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II- 2-3 Influence du débit sur les distributions spatiales

É próprio de um mito aglutinar ambiguidades e contradições, intrincando suas leituras e hermenêuticas. Com Afrodite, deusa do amor e da mais sedutora beleza, não é diferente. Estabelecer um inventário da sua genealogia não está em causa, mas aclarar as versões da sua vida que ampliam o simbolismo de Eros na poética de Federico García Lorca e Cecília Meireles.

A Teogonia de Hesíodo menciona Afrodite, em sua origem primeira, emergindo do mar, daí seu epíteto “Anadiômene”, isto é, a que surge das ondas do mar. Ao deslindar as cosmogonias, Torrano (1992, p. 75) reporta-se à ascensão de Cronos

aludindo à deusa do amor: “Quando Cronos impõe pela primeira vez o seu poder, superando o de seu pai Céu, instaura-se o âmbito de uma nova Ordem, em que vige o acasalamento por graças e manhas de Afrodite (e não mais pela mera ação filogenética do cosmogônico Eros, que açulava o Céu)”. Primado instaurado, a genealogia dupla da deusa impôs-se a partir da distinção feita em O banquete de Platão. Sumarizando as considerações de Pausânias, Backés (1998, p. 23) retoma a origem dupla de Afrodite desde a mutilação de Urano descrita na Teogonia:

Hesíodo conta que Afrodite nasceu do mar, onde caíra o sêmen de Urano quando foi castrado por seu filho; Homero ignora essa história e faz de Afrodite a filha de Zeus e Dione. Pode-se interpretar essa diferença opondo-se uma Afrodite Urânia, isto é, Celeste, a uma Afrodite Pandêmia, ou seja, Popular [...]. Por ser mais antiga a Afrodite Celeste é a mais digna, representa o amor espiritual; a Popular limita-se à obra da carne.

Assim, a lenda do nascimento de Afrodite que surge da espuma do mar notabilizou a feição espiritual e elevada do amor. Na outra vertente, a popular do amor vulgar e carnal, Afrodite é esposa de Hefestos, o Coxo, por ela ridicularizado diversas vezes. Nessa versão, ela é o amor físico, o desejo ardente e o prazer dos sentidos. Em virtude disso, a deusa é muito representada entre as feras selvagens que a escoltam exibindo seu poderio e força. Desdobrando o simbolismo sexual, Afrodite pode exprimir a perversão do sexo oriundo do amor não humanizado, quando busca-se apenas a primazia do prazer. Assim sendo, o mito de Afrodite permaneceria como “a imagem de uma perversão, a perversão da alegria de viver e das forças vitais” (BRANDÃO, 1986, p. 224). Tal acepção indicaria apenas satisfação dos instintos, concernente aos animais ferozes que integravam seu cortejo de poder.

Na poesia de Federico García Lorca, a presença do mito de Afrodite é frequente, ora explícita como tema, ora difusa em seus mitemas, ora corriqueira em versos incidentais. A deusa é referida sempre por seu nome latino Ŕ Vênus Ŕ como nos versos do poema “Soledad insegura” (1926), de Poemas sueltos, que aludem à tez de sal e a pureza das conchas, mitemas marinhos da deusa:

[...] Rueda helada la luna, cuando Venus con el cutis de sal, abría na arena,

blancas pupilas de inocentes conchas [...]. (GARCÍA LORCA, 1989, p. 616)

Em feição elevada, no poema “Mar” (1919), de Libro de poemas, García Lorca retoma o nascimento de Vênus, exaltando suas virtudes arquetipais, não seus pendores de realização do amor físico:

El mar es

el Lucifer del azul. El cielo caído por querer ser la luz. ¡Pobre mar condenado a eterno movimiento, habiendo antes estado quieto en el firmamento! Pero de tu amargura te redimió el amor. Pariste a Venus pura, y quedóse tu hondura virgen y sin dolor. Tus tristezas son bellas, mar de espasmos gloriosos. Mas hoy en vez de estrellas tienes pulpos verdosos. Aguanta tu sufrir, formidable Satán. Cristo anduvo por ti mas también lo hizo Pan. La estrella Venus es la armonía del mundo, ¡Calle el Eclesiastés! Venus es lo profundo del alma...

...Y el hombre miserable es un ángel caído. La tierra es el probable Paraíso perdido.

(GARCÍA LORCA, 1989, p. 152)

No aspecto formal, o poema evoca a regularidade clássica nas sete quadras estróficas e nas rimas repassadas de musicalidade, que afluem em quase todos os versos. Retomando a feição do tema, a origem da Vênus é encenada na ambiência do mar, ladeada por símbolos episódicos e pelo homem. Todo o poema é uma louvação à deusa, e tudo em derredor apequena-se diante da sua perfeição arquetipal. Como assinalado, a Vênus lorquiana não lembra nada da feição vulgar do mito.

