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CHAPITRE 4 : Simulation numérique de l’impact

2. MODELISATION DE L’IMPACT DES ECAILLES

2.2. Influence de la température de préchauffage

Careta foi uma revista semanal brasileira que circulou de 6 de junho de 1908 a 5 de novembro de 1960 e que veiculava opiniões fortes, críticas a determinados modelos de comportamento e a posturas e atitudes de políticos, mas sempre com muito humor e ironia. Pelo nome sugestivo, temos uma boa pista para entendermos que o conteúdo publicado em suas páginas tinha uma grande carga de sarcasmo, informações confirmadas já no editorial da edição número 1 da revista.

Ahi vae a nossa Careta. Lançando a publicidade este semanario, é preciso confessar, e contrariamente o fazemos, que a Careta é feita para o Publico, o grande e respeitavel Publico com P. grande! Se tomamos essa liberdade foi porque sabiamos perfeitamente que elle não morre de caretas. Longe vae o tempo em que isso acontecia. Todavia, a nossa esperança é justamente que o publico morra pela Careta, afim de que ella viva. E feita cynicamente, essa confissão egoistica (nós estamos no seculo XX) digamos logo que o nosso programma cifra-se unicamente em fazer caretas. Careta como toda gente sabe, e se não sabe, devia saber, é assim uma espécie de cara pequena, conforme a abalisada opinião do Candido de Figueiredo, e se não for, é a mesma cousa. Ora por ahi existe muita gente de quem se diz ter duas e mais caras; não é demais, por consequencia, que nós tenhamos uma porção de caretas que iremos mostrando todos os sabbados, á razão de uma tuta e meia (tuta em latim corresponde a 200 réis, segundo o Dr. João Ribeiro). As nossas caretas são sérias como as sessões do Instituto Histórico e a sua perfeição e semelhança garantidas. Mas nunca fiando... Quem vê caretas, não vê corações. Faremos tudo para que ás nossas, não correspondam caretas de máo humor; preferimos francamente, sorrisos, mesmo daquelles que mais parecem caretas.

A revista, é claro, não era feita apenas de humor e publicava também sessões mais sérias, em que a informação era dada de maneira simples e direta. Mas ao longo da história da publicação, foram as matérias, os artigos e especialmente as charges e cartuns com boa dose de irreverência que mais marcaram a existência de Careta, em que a acidez política, a ironia e a crítica aos costumes elitistas da época estavam quase sempre explícitas. Tanto que alguns dos chargistas e cartunistas mais conceituados do Brasil trabalharam na publicação, como os citados pelo blog Museu dos Gibis: J. Carlos, Oswado Storni, Belmonte (Benedito Carneiro Bastos Barreto) – criador do famoso Juca Pato –, Raul Paranhos Pederneiras e Théo (Djalma Pires Ferreira).

Uma das diferenças mais marcantes de Careta em relação às outras revistas semanais analisadas nesta dissertação, pelo menos no período aqui pesquisado (entre janeiro e agosto de 1950), está no fato de esta publicação apostar mais em textos curtos, ou seja, ela trazia novas formas de abordagem da notícia para se diferenciar dos veículos já existentes naquela época.

76 Assim, suas páginas estavam repletas de seções, charges, artigos, cartuns e de pequenas notas jornalísticas, diferentemente das matérias e grandes reportagens das outras publicações. Como já falamos anteriormente, a segmentação do mercado de revistas pedia essas pequenas inovações.

Além disso, enquanto os demais periódicos daquele começo de século apresentavam um cunho mais elitista, voltado para as tendências urbanizantes e modernizantes da sociedade, Careta se mostrava uma revista de variedades, de conteúdo multiforme, voltado para um leitor mais popular, mas isso não significa que era um leitor menos literário e erudito. O trecho final do editorial de estreia da revista revela, novamente na base do humor, o público leitor que os editores da publicação gostariam de atingir – e as mulheres faziam parte dele:

Se ao vêr a Careta, gentil senhorita, apreciadora enthusiasta das secções galantes do jornalismo smart, franzir graciosamente as graciosas sobrancelhas, na boquita rubra estalando um desprezador muxoxo, nós já temos meia vingança: o muxoxo é meia careta, pelo menos. Se porém algum representante desse sexo que se diz barbado e vive a depilar-se agora, seguindo as novas correntes estheticas do pan-americanismo (!?), enfurecer- se ao mirar a Careta, não haverá duvida tambem: deitamo-lhe convictamente um palmo de lingua de fóra. Com um programma tão vasto, tão seductor, tão (como diremos?) careteristico, esperamos da sympathia do publico o franco acolhimento que lhe não merecem tantas caretas por ahi, bem conhecidas. A Careta é honesta e não é feia; é uma careta de lei.

Ao longo dos seus 53 anos de circulação, a revista mostrou-se bastante politizada e serviu de oposição ao governo em vários momentos, fazendo com que a política fosse um tema bastante explorado, especialmente nos textos mais críticos, nos editoriais e nas charges. O governo de Getúlio Vargas, por exemplo, era um dos principais alvos. Em 1950, ano aqui analisado, a eleição presidencial que ocorreria no dia 3 de outubro tinha grande importância para Careta, que trazia, em praticamente todas as edições, mensagens nos rodapés das páginas como essa a seguir, publicada em 4 de fevereiro de 1950:

Eleitor, quando fores votar não te esqueças dos escândalos desta legislatura! Os politiqueiros são como os morcegos: temem a luz do dia. Os politiqueiros ainda não se convenceram de que não são donos da presidência da república. Precisam aprender, mas duramente, a lição, que o voto lhes dará. Precisamos acabar com a raça dos politiqueiros profissionais, que têm feito a desgraça do Brasil!

Ainda em relação ao conteúdo verificado nas edições deste período, foram encontradas, embora em menor grau que as outras revistas semanais, matérias sobre o cotidiano e as belezas das cidades europeias, como Milão, Londres e Paris, textos a respeito

77 da vida das celebridades do cinema de Hollywood e tendências da moda, com looks para as mulheres se inspirarem.

Sobre o Brasil, além de curiosidades a respeito dos hábitos dos povos indígenas, tema que parecia despertar um fascínio nas pessoas, já que todas as revistas aqui pesquisadas o abordavam de alguma maneira, foram encontrados muitos textos curtos e pequenas notas que expunham principalmente a vida urbana e suas cenas cotidianas, como o ambiente doméstico, o comportamento das crianças, os problemas do trânsito, as relações estabelecidas entre as pessoas nas ruas da cidade, as ações da prefeitura carioca e dos demais governantes do país – aqui, sempre em um tom crítico e pessimista. O editorial "Melancolia da pobreza brasileira" (edição 2.177, de 18 de março de 1950), resumia a visão do corpo editorial da revista a respeito do país, e dizia: "vivemos uma ilusão, um romântico ufanismo, e que somos um dos países mais pobres e miseráveis do mundo".

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