1.3 Ph´enom`enes (thermo-)m´ecaniques rencontr´es, mod´elis´es ou non
1.3.6 Influence de la temp´erature et couplage thermo-m´ecanique
O homem tem como princípio básico a socialização. Desde cedo foi habituado a olhar para seus familiares e neles se reconhecer, seja pelos movimentos e falas miméticas na busca de um autorreconhecimento e inserção no grupo, seja por precisarem uns dos outros para se alimentar, vestir e satisfazer necessidades básicas que não seriam conseguidas individualmente. O homem não nasceu para viver sozinho e, apesar de optar algumas vezes pelo claustro, pelo eremitério, ou mesmo pela misantropia, ainda assim é inicial e irremediavelmente um ser social que busca sobreviver no mundo apoiando-se na coletividade. Uma coletividade adequada à vida social e que depende da maneira como se adapta, interage e controla a natureza, como dela absorve material para sua existência, para satisfazer desde as necessidades mais básicas até as mais fúteis, como as que temos presenciado na atualidade. Necessidades que são atendidas pela produção de meios de existência, pela produção de sua própria vida material pautada na ação a favor de um modo de vida, na manifestação de sua própria vida, refletindo exatamente o que se é como homem (MARX; ENGELS, 2001). Uma ação que tem um antes, por ser intencional, um durante, por ser executada, e um depois, por ser finalizada, concluída, prescrita; uma ação orientada e chamada de trabalho.
Entretanto, esse trabalho, em sua especificidade e complexidade, ao longo da história foi sendo desmembrado de maneira não natural, deixou de ser experimentado na totalidade, e o homem foi assumindo-o em partes, de maneira a não ter domínio sobre sua concepção e,
consequentemente, seu produto final. Ao homem deixou de pertencer o fruto de seu trabalho, passando a lidar de maneira distinta com a atividade prática e atividade teórica que, até então, eram indissociáveis.
Atividade, que para Sánchez Vázquez (2007, p. 219-20), é “todo ato ou conjunto de atos em virtude dos quais um sujeito ativo (agente) modifica uma matéria-prima dada”, um geral não restrito, no qual o agente pode ser físico, biológico ou humano, e a matéria-prima sobre a qual se atua, corpo físico, ser vivo, vivência psíquica, grupo, relação ou instituição social. Atividade cuja separação forçada, impulsionada pelo interesse dos donos dos meios de produção em aumentar o próprio capital, ou seja, em ter o lucro, provocou uma “contradição entre o interesse do indivíduo isolado ou da família isolada e o interesse coletivo de todos os indivíduos que mantém relações entre si” (MARX; ENGELS, 2001, p. 28).
Cada trabalhador passou a ter uma atividade específica e determinada por quem detinha o meio de produção. O produto deixou de ser do trabalhador e tornou-se do dono dos meios de produção, do capitalista.
A consciência, antes viabilizada pela integração entre ação e intenção, pela compreensão da totalidade do trabalho, teve sua emancipação condicionada ao reconhecimento das contradições entre as relações produtivas e a força produtiva, ou seja, entre a maneira como os homens se relacionam com a natureza e os outros homens enquanto produzem seus meios de vida e com “a energia humana gasta no processo de produção” (PARO, 2000, p. 41). O homem tornou-se alienado e a materialidade impôs-se como uma parte do ser, propiciando o aparecimento da dualidade entre a própria materialidade e a consciência. Uma consciência que se deixou determinar pelos donos dos meios de produção, pelo capitalista, pela minoritária classe dominante.
Isso não significa que o homem não tem consciência. De fato, toda ação humana demanda algum nível de consciência, o homem se distingue da natureza exatamente por sua racionalidade, pela intencionalidade de suas ações. No entanto, o processo de reorganização do trabalho, favorável ao aumento da produção, cindiu o trabalho colocando o trabalhador numa posição de submissão, de controle por parte de quem domina os meios de produção. O homem foi reduzido à condição de coisa, pois, por ser dominado como a natureza, é em benefício da satisfação das necessidades humanas, o trabalhador deixou de compartilhar igualitariamente a condição de homem com todos os outros homens (PARO, 2000). Enquanto coisa, enquanto ser coisificado, o homem passou a assumir as ideias do capitalista por meio de um processo hegemônico no qual as verdades da classe dominante, dona dos meios de produção, tornaram-se verdades quase inquestionáveis, verdades aceitas sem dificuldades,
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ditadas pelos intelectuais orgânicos da classe dominante e pelos intelectuais tradicionais interessados na manutenção de seu status quo (GRAMSCI, 2000). Verdades que se tornaram ideias dominantes e, consequentemente, ideias universais, disseminadas como únicas e dotadas de uma certeza inegável.
O homem rompeu com a natureza, com a sua natureza, com sua própria vida. Deixou de possuir os meios de produção na medida em que vendeu sua força de trabalho para algo que não conhecia, abandonando o fruto de seu trabalho, estranhando seu próprio produto. Se sempre houve diversas formas de dominação, o homem passou a pertencer a apenas uma de duas classes antagônicas, trabalhador ou capitalista – o detentor dos meios de produção. E o trabalho, antes compreendido em sua totalidade, fragmentou-se, padronizou-se, tornando-se estranho ao próprio homem. E, na condição de estranho a si mesmo, as relações com os outros seres humanos, com o coletivo, com a sociedade, também se tornaram estranhas, estranhadas, dando início a uma reforma moral e intelectual de alcance vital. Um alcance que tomou conta até mesmo do mais precioso bem daquele que vende sua força de trabalho, o tempo livre, o tempo para o ócio.
E, assim, o homem assumiu a dicotomia materialidade-consciência integralmente, apropriando-se de qualquer regra adequada a essa perspectiva como condição de verdade inquestionável a favor do capital, em prol da mais-valia compreendida como o capital gerado com trabalho produzido no tempo excedente ao tempo necessário para a produção, ou melhor, como “valor produzido pelo trabalhador durante o tempo de trabalho excedente” (PARO, 2000, p. 43).
O trabalho útil, dito concreto, no qual é possível ver seu resultado em forma de valor de uso e nas especificidades da ação humana, na relação entre natureza e homem cujo resultado inicial é a matéria-prima, dissociou-se do trabalho abstrato, entendido como dispêndio de força humana produtiva, física ou intelectual, no qual a generalização é possível e é criado o valor das mercadorias (ANTUNES, 2010). O trabalho entrou em crise. Uma crise que se estende aos dias atuais. Uma crise na qual o trabalho concreto não se vê diluído, impossível de ser descartado por ser naturalmente útil e não pragmático, e por expressar a dependência do homem em relação à vida social, coletiva; mas uma crise cujo trabalho abstrato não mais reside na condição do trabalhador, na classe-que-vive-do-trabalho (ANTUNES, 2010). Porém, também é uma crise que inesperadamente abriu portas para que o trabalhador possa se emancipar por meio da apropriação das contradições entre a totalidade do trabalho e a imposição do capital social, das contradições entre as condições das classes sociais (ANTUNES, 2010).