O centro das analogias de Vênus é o mar. Dele irrompem as imagens de exaltação da deusa que ritualizam seu nascimento. Na primeira quadra, o poeta ajuíza a sina do mar como uma penitência, uma vez que suas águas fluem na terra e não no céu como ele aspirou querendo “ser la luz”. Se fluir no baixo é condenação, fluir no alto seria a redenção. As imagens “Lucifer del azul” e “cielo caído” assinalam a queda, a falta que condena o mar ao eterno fluir mirando de baixo o firmamento original, céu da completude perdida de que ele é apenas o reverso.

Eufemizando a amargura, a terceira quadra descreve o nascer da Vênus como a remissão pelo amor dos pecados do mar: “pariste a Venus pura, / y quedóse tu hondura / virgen y sin dolor”. Como já mencionado, Vênus é filha do sêmen de Urano derramado no mar, após sua castração por seu filho Cronos. Diante disso, Afrodite nasce emergindo da espuma do mar. A Vênus lorquiana encarna essa versão, ou seja, a perfeição do arquétipo nos mitemas de pureza, castidade e correção. No verso, a profundidade e o decoro da divindade são reiterados, ao passo que a provação do mar é animizada segundo os contornos equívocos da peleja humana.

Assim sendo, se o mar outrora continha as estrelas, hoje ele abriga “pulpos verdosos”. Na sucessão dos oxímoros, suas “tristezas son bellas” e seus “espasmos gloriosos”, o que remete à lida do mar agrilhoado por seu reflexo no céu. O pesar e a contradição regem a cena. Sofrer é a divisa do mar. Para culminar, o mar tem feição satânica Ŕ “formidable Satán” Ŕ, mas em honra da sua redenção, velaram Cristo, o excelso amor cristão, e Pã, divindade grega dos cultos pastoris. Aqui, cristianismo e paganismo enleiam-se, revelando o hibridismo da cosmovisão do espanhol. Em Pã, a exaltação das forças primárias e a astúcia bestial, pois trata-se da última divindade grega assimilada ao demônio cristão. Em Cristo, a exaltação do sublime amor. A esse respeito, Miguel García-Posada (1989, p. 55) ressalta o fervor de Lorca pela imagem humana de Cristo, arquétipo de amor e sacrifício. Fervor esse, todavia, bem distante dos dogmas cristãos.

As duas quadras finais arrematam a retomada do mito, enaltecendo os atributos da deusa: “la estrella Venus es / la armonía del mundo, / ¡Calle el Eclesiastés! / Venus es lo profundo / del alma...”. No macrocosmo, a harmonia do mundo; no microcosmo, o profundo da alma. Vênus enlaça o grande e o pequeno, o sagrado e o profano, o acerbo e o suave. O silêncio ordenado ao texto sagrado de Eclesiastes diante da divindade acentua sua exaltação. Em contraposição, na esfera baixa do humano, o homem miserável é um “ángel caído” e a terra, o provável “paraíso perdido” das suas

ignomínias. Nas imagens decadentes, o homem, em queda, vagueia na terra, refugo invertido do paraíso, assim como, de início, o mar é o refugo invertido do céu.

Na poética ceciliana, Afrodite-Vênus é presença encoberta, evocada subliminarmente nos seus mitemas e modulações. No poema “Onda”, de Viagem (1939), Eros e Afrodite aliam-se na experiência sensitiva e sentida de um desejo sublime:

Quem falou de primavera sem ter visto o teu sorriso, falou sem saber o que era. ... Pus o meu lábio indeciso na concha verde e espumosa modelada ao vento liso: tinha frescuras de rosa, aroma de viagem clara e um som de prata gloriosa. Mas desfez-se em coisa rara: pérolas de sal tão finas

Ŕ nem a areia as igualara!

Tenho no meu lábio as ruínas de arquiteturas de espuma com paredes cristalinas... Voltei aos campos de bruma, onde as árvores perdidas não prometem sombra alguma. As coisas acontecidas,

mesmo longe, ficam perto para sempre e em muitas vidas: mas quem falou de deserto sem nunca ver os meus olhos...

Ŕ falou, mas não estava certo.

(MEIRELES, 2001, p. 301-302)

Como no poema lorquiano, o poema ceciliano exibe regularidade e fluidez: oito terças na justeza dos heptassílabos, ritmo ágil, quase sem entrecortes e musicalidade leve nas rimas dos versos ímpares. Os versos fluem sem obstáculos como flui a “onda”, que intitula o poema, a rememorar o desejo de reviver a intensidade do amor. Em cena, a evocação da comunhão com Eros, que funda a rememoração do eu-lírico. Sensualismo

sutil, erotismo místico, Eros desvela-se no olhar e no toque, no fulgor dos sentidos, que almejam o instante alado. No encontro, desponta Afrodite personificando a carícia sublime.

