COLORECTAL CANCER
9. Cancer, inflammation et microARNs
9.3 Inflammation et cancer : le rôle des microARNs
Uma vez que o herói aceita a aventura, com a ajuda do Mentor ou Velho Sábio, passa pelo primeiro limiar, que separa o mundo quotidiano do mundo da aventura. Neste momento, não raro, combate um guardião do limiar, representado por um monstro ou por um ser mágico, que tenta lhe impedir a passagem para o mundo da aventura.
Na seqüência, o herói enfrenta uma situação extrema, ou é engolido pelo monstro, ou tem de adentrar em uma caverna, ou ainda descer aos infernos, como forma de teste de sua coragem e de sua força. A esta passagem Campbell dá o nome de Ventre da Baleia.
Para nós, com Augusto Matraga, as coisas são um pouco diferentes. O limiar de sua aventura ascética começa quando é socorrido pelos pretos velhos. Embora pular em um precipício fosse sua única chance de escapar de seus algozes (monstros do limiar), o herói não deixou de passar por este grande teste, pois, caso contrário, teria morrido. Sua força e resistência físicas foram testadas, ao limite, pelos ferozes inimigos, quando o levaram arrastado a um rancho limítrofe ao precipício em que pularia, lugar onde pretendiam liquidar-lhe a vida:
Puxaram e arrastaram Nhô Augusto, pelo atalho do rancho do Barranco, que ficou sendo um caminho de pragas e judiação. E quando chegaram ao rancho do Barranco, ao fim de légua, o Nhô Augusto já vinha quase que só carregado, meio nu, todo picado de faca, quebrado de pancada e enlameado grosso, poeira com sangue. [...] E, aí, quando tudo esteve a ponto, abrasaram o ferro com a marca do gado do Major — que soía ser um triângulo inscrito numa circunferência —, e imprimiram-na, com chiado, chamusco e fumaça, na polpa glútea direita de Nhô Augusto. Mas
recuaram todos, num susto, porque Nhô Augusto viveu-se, com um berro e um salto medonhos. (p. 330)
Picado de faca, quebrado de pau, ofendido em sua masculinidade. O que aconteceu com Nhô Augusto nos faz lembrar das torturas por que passavam os neófitos em ritos de passagem e de iniciação xamânica, em muitas sociedades tribais. Os neófitos eram espancados, circuncidados, tinham um de seus dentes arrancado, parte de seus corpos mutilada, escarificados com pedras cortantes ou dentes de animais e isolados em cavernas ou cabanas na floresta. O sentido destes testes era representar, simbolicamente, a morte ritual do neófito, a fim de que pudesse renascer como outro homem: “As torturas dos candidatos nas sociedades secretas são o equivalente dos sofrimentos terríveis que simbolizam a morte mística do futuro xamã. Tanto num caso quanto no outro, trata-se de um processo de transmutação espiritual.” (ELIADE, 2004, p.118)
Os candidatos que sobreviviam aos primeiros testes rituais alusivos ao simbolismo da morte ritual eram obrigados a permanecer em silêncio e a não utilizar as mãos para comer e, até mesmo, tinham de aprender uma outra língua, além de terem seus nomes trocados pelos mestres da iniciação. Isso tudo para simbolizar que renasciam como crianças, para aprenderem a se comportar de uma forma radicalmente diversa da maneira como se comportavam antes de se submeterem à iniciação. Seus próprios corpos já não eram os mesmos, pois traziam gravadas na pele os estigmas causados pelas violentas provações físicas.
