticas e produtos. Afirma também que se trata de uma “estrutura estrutu- rada” (já formada, formatada) e também “estruturante” (por ser formadora e formatadora). São esquemas de ação e pensamento socialmente construídos. É disposição social incorporada. (Bourdieu, 2011)
dido sob a forma da estrutura da distribuição das diferentes espécies de capital que funcionam, simul- taneamente, como instrumentos e objetos de lutas no conjunto dos campos. (Bourdieu, 2013, p. 136)
Aceitar que o espaço existe a partir dessa perspectiva é compartilhar também da concepção de Henri Lefebvre, que entenderá o termo – aprofundando seu caráter sociológico – como um produto40. Isso não corresponde a assumir o espaço como um resultado inerte da ação so- cial, mas, pelo contrário, como fator importante na lógica do sistema capitalista. Ora, em sua obra “A produção do espaço”41, Lefebvre traça, logo de início, uma crítica aguda às formas pelas quais o verbete “espa- ço” vinha sendo abordado e, além disso, problematiza com perspicácia a forma como esse espaço foi, ao longo do tempo, socialmente cons- truído. Sua contribuição mais marcante se dá no translado que faz, a partir da teoria marxista, do papel do espaço, retirando-o da dimensão de superestrutura para a dimensão de infraestrutura. Isso representou dar protagonismo ao espaço e evidenciá-lo como aspecto central na dinâmica capitalista e de suas transformações. Ao construir uma con- vergência entre a teoria de Bourdieu e os apontamentos de Lefebvre, o que se busca é enfatizar o papel do espaço social na consolidação desses elementos que tanto influenciam no uso e nas relações no espaço ao mesmo tempo que também expressam a modernidade em caráter fí- sico, material, e participam da definição que se dá nos edifícios, ruas,
40 (Lefebvre, 1991)
41 Tradução do autor. No original: “The production of space”.
praças e interfaces possíveis. Em conclusão, escreve Bourdieu:
Em suma, se o habitat contribui para fazer o habitus, o habitus contribui também para fazer o habitat, atra- vés dos usos sociais, mais ou menos adequados, que ele inclina os agentes a fazer desse mesmo habitat. (Bourdieu, 2013, p. 139)