Refundindo Eros e Afrodite, a onda é alusão à deusa que surgiu da espuma das ondas, e ainda o desejo que faz ressoar o passado no presente da cena lírica. Imersa na rememoração, a amante deseja tornar à cumplicidade com Eros, apelo de contato que ressuma nas imagens de Afrodite. Sua fala reúne as impressões da natureza aos registros que ela guarda do outro-amoroso. Na terça inicial, dirigindo-se à alteridade evocada, o sorriso do outro teria o mesmo calibre da primavera, se não a superasse enormemente. Por isso, quem no passado falou de primavera, sem ver o sorriso do amado, falou “sem saber o que era”.

Antes da segunda terça, cingindo o auge da experiência, a amante instaura um verso de reticências para realçar suspensivamente a singularidade do momento. Na brevidade do verso, a segunda e a terceira terças descrevem a carícia instantânea, intensidade viva do amor que se contorna dos mitemas de Afrodite. Quase um transe erótico, a amante aferra-se ao instante, subjugada pelo desejo de voltar ao que se passou, quando seu lábio empreende o toque pleno e total: “Pus o meu lábio indeciso / na concha verde e espumosa”. Segundo Chevalier e Gheerbrant (2000, p. 269-270), a concha tem duplo simbolismo, fecundante e erótico. No primeiro quesito, por evocar a água, a concha relaciona-se à fecundidade própria da água. No segundo aspecto, por sua forma e profundidade, a concha lembra a o órgão sexual feminino. Além disso, a pérola, seu conteúdo ocasional, remete ao nascimento de Afrodite como tendo saído de uma concha.

Desse modo, mitemas de Afrodite (a Celeste), concha e espuma exprimem um sentimento elevado. E o verde da concha, sombra de Tânatos imbricada ao amor, sinaliza a destruição em aberto, pois, como afirma Octavio Paz (1994, p. 145), Tânatos é a sombra de Eros. No contato, a amante experimenta o êxtase das sensações etéreas: “tinha frescuras de rosa, / aroma de viagem clara / e um som de prata gloriosa”. Mais uma vez, os mitemas sinestésicos da deusa (rosa fresca, fragrância luminosa e nobre melodia) irradiam denotando a nobreza dos motivos, a pureza dos sentidos, enfim, a elevação do amor. A propósito, o simbolismo sinestésico faz confluir cheiro, textura, audição e visão tornando as impressões e sensações viscerais. Como no poema lorquiano, Afrodite manifesta-se em sua perfeição arquetipal, legitimando o amor espiritual, livre da corrupção carnal.

Entretanto, nas terças seguintes, todo o maravilhamento esfacela-se. O encantamento com Eros e Afrodite dissipa-se, deixando a amante entregue à recordação, refém da lembrança vivida no instante. Na quarta terça, qual miragem dos sentidos, o outro desfaz-se em “pérolas de sal tão finas”. Em nova inserção, pérolas e sal são mitemas marinhos da divindade. O insólito da dispersão deixa na poeta resquícios que martirizam sua lembrança: “Tenho no meu lábio as ruínas / de arquiteturas de espuma”. Ou seja, as ruínas de espuma indicam a destruição, a passagem de Tânatos que se anunciara no simbolismo da concha verde.

Por fim, a amante retorna aos enevoados caminhos que, embora incertos, não lhe ameaçam com a destruição: “Voltei aos campos de bruma, / onde as árvores perdidas / não prometem sombra alguma”. Mesmo assim, na incerteza reinante, perdura o desejo de reviver a intensidade do amor, pois “as coisas acontecidas, / mesmo longe, ficam perto / para sempre e em muitas vidas”. Isto é, a poeta não consegue esquecer seu magno desejo: sorver a plenitude do amor com Eros e Afrodite.

Em chave melancólica, o eu-lírico termina a evocação referindo-se à aridez do deserto como aquém de simbolizar o vazio dos seus olhos, pois eles estão depois do deserto, no além da solidão inconfessa: “mas quem falou de deserto / sem nunca ver os meus olhos... / Ŕ falou, mas não estava certo”. Assim, desencanto é a nota final. Na essencialidade do arquétipo, do desejo com Eros tingido das virtudes de Afrodite, Tânatos destoa instaurando a ruína e o acabamento. No espaço poético, porém, a saída vislumbrada enleia Eros e Afrodite na comunhão do amor. Embora frágil, a saída é e está no verso, na memória poética que elege o instante com Eros e Afrodite como a cumplicidade viva do amor capaz de transcender o tempo e, com isso, a sombra de Tânatos.