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3.2 Inférence probabiliste

3.2.3 Inférence approchée

O Papa, consciente do «dinamismo de “saída” que Deus quer provocar nos crentes»,151 e de que a «saída missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja»,152 constantemente convida a aceitar o chamamento do Senhor a «sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho»,153

alcançar todos, sem exceções nem exclusões,154 principalmente os excluídos, os pobres e

os abandonados: «sair de si mesmo, […] caminhar e […] semear sempre de novo»,155

«anunciar, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível».156

O pontificado de Francisco diz-nos que a vocação da Igreja é pastoral.157 Francisco acredita que a opção básica da Igreja é «sair para a rua à procura das pessoas, conhecer as pessoas pelo seu nome»,158 num movimento de saída que supõe conversão, abertura, encontro e diálogo com as diferenças que se encontram nas fronteiras e periferias da vida. Supõe «abraçar o risco do encontro com o rosto do outro»,159 e descobrir neles o rosto de Jesus.

Esta preocupação em pôr a Igreja em saída missionária surge já em Aparecida160 e passou para a Evangelii gaudium, de tal modo que o primeiro capítulo encerra com o constante apelo à saída: «saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo».161 Mas essa saída deve ser consciente do ritmo que cada um pode suportar. No número 48 da

Evangelii gaudium encontramos as orientações claras sobre a quem os destinatários

privilegiados neste dinamismo de saída:

150 Gaudete et exsultate, nº 81. 151 Evangelii gaudium, nº 20. 152 Evangelii gaudium, nº 15. 153 Evangelii gaudium, nº 20. 154 Cf. Neto, Hora de mudança, 102. 155 Evangelii gaudium, nº 21. 156 Evangelii gaudium, nº 14.

157 Johan Konings & Geraldo Luiz de Mori, «O Papa da conversão e da misericórdia», Perpectiva Teológica

48, nº1 (2016): 11-16.

158 Sergio Rubin & Francesca Ambroguetti, El jesuita (Buenos Aires: Vergara, 2010) 75. 159 Evangelii gaudium, nº 88.

160 Fernandéz & Rodari, A revolução suave, 36-37. 161 Evangelii gaudium, nº 49.

Não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, «àqueles que não têm com que te retribuir» (Lc 14, 14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, «os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho», e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos.162

Diante desta atitude de saída, o Papa afirma que «a Igreja “em saída” é a comunidade de discípulos missionários que “primeireiam”, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam»163 e, neste sentido, prefere uma Igreja «acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças»,164 onde o medo de falhar não supere a vontade de sair, tanto mais porque o fechamento põe as coisas a cheirar a mofo.165 Os males que, ao longo do tempo, se verificam nas instituições eclesiais têm raiz na autorreferencialidade, que busca Jesus Cristo dentro de si e não o deixa sair. Francisco quer ir além do espaço interior à Igreja, chamando a atenção para o facto de que a Igreja não pode ser autorreferencial. Francisco quer sair do bafio de uma Igreja centrada em si. «A saída missionária descentra a Igreja de si mesma e centra-a no essencial da sua missão»166

Esta «reforma de estruturas a que a conversão pastoral exige é só para que todas elas se tornem mais missionárias, expansivas e abertas, para colocar os agentes pastorais em constante atitude de saída. Mas tem de ser uma saída que provoque proximidade, contacto».167 Esta é uma atitude para toda a Igreja, sair para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo. Sair, ter as portas abertas, sem medo de falhar. Uma Igreja que, tal como Abraão, Jacob ou Moisés, se coloca a caminho do desconhecido, tendo por única certeza a convicção de que Deus caminha ao seu lado.

Na perspetiva de W. Kasper, o Papa «perfilha assim uma exigência conciliar, amiúde descurada, e inicia uma nova fase na receção do Concílio».168 Se até aqui houve uma preocupação centrada na renovação interna, através da reforma litúrgica e das estruturas, agora, a Igreja deve preocupar-se em «sair de si e ir para as periferias, para os novos ambientes socioculturais»,169 não só as periferias geográficas «mas também as

162 Evangelii gaudium, nº 48. 163 Evangelii gaudium, nº 24. 164 Evangelii gaudium, nº 49.

165 Cf. Papa Francisco, Audiência Geral, 04-05-2016, http://bit.ly/2RQC6Hl 166 Neto, Hora de mudança, 101.

167 Fernandéz & Rodari, A revolução suave, 90. 168 Kasper, Papa Francisco, 98.

periferias da existência humana:»170 «do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da

ignorância, da falta de fé, do pensamento, de todas as formas de miséria»,171 pois «a

acção missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja […] sendo necessário passar “de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária”».172

Esta pastoral missionária deve ter presente o exemplo contido na passagem do bom samaritano.173 Para esta nova perspetiva apontara já Paulo VI na última sessão do Concílio Vaticano II, a 7 de dezembro de 1965, quando no seu discurso aduziu o exemplo do samaritano compassivo como modelo da espiritualidade do Concílio.174 Para Francisco, «uma Igreja samaritana não significa […] uma Igreja meramente “assistencial”, mas uma Igreja que nas suas atitudes e no seu estilo de vida se identifica com os pobres, à imitação de Cristo».175 «O homem socorrido pelo Samaritano não é caracterizado pela sua religião, nem pela raça ou condição social, é identificado apenas pela situação em que se encontra». 176

Chegados ao fim do Capítulo II, podemos compreender melhor a pessoa e o pensamento do Papa Francisco, bem como o seu desejo de transformar a Igreja mediante uma ação missionária que privilegie os pobres. Com esta base programática do seu pontificado, «o Papa está a indicar à Igreja uma estratégia de sobrevivência e de fidelidade a si mesma».177 O Papa pede-nos que sejamos discípulos missionários, não uma coisa ou

outra, mas as duas em simultâneo.178 É esse o paradigma de toda a Igreja desde a sua

fundação. Não correr em vão implica estar atento aos pobres e, consequentemente, às novas situações de pobreza onde se geram as novas histórias e paradigmas179 que é preciso alcançar com a luz do Evangelho.

A exemplo de Jesus, somos desafiados a ir ao encontro do outro, a escutá-lo, a sofrer com ele e a rir com ele, a ser agentes de libertação capazes de reconhecer as características dos pobres e, com elas, potenciar um desenvolvimento integral.

170 Evangelii gaudium 20-23, 27-31, 78-86, etc.

171 Octávio Carmo, «Vaticano: Papa convida Igreja a presença reforçada nas “periferias” existenciais»,

Ecclesia, 25-08-2014, http://bit.ly/2OrRHz9

172 Evangelii gaudium, nº 15.

173 Cf. Barnosel, «A Igreja dos pobres», 190. 174 Kasper, Papa Francisco, 53.

175 Barnosel, «A Igreja dos pobres», 192.

176 Conferência Episcopal Espanhola, Igreja, servidora dos pobres, 41, http://bit.ly/2MIEJb7 177 Fernandéz & Rodari, A revolução suave, 65.

178 Evangelii gaudium, nº 120.