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3. Housing inequalities

3.4 Inequalities in dampness in the home

Ao lado dessas investigações e desses artigos, como o Sr. si­ tua o volumoso livro publicado subitamente em 1981, La nais-

sance du Purgatoire?

Não foi, com certeza, uma realização repentina. No meu caso, as publicações aparentemente súbitas não são senão o re­ sultado de encomendas que eu aceito, como já vimos, somente por se tratar de um assunto sobre o qual eu já pensei muito e so­ bre o qual trabalhei seriamente. Nem o Purgatório,28 cuja elabo­ ração e redação exigiram de mim bem uns dez anos, nem o São

27 DUBY, G. Les Trois Ordres ou l'imaginaire du féodalisme, Paris: Gallimard, 1978. (Col. “Bibliothèque des Histoires”).

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Luís, que me tomou ainda mais tempo, podem ser considerados

repentinos.

O ponto de partida é constituído pelas viagens ao além, os apocalipses, estudados nos seus seminários?

É de fato o período no qual me interessei mais particular­ mente pela etnologia e pela “cultura popular”. Eu estudava em meus seminários uma série de textos extremamente apaixonan- tes. Trata-se de um gênero que se desenvolveu entre o primeiro século da era cristã e os dois seguintes, ao qual se deu o nome de apocalipse, segundo o grego: o que foi revelado sobre o além e o fim do mundo. O mais célebre dos apocalipses cris­ tãos é erroneamente atribuído a São João, e a própria Igreja re­ conhece tratar-se de um erro, uma vez que o texto foi escrito bem no final do primeiro século, numa data em que o apóstolo certamente já estava morto.

O Sr. observa, em relação ao purgatório, que a passagem do adjetivo ao substantivo oferece a prova de uma evolução es­ sencial?

Lendo esses textos, impressionei-me com um detalhe e fi­ quei muito feliz de ter escrito um livro a partir do exercício mais humilde e mais modesto do nosso mister de historiador. Percebi que um determinado número de condenados no além era apresentado como sofrendo penas, castigos, tendo um cará­ ter infernal porque submetidos ao fogo, elemento característico do inferno. Esse fogo e o lugar onde ele queimava, ou a puni­ ção que representavam, eram qualificados por purgadores

{ignis purgatorius, locus purgatorius, poena purgatória). Em

seguida, a partir de um momento cujo começo não posso deter­ minar - seria necessário que eu fizesse uma investigação exaustiva e minuciosa nos textos - , constatei que purgatório não era mais um simples adjetivo, mas tomara-se um substanti­ vo {purgatorium), o purgatório. Tinha-se definido um lugar no além onde se realizava a purgação dessas penas. A passagem do adjetivo ao substantivo pareceu-me algo importante. Sem­

2 2 0 Uma vida para a história

pre estive atento, na linha de Lucien Febvre, por exemplo, ao vocabulário, e mantenho, contra alguns, a convicção de que o aparecimento de uma palavra, a mudança de uma forma grama­ tical correspondem a uma mutação de concepção, a uma muta­ ção de pensamento.

Ora, no lugar em questão aconteciam coisas muito interes­ santes: era ali que os mortos que não tinham se livrado comple­ tamente dos seus pecados - seja por não os terem confessado, seja por não os terem expiado por penitência - se beneficiavam de um período suplementar de expiação que lhes permitia, ape­ sar de tudo, serem salvos.

O aparecimento do “terceiro lugar ” é, a seu ver, essencial?

Pareceu-me que isso modificava de uma maneira funda­ mental a visão do além dos cristãos e, conseqüentemente, as perspectivas de salvação. Estudei o período do aparecimento dessa palavra e achei que seria possível estabelecer que isso se produziu por volta dos anos 1170. Tentei definir os meios que ti­ nham sido seus criadores, os difusores, os publicitários do pur­ gatório, digamos, em dois tipos: de um lado, os que anunciavam a Escolástica do século XIII, em primeiro lugar a Escola do Ca­ pítulo da catedral de Notre-Dame de Paris; e, de outro, os meios cistercienses.

Essa importante novidade suscitou a viva hostilidade daque­ les que a Igreja considerava hereges no século XIII: os cátaros - obcecados pela impureza e não aceitando meio termo entre tudo negro e tudo branco - opunham-se de maneira absoluta ao pur­ gatório. Mais tarde, foi necessário contar com a oposição dos protestantes. Lutero foi um grande inimigo desse terceiro lugar. Acredito, ao contrário, que diante do maniqueísmo do paraíso e do inferno, o aparecimento do purgatório é significativo de uma evolução das mentalidades, dos comportamentos, das estruturas sociais e, claro, das crenças religiosas. Vejo, portanto, nesse fato, uma espécie de fenômeno social total, retomando a termi­ nologia de Durkheim.

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Esse livro significou uma evolução do seu ponto de vista so­ bre a Idade Média?

Na época em que escrevia La civilisation de l ’Occident mé-

diéval eu tinha uma concepção contrastante e segmentada da Ida­

de Média, por influência de J. Huizinga,29 que via apenas oposições brutais nesse mundo de contrastes e de choques, em que o odor das rosas está misturado ao do sangue. Pouco a pouco, dei-me conta de que, ao contrário, a abertura provavelmente mais importante para a nossa civilização, para a Europa, para o Oci­ dente, foi a de ter sabido escapar da oposição branco e preto, de ter conseguido se afastar do maniqueísmo e criar intermediários. Por isso, o purgatório, lugar intermediário por excelência, está intimamente ligado à evolução da minha imagem da Idade Mé­ dia. Quando eu disse um dia, na televisão: “Eu creio no purgató­ rio”, isso queria dizer que eu creio que o purgatório foi um fenômeno historicamente positivo. Com o purgatório, vê-se como os homens, e em especial o clero, mas não apenas ele, se apro­ priam do além, desse poder de Deus sobre o tempo do além que, até então, só a Ele pertencia. No mesmo momento no século XIII, pode-se também ver como os homens se apropriaram de toda a sacralidade, especialmente a do poder real. Esse foi um dos temas de pesquisas que acompanhei em tomo da pessoa de São Luís.