E foi o que aconteceu com Nhô Augusto. Logo após recobrar a consciência, depois de dias desacordado (o tempo, mais uma vez, não é determinado), sobre uma esteira, em um canto escuro da choça de seus benfeitores, comporta-se como se estivesse nascido novamente. Sua primeira explosão emocional não foi blasfemar ou jurar vingança, mas, sim, chorar longamente e chamar pela mãe. Esta passagem nos remete a um inegável simbolismo de renascimento:
E, aí, Nhô Augusto se lembrou da mulher e da filha. Sem raiva, sem
sofrimento31
, mesmo, só com uma falta de ar enorme, sufocando. Respirava aos arrancos, e teve até medo, porque não podia ter tento nessa desordem toda, e era como se o corpo não fosse mais seu.32 Até que pôde chorar, e chorou muito, um choro solto, sem vergonha nenhuma, de menino ao abandono. E sem saber e sem poder, chamou alto soluçando: —Mãe... Mãe... (p. 332) 31 Grifos nossos. 32 Grifos nossos.
A respiração dificultosa e desordenada, o choro de “menino ao abandono” e o chamado pela mãe são imagens que falam por si. A criança quando nasce, estranha o ar que respira pela primeira vez, chora e só se acalma quando é amamentada pela mãe amorosa.
Não cremos ser forçada a comparação entre o abismo em que Augusto Matraga mergulha com a passagem do monomito intitulada por Ventre da Baleia. O que nos autoriza essa comparação é a própria definição de Campbell:
A idéia de que a passagem do limiar mágico é uma passagem para uma esfera de renascimento é simbolizada na linguagem mundial do útero, ou ventre da baleia. O herói, em lugar de conquistar ou aplacar a força do limiar, é jogado no desconhecido, dando a impressão de que morreu (CAMPBELL, 1995, p.91)
Quando Nhô Augusto se atira no precipício, justamente por não conseguir aplacar a força de seus algozes, fica-lhes a impressão de que estaria morto em decorrência da queda que sofrera:
Mas ele alcançara a borda do barranco, e pulara no espaço. Era uma altura. O corpo rolou, lá embaixo, nas moitas, se sumindo.
— Por onde a gente passa, p’ra poder ir ver se ele morreu? Mas um dos capangas mais velho disse melhor:
— Arma uma cruz aqui mesmo. Orósio, para de noite ele não vir puxar teus pés... (p. 330)
Extensão desse Ventre da Baleia representado pelo precipício é o casebre de Serapião e Quitéria. Situado na boca do brejo, no sopé do imenso barranco, esse casebre era um “cofo de barro seco, sob um tufo de capim podre, mal erguido e mal avistado, no meio das árvores como um ninho de maranhões.” (p. 331). Este casebre era tão inacessível que o próprio Serapião tranqüiliza Quitéria, argumentando que os perseguidores de Nhô Augusto não o iriam procurar, pois “a pirambeira não [tinha] descida, só dando muita volta por longe” (p. 331)
O casebre do casal de pretos velhos reporta-nos às cabanas dos auxiliares mágicos, situadas em local inacessível da floresta. Esta imagem, conforme Eliade (2004) a estudou, é uma lembrança da casa dos homens ou cabanas iniciáticas, utilizadas em cerimoniais de ritos de passagem:
A cabana iniciática ilustra, para além do ventre do Monstro devorador, o ventre materno. A morte do neófito significa uma regressão ao estado embrionário [...] A lembrança da cabana iniciática isolada na floresta
conservou-se nos contos populares, mesmo na Europa, muito tempo depois dos ritos de puberdade deixarem de ser praticados. [...] A selva [que a circunda] simboliza ao mesmo tempo o Inferno e a Noite cósmica, ou seja, a morte e as virtualidades; se a cabana é o ventre do monstro devorador, onde o neófito é desfeito e triturado, também é um ventre adoptivo, onde é de novo concebido. Os símbolos da morte iniciática e do renascimento são complementares (ELIADE, 2004, p.66-67)
As analogias entre os acontecimentos que vão da tortura que Nhô Augusto sofre, passando por sua queda no precipício e a ressurreição no âmago da cabana de seus benfeitores (auxiliares mágicos e mentores) são muito contundentes, como atestam os trechos citados. E essas analogias, em razão do simbolismo iniciático que permeia os mitos, inserem elementos temáticos do mito na narrativa de Rosa.