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Inference: calling differential expression

Dans le document Statistical analysis of RNA-Seq data (Page 59-75)

O dedo na ferida…

É bem conhecido, mas poucos se importam…

Há dez anos atrás, ao encabeçar o seu artigo com esta frase, José Marinho Falcão, usando da sua reconhe- cida capacidade para ser irónico e mordaz, colocava o dedo numa ferida que, nos dias que correm, continua aberta. 8 3 N un ca , n un ca s e es qu am d as p es so as

De facto, tanto sob o ponto de vista da Saúde Pública como do da clínica, persistimos hoje em ignorar aquilo que simples leituras mais aprofundadas da informação estatística permitem constatar: existem múltiplas assi- metrias entre vários aspetos da saúde nas mulheres e nos homens. Continuamos cegos, surdos e mudos para os números quando, numa atitude simplista, enfiamos no saco da aglomeração os dados que colhemos num e no outro grupo.

Ao chamar a atenção para o facto de os homens morrerem mais jovens do que as mulheres, deixando-se enredar mais cedo nas teias tricotadas pelas 3 Parcas, Marinho Falcão não deixa de referir o enlevo particular dos homens pela exposição aos fatores que tornam o comum dos seres mortais (uns mais do que outros) vul- neráveis às teias tricotadas pelas 3 Parcas.

Com toda a perspicácia, o autor assinala que apesar

de dominarem, desde sempre, os corredores dos pode- res, os homens nunca se preocuparam seriamente em gerar intervenções e programas de saúde que visassem a sua própria proteção contra as investidas das Parcas. Mas, pergunta-se, como ousar fazê-lo? Acaso o enlevo pela exposição ao risco, de que Marinho Falcão fala, não constitui, em si mesmo, uma forma de adesão à domina- ção dos homens, mesmo que simbólica e nem sempre por mera vontade própria? Não será sempre imprescin- dível à manutenção de um estatuto a exibição dos sinais que o caracterizam?

Ao salientar que, naquele momento, várias iniciati- vas que estavam em curso assinalavam uma atenção crescente à saúde dos homens, Marinho Falcão não deixou de fazer recordar o facto de que falar sobre um assunto é, obviamente, uma importante forma de esti-

mular a ação mas que, por si só, não a concretiza.

Os anos subsequentes deram-lhe razão. Há que reconhecê-lo, apesar da exclamação de que “o rei vai nu” proferida por algumas pessoas, as assimetrias, já

reconhecidas, entre homens e mulheres pouco têm sido levadas em consideração, naquilo que respeita à ponderação dos determinantes e ao desenho e aplica- ção das políticas de saúde.

Mas, a chamada de atenção por parte de José Ma- rinho Falcão, feita há uma década atrás, começa final- mente a ser tida em conta, mesmo que sob a forma de grandes orientações globais. Outra conclusão não pode ser tirada quando a própria Organização Mundial da Saúde, depois de ter difundido a estratégia para a Saúde e Bem-Estar das Mulheres na Região Europa, em 2016, se encontra agora a preparar um documento orientador de cariz semelhante, mas focado na Saúde dos Homens.

Provavelmente, se estivesse ainda entre nós, Ma- rinho Falcão, usando do discernimento que o caracte- rizava, titularia uma das suas Observações de É bem

conhecido e já muitos mais se importam…

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A obesidade tem estado nas nossas bocas e nos nossos ouvidos nos últimos tempos.

Há clara evidência que a prevalência da obesidade e do excesso de peso tem aumentado nas sociedades desen- volvidas. Por isso, cá e lá fora, cada vez se fala mais de uma epidemia de obesidade.

Uma epidemia actual e outra ocorrida no ano passado estão ilustradas na figura publicada neste número de “OBSERVAÇÕES”. Trata-se da epidemia de gripe do pre- sente lnverno, por sinal em fase de descida e a epidemia do lnverno de 2006-2007. Ambas são bons exemplos de epidemias, na sua definição clássica: a incidência come- ça a subir com maior ou menor rapidez, atinge um valor máximo e, depois, desce inexoravelmente até deixarem de existir casos ou, nalgumas doenças, o seu número voltar ao nível endémico. Mas o que pode ser dito da in- cidência de doenças e situações não transmissíveis, cuja evolução se prolonga durante anos ou décadas? Pode- mos chamar-lhes epidemias?

Por exemplo, desde há muitas décadas que a incidência de cancro do pulmão estava a seguir um padrão crescen- te, mas faltava-lhe a descida: podíamos chamar-lhe uma epidemia? Agora a descida já está a ocorrer em muitos países: podemos agora estar seguros de que foi (é) uma epidemia?

As mortes por acidentes de viação também estiveram a aumentar em Portugal ao longo dos anos. Já atingiram o valor máximo e estão também em fase de descida, aliás muito acentuada. Antes de a descida se tornar evidente, tínhamos legitimidade para designar a situação como epidemia? E agora, que a descida está comprovada?

Voltemos à obesidade.

A sua prevalência vem subindo, subindo, subindo...É agora já tão alta que se começou a chamar-lhe epide- mia! À luz da definição clássica talvez possamos ter al- guma relutância em dar-lhe essa designação porque não existe uma fase descendente e porque a escala de tempo em que a “curva epidémica” se desenvolve é in- finitamente maior do que a das epidemias clássicas. Mas tenho para mim que se pode e deve dizer que esta- mos face a uma epidemia de obesidade, que ainda não atingiu a sua fase descendente.

lsto significa que, como o cancro do pulmão ou os aci- dentes de viação, essa fase descendente ocorrerá mais tarde ou mais cedo, e a epidemia será controlada.

Comentado por Isabel do Carmo

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